LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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tranqüilamente M. Foucault8, sem se perguntar de qual espaço ele
fala, e como ele salta do teórico (epistemológico) ao prático, do mental ao social, do espaço dos
filósofos àquele das pessoas que têm de se haver com objetos. Cientificidade (que é definida pela
reflexão dita \u201cepistemológica\u201d sobre o saber adquirido) e espacialidade se articulam
\u201cestruturalmente\u201d de acordo com uma conexão pressuposta: evidente pelo discurso científico, jamais
 
4 J. P. Sartre. Critique de la raison dialectique, I, Théorie des ensembles pratiques, Gallimard, 1960.
5 Michel Clouscard, L\u2019Être et le Code, Procés de production d\u2019un ensemble précapitaliste, Mouton, 1972.
6 M. Blanchot, L\u2019Espace littéraire, Gallimard, coll. Idées, 1968.
7 Cf. a coletânea intitulada Panorama des sciences humaines, N.R.F., 1973, da qual essa é a menor lacuna.
8 Archéologie du Savoir, p.328. Cf. também p.196: \u201cLe parcours d\u2019un sens\u201d, p.200, \u201cl\u2019espace des dissensions\u201d etc.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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elevada ao conceito. O discurso científico, sem receio da ociosidade, confronta o estatuto do espaço
e o do \u201csujeito\u201d, o \u201ceu\u201d pensante e o objeto pensado, retomando, assim, as posições do Logos
cartesiano (ocidental) que, por outro lado, determinados pensadores julgaram \u201cfechar\u201d9. A reflexão
epistemológica, conjugada com os esforços teóricos dos lingüistas, chega a um curioso resultado. Ela
liquidou o \u201csujeito coletivo\u201d, o povo como gerador de tal língua, portador de tais seqüências
etimológicas. Ela afastou o sujeito concreto, substituto do deus que nomeia as coisas. Ela deu
precedência ao \u201cse\u201d, ao impessoal, gerador da linguagem em geral, do sistema. Contudo, é
necessário um sujeito. É então o sujeito abstrato, o Cogito filosófico quem reaparece. Daí a
reatualização, à moda \u201cneo\u201d, da velha filosofia (neo-hegeliana, neo-kantiana, neo-cartesiana), através
de Husserl que, sem escrúpulos excessivos, põe a identidade (quase tautológica) do Sujeito
cognoscente e da Essência concebida, inerente ao \u201cfluxo\u201d (do vivido) e, por conseguinte, a
identidade quase \u201cpura\u201d do saber formal com o saber prático10. Não surpreende, portanto, que o
grande lingüista N. Chomsky restitua o Cogito (sujeito) cartesiano11 quando afirma a existência de
um nível lingüístico onde não se pode representar cada frase simplesmente como a série finita de
elementos de um certo tipo, engendrada \u201cda esquerda para a direita\u201d por um mecanismo simples,
mas que é preciso descobrir um conjunto finito de níveis ordenados \u201cde alto a baixo\u201d12. N. Chomsky
postula sem outra forma de processo um espaço mental dotado de propriedades definidas:
orientações e simetrias. Ele se entrega generosamente à passagem desse espaço mental da linguagem
ao espaço social onde a linguagem torna-se prática, sem dimensionar o abismo que ele transpõe. Do
mesmo modo, J. M. Rey13: \u201cO sentido se oferece como o poder legal de substituir os significados
sobre a mesma cadeia horizontal, no espaço de uma coerência regulada e calculada de antemão\u201d.
Esses e vários outros autores, que se colocam sob o signo do rigor formal perfeito, cometem o erro
perfeito \u2013 o paralogismo - do ponto de vista lógico-matemático: o salto por cima de uma região
inteira, evitando o encadeamento, salto vagamente legitimado pela noção de \u201ccorte\u201d ou de \u201cruptura\u201d,
utilizada segundo as necessidades da causa. Eles interrompem a continuidade do raciocínio em nome
de uma descontinuidade que sua metodologia deveria proscrever. O vazio assim organizado e o
alcance dessa ausência variam segundo os autores e as especialidades; essa acusação não poupa nem
J. Kristeva e sua \u201csemiótica\u201d, nem J. Derrida e sua \u201cgramatologia\u201d, nem R. Barthes e sua semiologia
 
9 Cf. J. Derrida. Le vivre et le phénomène, P.U.F., 1967.
10 Cf. as reflexões críticas de Michel Clouscard, L\u2019Être et le Code , Introduction. No Matérialisme et Empiriocriticisme , Lênin
resolveu brutalmente o problema suprimindo-o: o pensamento do espaço reflete o espaço objetivo, como uma cópia ou
fotografia.
11 La linguistique cartésienne, Seuil, 1969.
12 Cf. Structures syntactiques, tradução francesa, p.27.
13 L\u2019enjeu des signes, Seuil, 1971, p.13.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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generalizada14. Nessa escola, que se torna cada vez mais dogmática (o sucesso ajudando), incorre-se
freqüentemente nesse sofisma fundamental: o espaço de origem filosófica-epistemológica se
fetichiza e o mental envolve o social com o físico. Se alguns desses autores suspeitarem da existência
ou da exigência de uma mediação15, a maioria deles salta, sem outra forma de processo, do mental ao
social.
7) Uma forte corrente ideológica (fortemente agarrada à sua própria cientificidade) exprime, de
forma admiravelmente inconsciente, as representações dominantes, portanto, aquelas da classe
dominante, talvez as contornando ou delas desviando. Uma certa \u201cprática teórica\u201d engendra um
espaço mental, ilusoriamente exterior à ideologia. Por um inevitável circuito ou círculo, esse espaço
mental torna-se, por seu turno, o lugar de uma \u201cprática teórica\u201d distinta da prática social, que se erige
em eixo, pivô ou centro do Saber16. Dupla vantagem para a \u201ccultura\u201d existente: ela parece tolerar e
mesmo favorecer a veracidade e nesse \u201cespaço mental\u201d se passam muitos pequenos eventos
utilizáveis, seja positiva, seja polemicamente. Que esse espaço mental se aproxima singularmente
daquele onde os tecnocratas operam, no silêncio dos gabinetes, voltaremos a isto mais adiante17.
Quanto ao Saber definido assim a partir da epistemologia, e mais ou menos finamente discernido da
ideologia ou da ciência em movimento, ele não descenderia em linha direta do Conceito hegeliano e
de suas núpcias com a Subjetividade, herdeira da grande família cartesiana?
8) A identidade quase lógica pressuposta entre o espaço mental (aquele dos matemáticos e dos
filósofos da epistemologia) aprofunda o abismo entre esses três termos: o mental, o físico, o social.
Se alguns malabaristas transpõem o precipício, propiciando um belo espetáculo e uma boa vibração
aos espectadores, em geral a reflexão dita filosófica, a dos filósofos especializados, não experimenta
mais o \u201csalto mortal\u201d. Eles ainda percebem o fosso? Desviam os olhos. A filosofia profissional
abandona a problemática atual do saber e a \u201cteoria do conhecimento\u201d pela introversão redutora no
saber absoluto, ou que assim se pretende: aquele da história da filosofia e das ciências. Um tal saber
separar-se-ia da ideologia e do não-saber, ou seja, do \u201cvivido\u201d. Impossível de se efetuar, tal
separação tem a vantagem de não impedir um \u201cconsenso\u201d banal, que se busca implicitamente: quem
 
14 Ela alcança outros autores, em si mesmos ou através dos precedentes. R. Barthes fala de J. Lacan nesses termos: \u201cSua
topologia não é a do dentro e do fora, ainda menos do alto e do baixo, mas, antes, de um anverso e de um reverso moventes,
do qual a linguagem não cessa precisamente de trocar os papéis e de virar as superfícies em torno de alguma coisa que se
transforma e, para começar, não é.\u201d (Critique et vérité, p.27).
15 Esse não é o caso de Cl. Lévi-Strauss, que em toda a sua obra identifica o mental e o social pela nomenclatura (das relações
de troca) desde os primórdios da sociedade. Por seu turno, J. Derrida, colocando a \u201cgrafia\u201d diante da \u201cfonia\u201d, a escrita à frente
da voz, ou J. Kristeva, evocando