LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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cessar explodir e, às vezes, aqui ou ali, explode.
145) A antiga luta de classes entre a burguesia e a aristocracia produziu espaços onde essa luta
transparece manifestamente. Muitas cidades históricas foram remanejadas por esse conflito que
deixou traços e resultados evidentes como tais. A burguesia, vitoriosa politicamente, rompe o espaço
aritocrático do Marais, no centro da Paris histórica, o integra à produção material, instala-se nos
edifícios suntuosos de ateliês, butiques, apartamentos; à sua maneira, ela desfigura e vivifica esse
espaço, \u201cpopularizando-o\u201d. Nos dias de hoje, a elitização, aburguesamento ao segundo grau, aí
prossegue; a burguesia conserva a iniciativa, numa grande cidade histórica. Ela a conserva a escalas
muito mais vastas. Ela começa a exportação de indústrias \u201cpoluentes\u201d em direção aos países mal
desenvolvidos: para o Brasil, na América, para a Espanha, na Europa, induzindo, assim, diferenças
internas ao modo de produção.
146) Os arredores do Mediterrâneo tornam-se espaço de lazer para a Europa industrial. Esse é um
caso notável de uma produção do espaço que prossegue por diferença interna ao modo de produção;
espaço de lazer e mesmo num sentido de não-trabalho (férias, mas também convalescenças,
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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repousos, retiros etc.), assim os arredores do Mediterrâneo entram na divisão social do trabalho; um
neo-colonialismo aí se instala, econômica e socialmente, arquitetural e urbanisticamente. Às vezes
esse espaço tende a extravasar os constrangimentos do neo-capitalismo que o regem; seu uso exige
qualidades ecológicas: a imediatidade do sol e do mar, a proximidade de centros urbanos e de
habitações provisórias (hotéis, pavilhões). Há, portanto, uma certa especificidade qualitativa em
relação aos grandes centros industriais onde destaca-se, em estado puro, o quantitativo. Esse espaço
poderia ser considerado, caso essa \u201cespecificidade\u201d seja aceita sem crítica, como o espaço de uma
despesa improdutiva, de um vasto esperdício, de um sacrifício intenso e colossal de coisas, de
símbolos, de energias em excesso: o esporte, o amor, a renovação, mais que o repouso. Essa
centralidade quase sacrificial das cidades de lazer opor-se-ia fortemente à centralidade produtiva das
cidades na Europa do Norte. O esperdício, a despesa {o dispêndio}, descobrir-se-iam ao final da
cadeia temporal que vai dos lugares de trabalho e do espaço produtivista ao consumo do espaço, do
sol e do mar, ao erotismo espontâneo ou provocado, à Festa das férias. O esperdício e a despesa {o
dispêndio} não se situariam, portanto, no início da cadeia, como evento original, mas no fim, dando-
lhe seu sentido. Que ilusão! Que falsa transparência e que naturalidade enganosa! As despesas {os
dispêndios} improdutivas são organizadas zelosamente; centralizadas, ordenadas, hierarquizadas,
simbolizadas, programadas elas são adequadas ao lucro dos \u201ctour operators\u201d, banqueiros e
promotores {empreendedores} de Londres, Hamburgo etc. Em termos mais precisos, e para retomar
os conceitos já apontados: na prática espacial do neo-capitalismo, com os transportes aéreos, as
representações do espaço permitem manipular os espaços de representações (os do sol, do mar, da
festa, do esperdício e da despesa).
147) Estas notas ocorrem aqui para tornar, desde já, mais concreta a noção de uma produção do
espaço \u2013 e para mostrar como a luta de classes é conduzida, sob a hegemonia da burguesia.
148) I.20 \u201cMudar a vida\u201d, \u201cmudar a sociedade\u201d, isso não quer dizer nada se não há produção de um
espaço apropriado. Dos construtivistas soviéticos, entre 1920 e 1930, e de seu fracasso, persiste esse
ensinamento: à relações sociais novas, espaço novo. E reciprocamente. Essa proposição, implicada
na proposição fundamental, merecerá um longo desenvolvimento. \u201cMudar a vida!\u201d Vinda dos poetas
e filósofos, formulada como utopia negativa, essa idéia logo cai no domínio público, ou seja,
político. Ela se difunde degradando-se em palavras de ordem políticas. \u201cViver melhor...\u201d \u201cViver de
outro modo\u201d \u201cA qualidade de vida...\u201d \u201cO quadro de vida...\u201d Daí, passa-se naturalmente às poluições,
ao respeito à natureza, ao \u201cmeio ambiente\u201d. E trata-se de um engano {um truque}: escamoteadas, a
pressão do mercado mundial, a transformação do mundo, a produção de um novo espaço. A idéia
recai na idealidade, ao passo que se trata de conduzir ao dia {despontar, alvorecer}, gradualmente ou
por saltos, uma prática espacial diferente. O projeto de \u201cmudar a vida\u201d permanecerá um slogan
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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político, ora abandonado, ora retomado, enquanto persistir a cotidianeidade no espaço abstrato com
seus constrangimentos muito concretos, enquanto houver tão-somente melhorias técnicas de varejo
(horários dos transportes, rapidez, conforto relativo), enquanto os espaços (de trabalho, de lazer, de
habitação) permanecerem separados e reunidos apenas pela instância política e seu controle.
149) Nessa situação, o pensamento teórico se debate, buscando, com dificuldades, contornar os
obstáculos. De um lado, ele percebe o abismo de utopias negativas, a presunção da teoria crítica,
eficaz apenas no plano das palavras e representações (ideológicas); do outro lado, ele se choca com
utopias tecnológicas, altamente positivas: prospectiva e programação. Ele só pode constatar a
aplicação, ao espaço (portanto, às relações sociais existentes), da cibernética, da eletrônica, da
informática, para daí tentar tirar alguns ensinamentos.
150) A via aqui indicada se liga, portanto, a uma hipótese estratégica, isto é, a um projeto teórico e
prático a longo prazo. Projeto político? Sim e não. Ele envolve uma política do espaço, mas vai mais
longe que a política e supõe uma análise crítica de toda política espacial e de toda política geral.
Indicando a via para produzir um outro espaço, o de uma vida (social) outra, e de um outro modo de
produção, o projeto transpõe o intervalo entre ciência e utopia, entre realidade e idealidade, entre o
concebido e o vivido. Ele tende a superar sua oposição explorando a relação dialética: \u201cpossível-
impossível\u201d, objetiva e subjetivamente.
151) O papel da hipótese estratégica no conhecimento não é mais o de demonstrar. Ela centra o
conhecimento em torno deste ou daquele ponto, deste ou daquele núcleo, de tal conceito ou
grupamento de conceitos tomados focalmente. A estratégia tem êxito ou não; ela tem mais ou menos
muito tempo, depois se dissolve ou se cinde. Relativamente durável em relação às operações táticas
no conhecimento e na ação, ela permanece necessariamente momentânea, por isso, revisável. Ela
exorta, mas não visa nenhuma verdade eterna. O jogo estratégico, cedo ou tarde, se vê frustrado.
Então, o descentramento abala o que foi construído em torno de um centro.
152) Recentemente, várias operações táticas e estratégicas foram lançadas, visando o estabelecimento
(o establishment, poder-se-ia ironizar) de uma fortaleza inexpugnável do saber. Ingênuos e astutos,
certos cientistas exprimiram sua fé em sua cientificidade, colocando entre parênteses as questões que
a própria cientificidade coloca: o primado atribuído ao sabido e ao visto sobre o vivido. A mais
recente operação estratégica tenta centrar o saber na lingüística e nas disciplinas derivadas:
semântica, semiologia, semiótica. Ela sucede a outras tentativas que centraram o saber em torno da
economia política, da história, da sociologia etc.
153) Essa recente hipótese suscitou um