LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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os corpos, buscando uma transição (a articulação) entre o espaço mental previamente posto
por eles, portanto pressuposto, e o espaço físico-social.
16 Essa pretensão transpira a cada capítulo da já citada coletânea: Panorama des sciences humaines.
17 Cf. H. Lefebvre: Vers le Cybernanthrope, Rééd. Denoel, 1972.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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recusaria o Verdadeiro? Cada um sabe, ou crê saber, que ele retorna quando se estabelece um
discurso sobre a verdade, a ilusão, a mentira, a aparência e a realidade.
9) I.4 A reflexão epistemológica-filosófica não propiciou um eixo a uma ciência que há muito
tempo se procura através de um número imenso de publicações e trabalhos: a ciência do espaço. As
pesquisas culminam seja em descrições (sem alcançar o momento analítico, ainda menos o teórico),
seja em fragmentações e recortes do espaço. Porém, muitas razões induzem a pensar que descrições e
recortes chegam somente a inventários do que há no espaço, no melhor dos casos, a um discurso
sobre o espaço, jamais chegam a um conhecimento do espaço. Na falta de um conhecimento do
espaço, transfere-se para o discurso, para a linguagem como tal, quer dizer, ao espaço mental, uma
boa parte das atribuições e \u201cpropriedades\u201d do espaço social.
10) A semiologia coloca algumas questões delicadas, na mesma medida em que esse conhecimento
inacabado se expande e não conhece seus limites, de sorte que é preciso, não sem dificuldade, lhos
assinalar. Caso se empregue códigos, elaborados a partir de textos literários, aos espaços (urbanos,
por exemplo), uma tal aplicação permanece descritiva; o que não é difícil demonstrar. Caso se
procure construir assim uma codificação \u2013 um procedimento decodificante do espaço social -, não se
corre o risco de reduzir o espaço a uma mensagem, e sua freqüentação a uma leitura? O que elude a
história e a prática. Entretanto, não houve, outrora, entre os séculos XVI (o Renascimento e a cidade
do Renascimento) e o XIX, um código ao mesmo tempo arquitetural, urbanístico, político, uma
linguagem comum aos habitantes dos campos e das cidades, às autoridades, aos artistas, permitindo
não apenas \u201cler\u201d um espaço, mas produzi-lo? Se esse código existiu, como foi engendrado? Onde,
como, por que desapareceu? Essas questões devem encontrar, mais tarde, sua resposta.
11) Quanto aos recortes e fragmentações, vão até o indefinido. E o indefinível. Visto que o recorte
passa por uma técnica científica (uma \u201cprática teórica\u201d) permitindo simplificar e discernir
\u201celementos\u201d nos fluxos caóticos dos fenômenos. Deixemos de lado, por enquanto, a aplicação de
topologias matemáticas. Que se escute as competências discorrer sobre o espaço pictural, sobre o
espaço de Picasso, sobre o espaço de Demoiselles d\u2019Avignon e de Guernica. Outras competências
falam do espaço arquitetural, ou do espaço plástico, ou do espaço literário, do mesmo modo que do
\u201cmundo\u201d de tal escritor, de tal criador. Os textos especializados informam seus leitores sobre todos
os tipos de espaços precisamente especializados: espaços de lazer, de trabalho, de jogos, de
transportes, de equipamentos etc. Alguns não hesitam em falar de \u201cespaço doente\u201d ou de \u201cdoença do
espaço\u201d, de espaço louco ou de espaço da loucura. Haveria, uns acima dos outros (ou uns nos
outros), uma multiplicidade indefinida de espaços: geográficos, econômicos, demográficos,
sociológicos, ecológicos, políticos, comerciais, nacionais, continentais, mundiais. Sem esquecer o
espaço da natureza (físico), o dos fluxos (as energias) etc.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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12) Antes de refutar minuciosa e precisamente tal ou qual desses procedimentos, admitidos em
nome da \u201ccientificidade\u201d, eis uma nota prévia: a multiplicidade indefinida de descrições e recortes os
torna suspeitos. Não vão eles no sentido de uma tendência muito forte, talvez dominante, no seio da
sociedade existente (do modo de produção)? Nesse modo de produção, o trabalho do conhecimento,
assim como o trabalho material, se divide sem fim. Ademais, a prática espacial consiste numa
projeção \u201cno terreno\u201d de todos os aspectos, elementos e momentos da prática social, separando-os, e
isso sem abandonar por um instante o controle global, a saber o assujeitamento da sociedade inteira à
prática política, ao poder de Estado. Como se verá, essa práxis implica e aprofunda mais de uma
contradição, mas este ainda não é o lugar de enunciá-las. Se essa análise se confirma, a \u201cciência do
espaço\u201d procurada:
13) a) equivale ao emprego político (\u201cneo-capitalista\u201d, caso se trate do Ocidente) do saber, do qual
se sabe que ele se integra às forças produtivas de uma maneira cada vez mais \u201cimediata\u201d, e de
maneira \u201cmediata\u201d às relações sociais de produção;
14) b) implica uma ideologia mascarando esse uso, assim como os conflitos inerentes ao emprego
interessado ao mais alto grau de um saber em princípio desinteressado, ideologia que não carrega
seu nome e se confunde com o saber para os que aceitam essa prática;
15) c) contém, no melhor dos casos, uma utopia tecnológica, simulação ou programação do futuro
(do possível) nos marcos do real, isto é, do modo de produção existente. Operação realizando-se a
partir de um saber integrado-integrador no modo de produção. Essa utopia tecnológica, que povoa
os romances de ficção científica, se reencontra em todos os projetos concernentes ao espaço:
arquiteturais, urbanísticos, planificadores.
16) Essas proposições deverão, mais tarde, ser explicitadas, apoiadas em argumentos, demonstradas.
Se elas se verificam, é que, em primeiro lugar, existe a verdade do espaço (análise seguida de uma
exposição propiciando essa verdade global) e não constituição ou construção de um espaço
verdadeiro, seja geral, como pensam os epistemólogos ou filósofos, seja particular, como estimam os
especialistas de tal ou qual disciplina científica concernente ao espaço. Em segundo lugar, isso quer
dizer que é preciso inverter a tendência dominante, a que vai em direção à fragmentação, à
separação, ao esmigalhamento subordinados a um centro ou poder central, efetuado pelo saber em
nome do poder. Tal inversão não pode se realizar sem dificuldades; não basta, para operá-la,
substituir preocupações globais às \u201cpontuais\u201d. Pode-se supor que ela mobilizará muitas forças.
Convirá motivá-la, orientá-la no curso de sua própria execução, etapa por etapa.
17) I.5 Hoje em dia poucas pessoas recusariam admitir \u201ca influência\u201d de capitais e do capitalismo
nas questões práticas concernentes ao espaço, da construção de imóveis à repartição de
investimentos e à divisão do trabalho no planeta inteiro. Porém, o que entendem por \u201ccapitalismo\u201d e
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por \u201cinfluência\u201d? Para uns, representam \u201co dinheiro\u201d e suas capacidades de intervenção, ou a troca
comercial, a mercadoria e sua generalidade, posto que \u201ctudo\u201d se compra e se vende. Para outros,
representam mais nitidamente os atores dos dramas: \u201csociedades\u201d nacionais e multinacionais,
bancos, promotores, autoridades. Cada agente suscetível de intervir teria sua \u201cinfluência\u201d. Assim,
coloca-se entre parênteses ao mesmo tempo a unidade do capitalismo e sua diversidade, portanto,
suas contradições. Faz-se tanto uma simples soma de atividades separadas, quanto um sistema
constituído e fechado, coerente porque é duro e pelo único