LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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26) Indicação autocrítica: falta a este livro ter descrito de forma direta, incisiva, até mesmo
panfletária, a produção dos subúrbios, guetos, enclaves étnicos, falsos \u201cconjuntos\u201d. O projeto de um
novo espaço permanece incerto; hoje, mais de um traço pode se ajustar ao esboço. O papel da
arquitetura como uso do espaço não aparece sempre claramente.
27) Não obstante, nos dias de hoje este livro, que conserva muitos centros, pode se re-ler com uma
démarche que o utilize proveitosamente (para o conhecimento).
28) Primeiro tempo ou momento: os elementos e a análise que os isola, os \u201catores\u201d da produção, os
lucros obtidos etc.
29) Segundo tempo: as oposições paradigmáticas evidenciadas: público e privado - troca e uso -
estatista e íntimo \u2013 frontal e espontâneo - espaço e tempo...
30) Terceiro tempo: dialetização desse quadro estático: as relações de força, de aliança - os
conflitos, os ritmos sociais e os tempos produzidos no e por esse espaço...
31) Essa leitura deveria evitar a este trabalho a dupla acusação de u-topia (construção fictícia, no
vazio verbal) e também de a-topia (eliminação do espaço concreto, para só deixar o vazio social).
Henri LEFEBVRE
Paris, 4 de dezembro de 1985.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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Dedicatória
Encerrado entre quatro paredes
(ao norte, o cristal do não-saber,
paisagem a inventar
ao sul, a memória reflexiva
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a leste, o espelho
a oeste, a pedra e o canto do silêncio)
escrevo mensagens sem resposta.
Octavio PAZ
(trad. J. C. Lambert)
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I. PI. PROPÓSITO ROPÓSITO DA DA OBRAOBRA
1) I.1 O espaço! Há poucos anos esse termo não evocava nada a não ser um conceito geométrico, o
de um meio vazio. Toda pessoa instruída logo o completava com um termo erudito, tal como
\u201ceuclidiano\u201d, ou \u201cisotrópico\u201d, ou \u201cinfinito\u201d. O conceito de espaço dependia, geralmente se pensava,
da matemática e tão-somente dessa ciência. O espaço social? Essas palavras causavam surpresas.
2) Sabia-se que o conceito de espaço tinha experimentado uma longa elaboração filosófica, mas a
história da filosofia também resumia a emancipação progressiva das ciências, e principalmente das
matemáticas, em relação ao seu tronco comum: a velha metafísica. Descartes passava para a etapa
decisiva da elaboração do conceito de espaço e de sua emancipação. Ele havia concluído, segundo a
maioria dos historiadores do pensamento ocidental, a tradição aristotélica segundo a qual o espaço e
o tempo fazem parte das categorias; de modo que eles permitem nomear e classificar os fatos
sensíveis, por mais que seu estatuto permaneça indeciso. Nesse sentido, pode-se considerá-los seja
como simples maneiras empíricas de agrupar esses fatos sensíveis, seja como generalidades
eminentes, superiores aos dados dos órgãos do corpo. Com a razão cartesiana, o espaço entra no
absoluto. Objeto diante do Sujeito, \u201cres extensa\u201d diante da \u201cres cogitans\u201d, presente nesta, ele
domina, porque os contém, os sentidos e os corpos. Atributo divino? Ordem imanente à totalidade
dos existentes? Segundo Descartes, assim se punha a questão do espaço para os filósofos: Spinoza,
Leibniz, os newtonianos. Até que Kant retoma, modificando-a, a antiga noção de categoria. O
espaço, relativo, instrumento de conhecimento, classificação de fenômenos, não se separa menos
(com o tempo) do empírico; segundo Kant, ele se vincula, a priori, à consciência (ao \u201csujeito\u201d), à sua
estrutura interna e ideal, portanto, transcendental, portanto, inapreensível em si.
3) Essas longas controvérsias marcaram a passagem da filosofia à ciência do espaço. Elas teriam
prescrito? Não. Elas têm uma outra importância que a de momentos e de etapas no curso do Logos
ocidental. Elas se desenrolariam na abstração que seu declínio atribui à filosofia dita \u201cpura\u201d? Não.
Elas se vinculam a questões precisas e concretas, entre outras as das simetrias e dissimetrias, dos
objetos simétricos, de efeitos objetivos de reflexão e de espelho. Questões que serão retomadas no
curso da presente obra e repercutirão na análise do espaço social.
4) I.2 Então chegaram os matemáticos, no sentido moderno, paladinos de uma ciência (e de uma
cientificidade) afastada da filosofia, considerada necessária e suficiente. Os matemáticos
apoderaram-se do espaço (e do tempo); tornaram-no seu domínio, mas de uma forma paradoxal. Eles
inventaram espaços, uma infinidade: espaços não-euclidianos, espaços de curvaturas, espaços a x
dimensões e até a uma infinidade de dimensões, espaços de configuração, espaços abstratos, espaços
definidos por uma deformação ou transformação, topologia etc. A linguagem matemática, muito
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geral e muito especializada, discerne e classifica com precisão esses inumeráveis espaços (o conjunto
ou espaço de espaços não se concebem, parece, sem algumas dificuldades). A relação entre a
matemática e o real (físico, social) não era evidente, um abismo se cavava entre eles. Os
matemáticos, que faziam surgir essa \u201cproblemática\u201d, a deixavam para os filósofos, que encontravam
uma maneira de restabelecer sua situação de compromisso. Desse fato, o espaço tornava, ou melhor,
retornava àquilo que uma tradição filosófica, a do platonismo, tinha oposto à doutrina das categorias:
uma \u201ccoisa mental\u201d (Leonardo da Vinci). A proliferação de teorias (topologias) matemáticas
agravava o velho problema dito \u201cdo conhecimento\u201d. Como passar de espaços matemáticos, ou seja,
de capacidades mentais da espécie humana, da lógica, à natureza, à prática, de início e em seguida à
teoria da vida social que se desenrola também no espaço?
5) I.3 Dessa filiação (a filosofia do espaço revista e corrigida pelos matemáticos), uma pesquisa
moderna, a epistemologia, recebeu e aceitou um certo estatuto do espaço como \u201ccoisa mental\u201d ou o
\u201clugar mental\u201d. Visto que a teoria dos conjuntos, apresentada como lógica desse lugar, fascinou não
apenas os filósofos, mas os escritores, os lingüistas. De todos os lados proliferaram \u201cconjuntos\u201d (às
vezes práticos4 ou históricos5) e \u201clógicas\u201d associadas seguindo um cenário que tende a se repetir,
conjuntos e \u201clógicas\u201d que não têm mais nada em comum com a teoria cartesiana.
6) Mal explicitado, misturando segundo os autores a coerência lógica, a coesão prática, a auto-
regulação e as relações das partes com o todo, o engendramento do semelhante pelo semelhante num
conjunto de lugares, a lógica do recipiente e a do conteúdo, o conceito de espaço mental se
generaliza desde então sem que nenhuma barreira lhe coloque limites. Pergunta-se continuamente,
espaço disto e/ou espaço daquilo: espaço literário6, espaços ideológicos, espaço do sonho, tópicos
psicanalíticos etc. Ora, o \u201causente\u201d dessas pesquisas ditas fundamentais ou epistemológicas, é não
somente \u201co homem\u201d, mas também o espaço, do qual se fala, contudo, a cada página7. \u201cUm saber é
também o espaço no qual o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos com os quais ele se
defronta no seu discurso\u201d, declara