LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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escribas, nem os exércitos ficam de lado. Os que fazem o espaço
(os camponeses, os artesãos) não são os que o gerem servindo-se dele para organizar a produção e a
reprodução sociais, a saber, os sacerdotes, guerreiros, escribas, príncipes. Estes possuem o espaço
que outros produzem, e o apropriam dele usufruindo.
126) Do espaço absoluto, religioso e político, produzido por comunidades de sangue, de terror, de
língua, procede o espaço relativizado, histórico. O espaço absoluto não desaparece por isso; ele
persiste como camada ou sedimento do espaço histórico, suporte de espaços de representação
(simbolismos religiosos, mágicos, poéticos). Um movimento dialético interno o anima, impele-o para
seu fim e, entretanto, o perpetua: o pleno e o vazio se combatem nele. A plenitude invisível do
espaço político (aquele da cité da Cidade-Estado) se instaura no vazio de um espaço natural
subtraído à natureza, à maneira da \u201cnave\u201d ou du \u201cvaisseau\u201d de uma catedral. Em seguida, a
historicidade rompe definitivamente a naturalidade instaurando-se sobre as ruínas deste espaço de
acumulação (de todas as riquezas e recursos: os conhecimentos, as técnicas, o dinheiro, os objetos
preciosos, as obras de arte e os símbolos). Dessa acumulação e sobretudo de seu período primitivo,
onde se distinguem ainda mal a naturalidade e a historicidade, Marx deixou a teoria, sobre a qual
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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será preciso retornar, pois ela permanece incompleta. Um \u201csujeito\u201d domina esse período: a cidade
histórica ocidental, com seu território que ela domina. No curso desse período, a atividade produtiva
(o trabalho) deixa de se confundir com a reprodução que perpetua a vida social; ela se desprende,
mas para se tornar a presa da abstração: trabalho social abstrato, espaço abstrato.
127) Esse espaço abstrato assume a seqüência do espaço histórico, que também nele persiste como
sedimento e suporte, que vai se debilitando, de espaços de representação. O espaço abstrato funciona
\u201cobjetalmente\u201d como conjunto de coisas-signos, com suas relações formais: o vidro e a pedra, o
cimento e o aço, os ângulos e as curvas, os plenos e os vazios. Esse espaço formal e quantificado
nega as diferenças, as que provêm da natureza e do tempo (histórico), assim como as oriundas do
corpo, idades, sexos, etnias. A significância de um tal conjunto remete a uma sobre-significância que
escapa ao sentido: o funcionamento do capitalismo, ao mesmo tempo estilhaçante e dissimulado. O
espaço dominante, o dos centros de riqueza e de poder, se esforça para aprestar os espaços
dominados, os das periferias. Ele reduz a si, por uma ação freqüentemente violenta, os obstáculos e
resistências. Quanto às diferenças, são remetidas por sua própria conta a simbolismos que tomam
obrigatoriamente a forma de uma arte ela própria abstrata. De fato, o simbólico derivado do
malconhecimento do sensível, do sensual, do sexual, malconhecimento inerente às coisas-signos do
espaço abstrato, se objetiva de maneira derivada: aura fálica de monumentos-edificações, arrogância
das torres, autoritarismo (burocrático-político) imanente ao espaço repressivo. O que exige uma
análise aprofundada. Uma das contradições inerentes ao espaço abstrato consiste na negação do
sensual e do sexual ao passo que não tem por referência senão a genitalidade: a célula familiar
moradia, apartamento, pavilhão, vivenda etc.), a paternidade e a maternidade, a identidade colocada
entre a fecundidade e o gozo. A reprodução das relações sociais se confunde, assim, brutalmente
com a reprodução biológica, ela mesma concebida de uma maneira tão simples quanto grosseira. Na
prática espacial, a reprodução das relações sociais predomina. A representação do espaço, ligada ao
saber como ao poder, reserva apenas um lugar mínimo aos espaços de representação, reduzidos às
obras, às imagens, às lembranças, onde o conteúdo afastado (sensorial, sensual, sexual) aflora apenas
o simbolismo. Se a criança pode viver num tal espaço indiferente à idade e ao sexo (ao próprio
tempo), o adolescente aí sofre, pois ele não descobre sua própria realidade nem como imagem viril
ou feminina, nem como imagem de gozo possível. O adolescente que não pode enfrentar nem a
arrogância dos edifícios, nem a exibição dos signos, só pode encontrar as diferenças, o natural, o
sensorial-sensual, o sexual e o gozo, pela revolta.
128) O espaço abstrato não se define apenas pela desaparição das árvores, o distanciamento da
natureza; e não só pelos grandes vazios estatistas e militares, os lugares-cruzamentos, ou pelos
centros comerciais onde confluem as mercadorias, o dinheiros, os veículos. Ele não se define
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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partindo-se do percebido. Sua abstração nada tem de simples: ela não é transparente e não se reduz
nem a uma lógica, nem a uma estratégia. Sua abstração não coincide nem com a do signo, nem com
a do conceito que funciona negativamente. Esse espaço carrega a negatividade em relação ao que o
precede e o suporta: o histórico, o religioso-político. Ele funciona também negativamente em relação
ao que nele nasce e ao que o atravessa, um espaço-tempo diferencial. Ele nada tem de um \u201csujeito\u201d e,
contudo, ele age como um \u201csujeito\u201d veiculando e mantendo determinadas relações sociais,
dissolvendo outras, opondo-se, ainda, a outras. Esse espaço abstrato funciona positivamente em
relação à suas implicações: técnicas, ciências aplicadas, saber ligado ao poder. Ele é mesmo
identicamente o lugar, o meio, o instrumento dessa \u201cpositividade\u201d. Como é possível? Definir-se-ia
pela alienação reificante, o meio da mercadoria tornado ele próprio mercadoria, vendido no atacado e
no varejo? Talvez, mas sua \u201cnegatividade\u201d não é por isso negligenciável, e o abstrato não se reduz à
\u201ccoisa absoluta\u201d. A partir de agora, o estatuto desse espaço abstrato aparece como altamente
complexo. Se ele dissolve, englobando-os, os \u201csujeitos\u201d antigos, a aldeia, a cidade, ele substitui esses
\u201csujeitos\u201d. Ele se constitui em espaço do poder, o que provoca eventualmente (possivelmente) sua
própria dissolução em razão de conflitos (contradições) que nele nascem. Haveria, portanto, o
pseudo-sujeito aparente, impessoal, o Se abstrato, o espaço social moderno \u2013 e, escondido nele,
velado por sua transparência ilusória, o verdadeiro \u201csujeito\u201d, o poder estatista (político). Nesse
espaço, e sobre ele, tudo se declara: se diz e se escreve. Enquanto há pouco a dizer, ainda menos a
viver. O vivido se esmaga. O concebido o assalta. O histórico se vive como nostalgia, e a natureza
como nostalgia, o horizonte para trás {perdido}. O afetivo, com o sensorial-sensual, permanecendo
aquém desse espaço, não impregnando nenhum simbolismo, teria, portanto, encontrado esse nome
que designa um sujeito e sua refutação pela absurda racionalidade do espaço: o inconsciente.
129) A respeito desse espaço abstrato, instrumental (portanto, manipulado por toda espécie de
\u201cautoridades\u201d, seu lugar e meio) ganha corpo uma interrogação cujo alcance só aparecerá mais tarde.
Ela concerne ao silêncio dos usuários. Por que eles suportam sem vastas revoltas as manipulações
que lhes custam seus espaços, suas vidas cotidianas? Por que os protestos permanecem limitados a
\u201cgrupos esclarecidos\u201d, portanto, elitistas, que geralmente evitam essas manipulações? Os meios
elitistas, à margem dos meios políticos, fazem barulho \u2013 falatórios {palavreados} \u2013 sem grandes
resultados. Por que os protestos não ganham os partidos políticos