LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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fato de que ele dura. Ora, o capitalismo se
compõe de muitos elementos. O capital fundiário, o capital comercial, o capital financeiro intervêm
na prática, cada um com possibilidades mais ou menos grandes, a seu momento, não sem conflitos
entre os capitalistas da mesma espécie ou de outra. Essas diversas raças de capitais (e de capitalistas)
compõem, com os diversos mercados que se entrelaçam (o das mercadorias, o da mão-de-obra, o dos
conhecimentos, o dos próprios capitais, o do solo), o capitalismo.
18) Alguns esquecem facilmente que o capitalismo tem ainda um outro aspecto, ligado, decerto, ao
funcionamento do dinheiro, dos diversos mercados, das relações sociais de produção, mas distinto
porque dominante: a hegemonia de uma classe. O conceito de hegemonia, introduzido por Gramsci
para prever o papel da classe operária na construção de uma outra sociedade, ainda permite analisar a
ação da burguesia, em particular no que concerne ao espaço. O conceito de hegemonia refina este,
um pouco pesado e brutal, de \u201cditadura\u201d do proletariado após a da burguesia. Ele designa muito mais
que uma influência e que o emprego perpétuo da violência repressiva. A hegemonia se exerce sobre
a sociedade inteira, cultura e saber incluídos, o mais freqüente por pessoas interpostas: os políticos,
personalidades e partidos, mas também por muitos intelectuais, cientistas. Ela se exerce, portanto,
pelas instituições e pelas representações. Hoje em dia, a classe dominante mantém sua hegemonia
por todos os meios, aí incluído o saber. O vínculo entre saber e poder torna-se manifesto, o que em
nada impede o conhecimento crítico e subversivo e define, ao contrário, a diferença conflitual entre o
saber ao serviço do poder e o conhecer que não reconhece o poder18.
19) Como a hegemonia deixaria de lado o espaço? Este seria tão-somente o lugar passivo das
relações sociais, o meio de sua reunificação tendo tomado consistência, ou a soma dos
procedimentos de sua recondução? Não. Mais adiante, mostrar-se-á o lado ativo (operatório,
instrumental) do espaço, saber e ação, no modo de produção existente. Demonstrar-se-á que o espaço
serve e que a hegemonia se exerce por meio do espaço constituindo-se por uma lógica subjacente,
pelo emprego do saber e das técnicas, um \u201csistema\u201d. Engendrando um espaço bem definido, purifica-
 
18 Diferença conflitual e, por conseguinte, diferenciante entre saber e conhecer, dissimulada por M. Foucault em seu
Arqueologia do saber ao não discernir no sentido de um \u201cespaço de Jogo\u201d (p.241), e pela cronologia, a repartição no tempo
(p.244 x 8 seq.).
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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se o espaço do capitalismo (o mercado mundial) de contradições? Não. Se fosse assim, o \u201csistema\u201d
poderia legitimamente pretender a imortalidade. Alguns espíritos sistemáticos oscilam entre as
imprecações contra o capitalismo, a burguesia, suas instituições repressivas, e a fascinação, a
admiração desvairadas. Eles fornecem, a essa totalidade não fechada (a tal ponto que ela tem
necessidade da violência), a coesão que lhe falta, fazendo da sociedade o \u201cobjeto\u201d de uma
sistematização que eles se obstinam em encerrar concluindo-a. Se fosse verdadeira, essa verdade se
despedaçaria. De onde proviriam as palavras, os conceitos, que permitem definir o sistema? Eles
seriam apenas os intrumentos.
20) I.6 A teoria que se busca, que se ressente de um momento crítico e que desde logo recai no saber
em migalhas, essa teoria se pode designar, por analogia, como \u201cteoria unitária\u201d. Trata-se de descobrir
ou de engendrar a unidade teórica entre \u201ccampos\u201d que se dão separadamente, assim como na física as
forças moleculares, eletromagnéticas, gravitacionais. De quais campos se trata? De início, do físico,
a natureza, o cosmos. Em seguida, do mental (aí incluídas a lógica e a abstração formal). Por fim, do
social. Dito de outro modo, a pesquisa concerne ao espaço lógico-epistemológico \u2013 o espaço da
prática social -, aquele que os fenômenos sensíveis ocupam, sem excluir o imaginário, os projetos e
projeções, os símbolos, as utopias.
21) A exigência de unidade pode se formular de outra maneira, o que a acentua. O pensamento
reflexivo ora confunde, ora separa os \u201cníveis\u201d que a prática social discerne, colocando assim a
questão de suas relações. O habitar, a habitação, \u201co habitat\u201d, como se diz, concernem à arquitetura. A
cidade, o espaço urbano, dependem de uma especialidade: o urbanismo. Quanto ao espaço mais
amplo, o território (regional, nacional, continental, mundial), é da alçada de uma competência
diferente, a dos planificadores, dos economistas. Portanto, ora essas \u201cespecialidades\u201d entram umas
nas outras, interpenetram-se sob o tacão de um ator privilegiado - o político -, ora elas caem umas
fora das outras, abandonando todo projeto comum e toda comunidade teórica.
22) Uma teoria unitária poria fim a essa situação, da qual as considerações precedentes não esgotam
a análise crítica.
23) O conhecimento da natureza material define conceitos ao nível o mais elevado de generalidade e
de abstração científica (dotada de um conteúdo). Mesmo se as conexões entre esses conceitos e as
realidades físicas correspondentes ainda não se determinam, sabe-se que essas conexões existem e
que os conceitos e as teorias que elas implicam não podem nem se confundir nem se separar: a
energia, o espaço, o tempo. O que a linguagem comum denomina \u201cmatéria\u201d, ou \u201cnatureza\u201d, ou
\u201crealidade física\u201d \u2013 da qual as primeiras análises distinguem e até separam os momentos \u2013
reencontrou uma certa unidade. A \u201csubstância\u201d desse cosmos (ou desse \u201cmundo\u201d) ao qual pertencem
a terra e a espécie humana com sua consciência, essa \u201csubstância\u201d, para empregar o velho
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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vocabulário da filosofia, tem propriedades que se resumem nesses três termos. Se alguém diz
\u201cenergia\u201d, deve imediatamente acrescentar que ela se desenvolve num espaço. Se alguém diz
\u201cespaço\u201d, imediatamente deve dizer o que o ocupa e como: o desenvolvimento da energia em torno
de \u201cpontos\u201d e num tempo. Se alguém diz \u201ctempo\u201d, imediatamente deve dizer o que se move ou
muda. Tomado separadamente, o espaço torna-se abstração vazia; e, do mesmo modo, a energia e o
tempo. Se de um lado essa \u201csubstância\u201d é difícil de conceber, ainda mais de imaginar ao nível
cósmico, também se pode dizer que sua evidência fere os olhos: os sentidos e o pensamento
apreendem tão-somente ela.
24) O conhecimento da prática social, a ciência global da realidade dita humana, procederia de um
modelo emprestado da física? Não. As tentativas nesse sentido sempre resultaram em fracasso19. A
teoria física impede à teoria das sociedades determinadas démarches, notadamente a separação de
níveis, domínios e regiões. Ela incita às démarches unitárias, que reúnem os elementos dispersos. Ela
serve de parapeito, não de modelo.
25) A procura de uma teoria unitária em nada impede, ao contrário, os conflitos no interior do
conhecimento, as controvérsias e as polêmicas. Mesmo em física e em matemáticas! Existem
momentos conflituais até na ciência que os filósofos crêem \u201cpura\u201d, porque eles a purificam de seus
momentos dialéticos.
26) Que o espaço físico não tenha nenhuma \u201crealidade\u201d sem a energia que se desenvolve, isso
parece fora de dúvidas. As modalidades desse desenvolvimento, as relações físicas entre os centros,
os núcleos, as condensações, e, de outro lado, as periferias, permanecem conjecturais.