LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
265 pág.

LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


DisciplinaPolítica Social500 materiais1.908 seguidores
Pré-visualização50 páginas
A teoria da
expansão supõe um núcleo inicial, uma explosão primordial. Essa unicidade original do cosmos tem
provocado muitas objeções, em razão de seu caráter quase teológico (teogônico). F. Hoyle opôs-lhe
uma teoria muito mais complexa: a energia se desenvolve em todas as direções, do infinitamente
pequeno ao infinitamente grande. Um centro único do cosmos, seja original, seja final, é
inconcebível. A energia-espaço-tempo se condensa numa multiplicidade indefinida de lugares
(espaços-tempos locais)20.
27) Na medida em que a teoria do espaço dito humano pode se associar a uma teoria física, esta não
seria aquela? O espaço se considera como produto da energia. Esta última não pode se comparar a
um conteúdo ocupando um recipiente vazio. O que recusa um causalismo e um finalismo
impregnados de abstração metafísica. Já o cosmos, oferece uma multiplicidade de espaços
qualificados, dos quais a diversidade depende, entretanto, de uma teoria unitária, a cosmologia.
 
19 Aí incluído o modelo emprestado por Cl. Lévi-Strauss da classificação dos elementos por Mendeliev e da combinatória
generalizada.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
22
28) Essa analogia tem limites. Não há nenhuma razão para alinhar as energias sociais às energias
físicas, os campos de forças ditas \u201chumanas\u201d aos campos de forças físicas. Esse reducionismo será
explicitamente refutado, como os outros reducionismos. Não obstante, as sociedades humanas, não
mais que os corpos viventes, humanos ou não, não podem se conceber fora do cosmos (ou, caso se
queira, do \u201cmundo\u201d); a cosmologia, sem absorver seu conhecimento, não pode deixá-las de lado,
como um Estado no Estado!
29) I.7 Como denominar a separação que mantém à distância, uns fora dos outros, os diversos
espaços: o físico, o mental, o social? Distorção? Defasagem? Corte? Fissura? Pouco importa o nome.
O que interessa é a distância que separa o espaço \u201cideal\u201d, depedente das categorias mentais (lógico-
matemáticas), do espaço \u201creal\u201d, o da prática social. Enquanto cada um implica, põe e supõe o outro.
30) Qual terreno de início escolher para a pesquisa teórica que elucidaria tal situação, ultrapassando-
a? A filosofia? Não, pois \u201cparte interessada\u201d e \u201cpressuposta\u201d na situação. Os filósofos contribuíram
para aprofundar o abismo, elaborando as representações abstratas (metafísicas) do espaço, entre
outros, o espaço cartesiano, a \u201cres extensa\u201d absoluta, infinita, atributo divino apreendido a partir de
uma só intuição porque homogênea (isotrópica). Pode-se tanto mais lastimar que a filosofia, em seus
primórdios, mantinha estreitas relações com o espaço \u201creal\u201d, o da cidade grega, ligação rompida em
seguida. Essa observação não impede o recurso à filosofia, a seus conceitos e concepções. Mas não
permite dela partir. A literatura? Por que não? Os escritores têm descrito particularmente os lugares e
os sítios. Mas de quais textos? Por que estes ao invés daqueles? Céline utiliza fortemente o discurso
cotidiano para falar do espaço parisiense, dos subúrbios, da África. Platão, no Crítias e alhures,
descreveu maravilhosamente o espaço cósmico e o da cidade, imagem do cosmos. Quincey,
inspirado, perseguindo a sombra da mulher desejada nas ruas de Londres, ou Baudelaire nos seus
Quadros parisienses, também falaram do espaço urbano tão bem quanto Victor Hugo ou
Lautréamont. A partir de quando a análise busca o espaço nos textos literários, ela o descobre em
tudo e por todo lado: incluído, descrito, projetado, sonhado, especulado. De quais textos,
considerados privilegiados, poderia partir uma análise \u201ctextual\u201d? Uma vez que se trata do espaço
socialmente \u201creal\u201d, a arquitetura e os textos que lhes são concernentes seriam mais indicados que a
literatura, de início. Mas o que é a arquitetura? Para defini-la, é preciso já ter analisado, depois
exposto, o espaço.
31) Não se poderia partir de noções científicas gerais, tão gerais quanto a de texto, por exemplo, as
de informação e de comunicação, de mensagem e de código, de conjunto de signos, noções em curso
de elaboração? Mas, então, a análise do espaço correria o risco de se fechar numa especialidade, o
 
20 F. Hoyle: Aux frontiers de l\u2019astronomie.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
23
que não daria conta das dissociações, o que as agravaria. Não resta que o apelo a noções universais,
dependendo aparentemente da filosofia, não entrando em nenhuma especialidade. Tais noções
existem? O que Hegel denominava o universal concreto ainda tem um sentido? Será preciso
demonstrá-lo. Desde agora, é possível indicar que os conceitos da produção e do produzir
apresentam a universalidade concreta reclamada. Elaborados pela filosofia, eles a ultrapassam. Se
uma ciência especializada, como a economia política, os açambarcou durante um período passado,
eles escapam a essa usurpação. Retomando o sentido amplo que eles tinham em determinados textos
de Marx, o produzir e a produção perderam um pouco da precisão ilusória propiciada pelos
economistas. Sua retomada, seu acionamento, não ocorrerá sem dificuldades. \u201cProduzir o espaço\u201d.
Essas palavras surpreendem: o esquema segundo o qual o espaço vazio preexiste ao que o ocupa
ainda tem muita força. Quais espaços? E o que é \u201cproduzir\u201d, no que concerne ao espaço? Será
preciso passar de conceitos elaborados, portanto formalizados, a esse conteúdo sem cair na ilustração
e no exemplo, essas ocasiões de sofismas. É, portanto, uma exposição completa desses conceitos, e
de suas relações, de uma parte com a extrema abstração formal (o espaço lógico-matemático) e, da
outra, com o prático-sensível e o espaço social, que ela precisará fornecer. Dito de outra maneira, o
universal concreto se dissociara e recaíra nesses momentos, segundo Hegel: o particular (aqui os
espaços sociais descritos ou recortados), o geral (a lógica e a matemática), o singular (os \u201clugares\u201d
considerados como naturais, dotados apenas de uma realidade física e sensível).
32) I.8 Cada um sabe do que se trata quando se fala de uma \u201cpeça\u201d num apartamento, da \u201cesquina\u201d
da rua, da \u201cpraça\u201d, do mercado, do \u201ccentro\u201d comercial ou cultural, de um \u201clugar\u201d público etc. Essas
palavras do discurso cotidiano discernem, sem os isolar, espaços e descrevem um espaço social. Elas
correspondem a um uso desse espaço, portanto, a uma prática espacial que elas designam e
compõem. Esses termos se encadeiam seguindo uma certa ordem. Não seria preciso, de início,
inventariá-los21, depois procurar qual paradigma lhes confere uma significação e segundo qual
sintaxe eles se organizam?
33) Ou eles constituem um código mal conhecido que o pensamento poderá reconstituir e
promulgar, ou a reflexão pode construir, partindo desses materiais (as palavras) e desse material (as
operações sobre as palavras), um código do espaço.
34) Em ambos os casos, a reflexão construiria um \u201csistema do espaço\u201d. Ora, sabe-se, por
experiências científicas precisas, que um tal sistema não traz consigo senão indiretamente o \u201cobjeto\u201d
e que, em verdade, ele só contém o discurso sobre o objeto e a ele concerne. O projeto que se esboça
 
21 Cf. Matoré, L\u2019espace humain, 1962 (e o índice lexicológico ao final do volume).
LEFEBVRE, Henri.