LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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urbanístico, o arquitetural...
8) A concepção do espaço como produto social não avançava sem dificuldades. Dito de outra
maneira, sem uma problemática em parte nova e imprevista.
9) Não designando um \u201cproduto\u201d insignificante, coisa ou objeto, mas um conjunto de relações, esse
conceito exigia um aprofundamento das noções de produção, de produto, de suas relações. Como
dizia Hegel, um conceito só aparece quando designa, anuncia, aproxima-se de seu fim \u2013 e de sua
transformação. O espaço não pode mais ser concebido como passivo, vazio, ou então, como os
\u201cprodutos\u201d, não tendo outro sentido senão o de ser trocado, o de ser consumido, o de desaparecer.
Enquanto produto, por interação ou retroação, o espaço intervém na própria produção: organização
do trabalho produtivo, transportes, fluxos de matérias-primas e de energias, redes de repartição de
produtos. À sua maneira produtivo e produtor, o espaço (mal ou bem organizado) entra nas relações
de produção e nas forças produtivas. Seu conceito não pode, portanto, ser isolado e permanecer
estático. Ele se dialetiza: produto-produtor, suporte de relações econômicas e sociais. Ele não entra
também na reprodução, a do aparelho produtivo, da reprodução ampliada, das relações que ele
realiza praticamente, \u201cno terreno\u201d?
10) Desde que formulada, essa noção não se esclarece e não esclarece muitos fatos? Ela não atingiria
a evidência: a realização \u201cno terreno\u201d, portanto num espaço social produzido, de relações sociais de
produção e de reprodução? Elas podem permanecer \u201cno ar\u201d, abstrações pelo e para o saber?
Ademais, essa teorização permite compreender a originalidade do projeto (permanecendo no quadro
limitado do modo de produção existente), o da planificação espacial. Para compreendê-lo, mas
também para modificá-lo, completá-lo, em função de outras demandas e de outros projetos; mas
considerando sua qualidade, e notadamente o fato que ele se preocupava da urbanização. Portanto, a
retomar.
11) Em segundo lugar, e sem menos dificuldade: na estrita tradição marxista, o espaço social podia
ser considerado como uma superestrutura. Como resultado de forças produtivas e de estruturas, de
relações de propriedade entre outras. Ora, o espaço entra nas forças produtivas, na divisão do
trabalho; ele tem relações com a propriedade, isso é claro. Com as trocas, com as instituições, a
cultura, o saber. Ele se vende, se compra; ele tem valor de troca e valor de uso. Portanto, ele não se
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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situa a tal ou tais \u201cníveis\u201d, \u201cplanos\u201d classicamente distinguidos e hierarquizados. O conceito do
espaço (social) e o próprio espaço escapam, portanto, à classificação \u201cbase-estrutura-superestrutura\u201d.
Como o tempo? Talvez. Como a linguagem? É o que veremos. Seria preciso, por isso, abandonar a
análise e a orientação marxistas? De todos os lados surge esse convite, essa sugestão. E não apenas a
propósito do espaço. Mas não se poderia, ao contrário, retornar às fontes, aprofundar a análise
aportando-lhe novos conceitos, aprimorando e experimentando renovar as démarches? É o que se
tenta nesta obra. Ela supõe que o espaço aparece, se forma, intervém ora a alguns \u201cníveis\u201d ora a
outros. Ora no trabalho e nas relações de dominação (de propriedade), ora no funcionamento das
superestruturas (instituições). Portanto, desigualmente, mas por toda parte. A produção do espaço
não seria \u201cdominante\u201d no modo de produção, mas religaria os aspectos da prática coordenando-os,
reunindo-os, precisamente, numa \u201cprática\u201d.
12) E isso não é tudo. Longe disso. Se o espaço (social) intervém no modo de produção, ao mesmo
tempo efeito, causa e razão, ele muda com esse modo de produção! Fácil de compreender: ele muda
com \u201cas sociedades\u201d, se se quiser exprimir assim. Portanto, há uma história do espaço. (Como do
tempo, dos corpos, da sexualidade etc.). História ainda por escrever.
13) O conceito de espaço reúne o mental e o cultural, o social e o histórico. Reconstituindo um
processo complexo: descoberta (de espaços novos, desconhecidos, continentes ou o cosmos) -
produção (da organização espacial própria a cada sociedade) - criação (de obras: a paisagem, a
cidade como a monumentalidade e o décor). Isso evolutivamente, geneticamente (com uma gênese),
mas segundo uma lógica: a forma geral da simultaneidade; pois todo dispositivo espacial repousa
sobre a justaposição na inteligência e na junção material de elementos dos quais se produz a
simultaneidade...
14) No entanto, a questão se complexifica. Haveria uma relação direta, imediata e imediatamente
apreendida, portanto transparente, entre o modo de produção (a sociedade considerada) e seu espaço?
Não. Existem desencontros: ideologias se intercalam, ilusões se interpõem. O que esta obra começa a
elucidar. Assim, a invenção da perspectiva, na Toscana, nos séculos XIII e XIV. Não somente na
pintura (escola de Siena), mas de início na prática, na produção. O campo muda: passa do domínio
feudal ao arrendamento; alamedas de ciprestes conduzem os arrendatários à morada do senhor, onde
se encontra um administrador, pois o proprietário mora na cidade, onde é banqueiro, grande
comerciante. A cidade muda, com implicações arquiteturais: a fachada, o alinhamento, o horizonte.
Essa produção de um novo espaço, o perspectivo, não se separa de uma transformação econômica:
crescimento da produção e das trocas, ascensão de uma nova classe, importância das cidades etc.
Mas o que efetivamente se passou não teve a simplicidade de um encadeamento causal. O espaço
novo foi concebido, engendrado, produzido para e pelos príncipes? Por ricos mercadores? Por um
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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compromisso? Ou pela cidade enquanto tal? Mais de um ponto permanece obscuro. A história do
espaço (como a do tempo social) está longe de ser esgotada.
15) Outro caso, ainda mais surpreendente, igualmente evocado e mal elucidado nesta obra: a
Bauhaus; mais Le Corbusier. Os integrantes da Bauhaus, Gropius e seus amigos, considerados
revolucionários, na Alemanha, entre 1920 e 1930; considerados Bolcheviques! Perseguidos, foram
para os EUA, onde revelaram-se práticos (arquitetos e urbanistas) e até teóricos do espaço dito
moderno, aquele do capitalismo \u201cavançado\u201d. Eles contribuíram para a sua construção: para a sua
realização \u201cno terreno\u201d, através de suas obras e de seu ensino. Desventura e destino trágico para Le
Corbusier! E, em seguida, novamente, para os que consideraram os grandes conjuntos e os \u201cbairros\u201d
como o habitat específico da classe operária. Eles negligenciaram o conceito de modo de produção,
produzindo também seu espaço e assim se terminando. Em nome da modernidade. O espaço da
\u201cmodernidade\u201d tem características precisas: homogeneidade-fragmentação-hierarquização. Ele tende
para o homogêneo por diversas razões: fabricação de elementos e materiais - exigências análogas
intervenientes -, métodos de gestão e de controle, de vigilância e de comunicação. Homogeneidade,
mas não de plano, nem de projetos. De falsos \u201cconjuntos\u201d, de fato, isolados. Pois paradoxalmente
(ainda) esse espaço homogêneo se fragmenta: lotes, parcelas. Em pedaços! O que produz guetos,
isolados, grupos pavilhonares1 e pseudoconjuntos mal ligados aos arredores e aos centros. Com uma
hierarquização estrita: espaços residenciais, espaços comerciais, espaços de lazer, espaços para os
marginais etc. Uma curiosa lógica desse espaço predomina: que ele se vincula ilusoriamente à
informatização e oculta, sob sua homogeneidade,