LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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abaixo da qual situam-se os infernos, acima da qual, parte superior da esfera, encontra-se o
Firmamento, a cúpula portando as estrelas fixas, os círculos de planetas, espaço atravessado pelas
mensagens e mensageiros divinos, preenchido pela Glória luminosa da Trindade, tal foi a concepção
do espaço em São Tomás e n\u2019A Divina Comédia. Quanto aos espaços de representação, eles colocam
no centro da vizinhança a igreja aldeã, o cemitério, o edifício da câmara e os campos, ou ainda a
praça e a torre da cidade. Esses espaços de representação interpretam por vezes maravilhosamente as
representações cosmológicas; assim, o caminho de Saint Jacques duplica sobre a superfície terrestre
a Via que vai do Câncer ao Capricórnio na cúpula celeste, a Via láctea, rastro de esperma divino
onde nascem as Almas, que seguem a encosta, caem na terra e encontram, se conseguem, a via da
redenção: a peregrinação que os conduz a Compostela (o campo de estrelas). O corpo,
evidentemente, entra no jogo de representações concernentes ao espaço: \u201cTouro domina sobre o
pescoço; Gêmeos sobre os ombros; Câncer sobre as mãos e os braços; Leão sobre o peito, o coração
e o diafragma; Virgem sobre o estômago; Libra diz respeito à segunda parte dos rins; Escorpião os
locais próprios à concupiscência...\u201d, declara Alberto, o Grande.
121) Pode-se supor que a prática espacial, as representações do espaço e os espaços de representação
intervêm diferentemente na produção do espaço: segundo suas qualidades e propriedades, segundo as
sociedades (modo de produção), segundo as épocas. As relações entre esses três momentos \u2013 o
percebido, o concebido, o vivido \u2013 nunca são simples, nem estáveis, tampouco são, mais \u201cpositivas\u201d,
no sentido em que esse termo opor-se-ia ao \u201cnegativo\u201d, ao indecifrável, ao não-dito, ao interdito, ao
inconsciente. Esses momentos e suas conexões cambiantes são conscientes? Sim, e contudo
malconhecidos. Pode-se declará-los \u201cinconscientes\u201d? Não, pois geralmente são ignorados, e a análise
os retira da sombra, com risco de equívocos. Tais conexões, das quais sempre é preciso falar, o que
não equivale a saber, mesmo \u201cinconscientemente\u201d.
122) I.18 Se há produção e processo produtivo do espaço, há história; assim, pode-se formular a
quarta implicação. A história do espaço, de sua produção enquanto \u201crealidade\u201d, de suas formas e
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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representações, não se confunde nem com o encadeamento causal de fatos ditos \u201chistóricos\u201d
(datados), nem com a sucessão, com ou sem finalidade, de costumes e leis, de idéias e ideologias, de
estruturas sócio-econômicas ou de instituições (superestruturas). As forças produtivas (natureza,
trabalho e organização do trabalho, técnicas e conhecimentos) e, obviamente, as relações de
produção, têm um papel \u2013 a determinar \u2013 na produção do espaço.
123) Trata-se, afinal, de declarar que a passagem de um modo de produção a outro apresenta o maior
interesse teórico, enquanto efeito de contradições nas relações sociais de produção, que não podem
deixar de se inscrever no espaço, subvertendo-o. Cada modo de produção tendo, por hipótese, seu
espaço apropriado, um novo espaço se produz durante a transição. O modo de produção considerado
como acabado (sistema fechado) passa por objeto privilegiado; o pensamento ávido de transparência
ou de substancialidade ou de ambos tem uma predileção por um tal \u201cobjeto\u201d. Ao contrário, as
transições revelarão a produção de um espaço novo, pela seqüência ordenada. Assim, a cidade do
Renascimento, dissolução de relações feudais e crescimento do capitalismo comercial. Então se
constitui o código ao qual foi feita alusão, do qual a análise (pondo o acento no paradigma) ocupará
mais adiante um bom número de páginas. Em via de formação desde a antigüidade (a cité grega e
romana, mas também os trabalhos de Vitrúvio e dos filósofos) esse código fornecera uma linguagem
aos escritores. Ele corresponde à prática espacial, e sem dúvida à representação do espaço, mais que
aos espaços de representação, ainda impregnados de magia e de religião. Que o código se estabelece,
isso quer dizer que as \u201cpessoas\u201d \u2013 habitantes, construtores, políticos \u2013 deixaram de ir de mensagens
urbanas ao código decifrando (descriptando) a realidade, cidade e campo, para ir do código às
mensagens produzindo discurso e realidade adequadas. Esse código tem uma história, que resulta da
história inteira da cidade, no Ocidente. Ele deve permitir à organização urbana, a várias retomadas
subvertida, tornar-se saber e poder, portanto, instituição. O que começa o declínio, o fim da
autonomia das cidades e do sistema urbano como realidade histórica. O Estado erige-se acima das
cidades históricas; ele fará explodir a estrutura e o código. Um tal código é uma superestrutura, não a
própria cidade e o espaço e a relação \u201ccidade-campo\u201d nesse espaço. Com esse código fixaram-se o
alfabeto e a língua da cidade, os signos elementares, seu paradigma e suas ligações sintagmáticas.
Em termos menos abstratos, as fachadas se conciliam para determinar as perspectivas; as entradas e
saídas, portas, janelas, subordinam-se às fachadas, às perspectivas; ruas e praças ordenam-se em
torno de edifícios, palácios de chefes políticos e de instituições (as autoridades municipais tendo
ainda uma predominância). A diversos níveis, da morada familiar ao monumento, do espaço
\u201cprivado\u201d ao território, os elementos desse espaço se dispõem e se compõem de uma maneira ao
mesmo tempo conhecida e surpreendente, que não perdeu seu charme no final do século XX. O
código do espaço permitia ao mesmo tempo nele viver, compreendê-lo, produzi-lo. Ele não fornecia
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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um simples procedimento de leitura. Ele reunia signos verbais (palavras, frases, com seu sentido
resultando de um processo significante) e signos não verbais (músicas, sons, chamados, construção
arquitetural).
124) A história do espaço não pode se contentar em estudar esses momentos privilegiados: a
formação, o estabelecimento, o declínio e o estilhaçamento de tal código. Ela não pode deixar de
lado o global: os modos de produção como generalidades, as sociedades particulares que eles
englobaram com suas singularidades, eventos, instituições. A história do espaço periodizará o
processo produtivo de uma maneira que não coincidirá exatamente com as periodizações admitidas.
125) O espaço absoluto consiste em fragmentos da natureza, em lugares eludidos por suas qualidades
intrínsecas (caverna ou cume, fonte ou rio), mas dos quais a consagração termina por esvaziá-los
dessas características e particularidades naturais. O espaço-natureza se povoa de forças políticas. A
arquitetura subtrai à natureza um lugar para aprestá-lo ao político através de um simbolismo (assim
como o estatuto do deus local ou da deusa no templo grego, o santuário vazio ou contendo um
simples espelho num templo xintoísta etc.). Uma interioridade consagrada se opõe à exterioridade
natural e, entretanto, a retoma e a reúne. O espaço absoluto no qual se desenrolam ritos e cerimônias
retém da natureza certos traços que se modificam para se incorporar ao cerimonial: as idades, os
sexos, a genitalidade (fecundidade). Ao mesmo tempo cívico e religioso, o espaço absoluto conserva,
pois, nele, as descendências, relações imediatas, mas transferidas à cidade, ao Estado político
fundado sobre a cidade. As forças sócio-políticas que ocupam esse espaço também têm implicações
administrativas e militares: nem os