LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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as relações \u201creais\u201d e os conflitos. Além disso,
parece que essa lei ou esse esquema do espaço com sua lógica (homogeneidade-fragmentação-
hierarquização) tomou um alcance maior e atingiu uma espécie de generalidade, com efeitos
análogos, no saber e na cultura, no funcionamento da sociedade inteira.
16) Esta obra procura, portanto, não apenas caracterizar o espaço em que vivemos e sua gênese, mas
reencontrá-la, através do e pelo espaço produzido, da sociedade atual. Ambição que o título não
anuncia abertamente. Resumamos esse propósito, inerente à démarche perseguida: um estudo \u201cpara
trás\u201d do espaço social na sua história e sua gênese, a partir do presente, remontando para essa gênese
\u2013 em seguida, retorno sobre o atual, o que permite entrever, senão prever o possível e o futuro. Essa
démarche permite estudos locais a diversas escalas, inserindo-os na análise geral, na teoria global.
As implicações e imbricações lógicas se compreendem como tais, mas sabendo-se que essa
compreensão não exclui (ao contrário) os conflitos, as lutas, as contradições. Nem, inversamente, os
acordos, entendimentos, alianças. Se o local, o regional, o nacional, o mundial se implicam e se
 
1 Fazer nota explicativa.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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imbricam, o que se incorpora no espaço, os conflitos atuais ou virtuais, não estão nem ausentes nem
eliminados. Implicações e contradições, no espaço e nos outros domínios, têm mais amplitude
atualmente do que desde quando este livro foi escrito. As relações de implicação não impedem as
estratégias adversas, nem sobre os mercados, nem nos armamentos. Portanto, no espaço.
17) O territorial, o urbanístico, o arquitetural têm, entre si, relações análogas: implicações-conflitos.
O que só se pode apreender se estiverem compreendidas as relações: \u201clógica-dialética\u201d, \u201cestrutura-
conjuntura\u201d, expostas e supostas aqui numa certa perspectiva, explicitadas alhures2. Essas relações,
ao mesmo tempo abstratas e concretas, revelam uma \u201ccultura\u201d filosófica e política que deixa de lado
essa \u201ccomplexidade\u201d para buscá-la alhures.
18) A pesquisa sobre o espaço social apóia-se numa globalidade. Ela não exclui, reiteramos,
pesquisas precisas e determinadas \u201cno terreno\u201d. Contudo, o perigo do \u201cpontual\u201d, a esse título
valorizado porque controlável, por vezes mensurável, é que ele separa o que se implica, isola o que
se \u201carticula\u201d. Portanto, ele aceita ou ratifica a fragmentação. O que conduz a práticas excessivas de
desconcentração, de descentralização, que deslocam as redes, os laços e relações no espaço, portanto,
o espaço social lhe escapa ao fazer desaparecer a produção! O que evita muitas questões
pedagógicas, lógicas, políticas...
19) Tese central sobre a qual é preciso retornar antes de concluir. O modo de produção organiza \u2013
produz \u2013 ao mesmo tempo que certas relações sociais, seu espaço (e seu tempo). É assim que ele se
realiza. Seja dito, en passant: o socialismo engendrou um espaço? Se não, é que o modo de produção
socialista ainda não tem existência concreta. O modo de produção projeta essas relações no terreno, o
qual reage sobre elas. Sem que haja correspondência exata, definida de antemão, entre as relações
sociais e as relações espaciais (ou espaço-temporais). Não se pode afirmar que o modo de produção
capitalista tenha, desde o início, \u201cordenado\u201d, por inspiração ou inteligência, sua extensão espacial,
destinada a se entender em nosso tempo ao planeta inteiro! De início, houve utilização do espaço
existente, por exemplo, das vias aquáticas (canais, rios, mares), depois das estradas; na seqüência,
construção de estradas de ferro, para continuar pelas auto-estradas e pelos aeroportos. Nenhum meio
de transporte no espaço desapareceu inteiramente, nem a caminhada, nem o cavalo, nem a bicicleta
etc. Contudo, um espaço novo se constituiu no século XX, à escala mundial; sua produção, não
terminada, continua. O novo modo de produção (a sociedade nova) se apropria, ou seja, organiza
para seus fins, o espaço preexistente, modelado anteriormente. Modificações lentas penetram uma
 
2 Cf. Logique formelle, logique dialectique, 3ème éd. Messidor, 1981.
Em língua portuguesa, cf. LEFEBVRE, Henri. Lógica formal. Lógica dialética. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. (N.T.)
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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espacialidade já consolidada, mas às vezes a subvertem com brutalidade (caso dos campos e
paisagens rurais no século XIX).
20) Incontestavelmente, as estradas de ferro desempenharam um papel primordial no capitalismo
industrial, na organização de seu espaço nacional (e internacional). Senão, ao mesmo tempo, à escala
urbana: os bondes, metrôs, ônibus. Em seguida, à escala mundial, os transportes aéreos. A
organização anterior se desintegra e o modo de produção integra para si os resultados. Processo
duplo, visível nos campos e cidades desde algumas dezenas de anos, com a ajuda de técnicas
recentes, mas se estendendo dos centros às periferias longínquas.
21) A organização do espaço centralizado e concentrado serve ao mesmo tempo ao poder político e
à produção material, otimizando os benefícios. Na hierarquia dos espaços ocupados as classes sociais
se investem e se travestem.
22) À escala mundial, contudo, um novo espaço tende a se formar, integrando e desintegrando o
nacional, o local. Processo cheio de contradições, ligado ao conflito entre uma divisão do trabalho à
escala planetária, no modo de produção capitalista, e o esforço em direção a uma outra ordem
mundial mais racional. Essa penetração do e no espaço teve tanta importância histórica quanto a
conquista da hegemonia pela penetração no institucional. Ponto capital, senão final dessa penetração:
a militarização do espaço, ausente (e com razão) desta obra, mas que culmina a demonstração à
escala ao mesmo tempo planetária e cósmica.
23) Essa tese, como a de um espaço ao mesmo tempo homogêneo e fragmentado (como o tempo!),
suscita muitas objeções há uma dezena de anos. Como um espaço poderia ao mesmo tempo obedecer
a regras de conjunto, constituir um \u201cobjeto\u201d social, e se espedaçar?
24) Não se trata de afirmar que a recente e já célebre teoria do objeto fractal (B. Mandelbrot) teve
uma relação com a tese do espaço fragmentado, aqui sustentada. Contudo, pode-se indicar ao mesmo
tempo a quase simultaneidade das teorias, e o fato que a teoria físico-matemática torna a teoria sócio-
econômica mais acessível e mais aceitável. O espaço físico-matemático comporta vazios e
plenitudes, cavidades e saliências; ele mantém uma coerência, embora \u201ctrabalhada\u201d pelo
fracionamento. Há, portanto, analogia entre essas tentativas teóricas3.
25) Resta elucidar a relação entre esse espaço fragmentado e as múltiplas redes que combatem a
fragmentação e restabelecem, senão uma unidade racional, ao menos a homogeneidade. Através e
contra a hierarquização, não pode romper, aqui ou ali, arquitetural ou urbanisticamente, \u201calgo\u201d que
sai do modo de produção existente, que nasce de suas contradições, revelando-as e não as cobrindo
com um véu?
 
3 Cf. La Recherche, n° de novembro 1985, p.1313 e seguintes. Assim como a obra de Paul Virilio, L\u2019espace éclaté.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production