LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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ditos \u201cde esquerda\u201d? Por que os
políticos mais avistados {esclarecidos} pagam caro por sua lucidez?38 A burocracia já teria um tal
peso que nada de política possa resistir a ela? Um tal fenômeno, muito surpreendente, mundial, deve
 
38 Trata-se, entre outros, do PSU e de seu dirigente, M. Rocard, vencido nas eleições de 1973, na França; como também, nos
Estados Unidos, de Mc Govern, em 1971.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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ter causas e razões múltiplas. Como uma também estranha indiferença poderia se manter se a atenção
e o interesse dos \u201cusuários\u201d não estão desviados para outra coisa? Se não houvessem álibis propostos
às suas reivindicações e proposições? Se não houvesse substituição de objetos a esses objetivos,
porém, essenciais? Ao espaço social substitui, talvez, uma porção ilusoriamente privilegiada desse
espaço, a parte escrituraria e imaginada, assentada em escritos (jornalismo, literatura), acentuada
pela mídia, em suma, a abstração dotada de uma terrível potência redutora do \u201cvivido\u201d.
130) Apoiado pelo saber não crítico (positivo), sustentado por uma capacidade de violência
terrificante, mantido por uma burocracia que se apodera dos resultados do capitalismo ascendente em
seu proveito, esse espaço abstrato durará sempre? Se fosse assim, seria preciso ver nele o lugar e
meio da última abjeção, a estabilidade final prevista por Hegel, o resultado da entropia social. Contra
essa abjeção, não haveria mais outro recurso a não ser os espasmos do Acéfalo (Georges Bataille). O
terreno vago seria o último recurso da vitalidade irredutível.
131) Numa perspectiva menos pessimista, pode-se mostrar que o espaço abstrato contém contradições
específicas; essas contradições do espaço procedem, em parte, de antigas contradições, oriundas do
tempo histórico, modificando-as: ora agravando-as, ora atenuando-as. Entre essas antigas
contradições nascem novas, que eventualmente conduzem o espaço abstrato em direção a seu fim.
No seio desse espaço, a reprodução das relações sociais de produção não se consuma sem um duplo
movimento: dissolução de relações, nascimento de novas relações. De modo que o espaço abstrato,
em que pese sua negatividade (ou melhor, em razão dessa negatividade), engendra um novo espaço,
que terá o nome de espaço diferencial. Por que? Porque o espaço abstrato tende para a
homogeneidade, porque ele reduz as diferenças (particularidades) existentes, e porque o espaço novo
só pode nascer (ser produzido) acentuando as diferenças. Ele reunirá o que o espaço abstrato separa:
as funções, os elementos e momentos da prática social. Ele acabará com as localizações que rompem
a unidade do corpo (individual e social), do corpo de necessidades, do corpo do conhecimento. Ao
contrário, ele discernirá o que o espaço abstrato tende a confundir, entre outras, a reprodução social
com a genitalidade, o gozo com a fecundidade biológica, as relações sociais com as relações
familiares (enquanto uma diferenciação cada vez mais indispensável os discerne, e que o espaço do
gozo, se ele se produz, não terá nada em comum com os espaços funcionais, sobretudo com o espaço
da genitalidade: as células familiares e sua disposição em caixas superpostas, os imóveis
\u201cmodernos\u201d, as torres, os \u201cconjuntos urbanos\u201d etc.).
132) I.19 Se cada sociedade produz um espaço, o seu, seguem-se ainda algumas conseqüências. Uma
\u201cexistência social\u201d que se desejasse e se dissesse \u201creal\u201d, mas não produzisse seu espaço,
permaneceria uma entidade, uma espécie de abstração muito particular; ela não sairia do ideológico,
até do \u201ccultural\u201d. Ela cairia no folclore e cedo ou tarde definharia, perdendo ao mesmo tempo sua
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identidade, sua denominação, seu pouco de realidade. O que deixa entrever um critério, permitindo
discernir o ideológico da prática, assim como do saber (distinguir o vivido do percebido e do
concebido, com suas relações, oposições e disposições, esclarecimentos e ocultações).
133) Sem nenhuma dúvida, a sociedade medieval (o modo de produção feudal, suas variantes e
particularidades locais) criou seu espaço. Ele se estabeleceu sobre o espaço anteriormente
constituído, conservando-o como sedimento e suporte de símbolos; de maneira análoga, ele persiste.
Castelos, monastérios, catedrais, foram os pontos fortes, fixando na paisagem, transformada pelas
comunidades camponesas, a rede de caminhos e estradas. Esse foi o espaço do \u201ctake off\u201d, da
arrancada da acumulação na Europa ocidental, as cidades sendo o lugar original, o berço dessa
acumulação.
134) O capitalismo e o neo-capitalismo produziram o espaço abstrato que contém o \u201cmundo da
mercadoria\u201d, sua \u201clógica\u201d e suas estratégias à escala mundial, ao mesmo tempo que a potência do
dinheiro e a do Estado político. Esse espaço abstrato apóia-se em enormes redes de bancos, centros
de negócios, de grandes unidades de produção. E também no espaço das auto-estradas, dos
aeroportos, das redes de informação. Nesse espaço, a cidade, berço da acumulação, lugar da riqueza,
sujeito da história, centro do espaço histórico, explodiu.
135) O \u201csocialismo\u201d (isso que hoje em dia assim se chama, de uma maneira confusa; de fato, não
existe \u201csociedade comunista\u201d e seu conceito se obscurece, a noção de \u201ccomunismo\u201d servindo
sobretudo para sustentar dois mitos solidários, o do anti-comunismo e o da revolução comunista
realizada aqui ou acolá), o socialismo de Estado produziu um espaço?
136) A questão tem sua importância. Uma revolução que não produz um espaço novo não vai até o
limite de si própria; ela fracassa; ela não muda a vida; ela só modifica superestruturas ideológicas,
instituições, aparelhos políticos. Uma transformação revolucionária se verifica pela capacidade
criadora de obras na vida cotidiana, na linguagem, no espaço, um não acompanhando,
necessariamente, o outro, igualmente.
137) Todavia, a questão não requer uma resposta precipitada. Ela merece longa reflexão e paciência.
Não é impossível que o período revolucionário, o da alteração {transformação} intensa, coloque no
lugar as condições de um novo espaço, mas que sua realização exija um tempo muito longo: um
período de calma. A prodigiosa fermentação criadora da Rússia soviética, entre 1920 e 1930,
fracassou na arquitetura e no urbanismo mais ainda que noutros domínios; e os anos estéreis
sucederam os anos fecundos. Que querem dizer esse fracasso, essa esterilização? Onde se encontra,
nos dias de hoje, a produção arquitetural que se poderia qualificar de \u201csocialista\u201d, ou simplesmente
de nova em relação às produções capitalistas. Onde se encontra o urbanismo correspondente? Em
Berlim Oriental, no ex-Stalinallée, rebatizado Karl Marxallée {Karl-Marx-Allee}? Em Cuba? Em
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Moscou? Em Pequim? Onde está a confrontação entre a sociedade \u201creal\u201d dita com ou sem razão
socialista e o projeto de sociedade nova segundo K. Marx e F. Engels? Como conceber e apropriar o
espaço global de uma socieade \u201csocialista\u201d? Em suma, onde está a prova pelo espaço, ou seja, pela
prática espacial das sociedades que se situam num modo de produção \u201csocialista\u201d? Mais
precisamente ainda, qual relação existe entre o espaço inteiro definido pelas relações de produção
\u201csocialistas\u201d e o mercado