LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
265 pág.

LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


DisciplinaPolítica Social518 materiais1.947 seguidores
Pré-visualização50 páginas
A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
24
aqui não tem por objetivo produzir um (o) discurso sobre o espaço, mas mostrar a produção do
próprio espaço, reunindo os diversos espaços e as modalidades de sua gênese numa teoria.
35) Estas breves notas esboçam uma resposta a um problema que será preciso, na seqüência,
examinar com cuidado para saber se ele é aceitável ou se não representa senão uma obscura
interrogação sobre as origens. A linguagem precede (lógica, epistemológica, geneticamente) o
espaço social, o acompanha ou o segue? Nela se encontra a condição ou a formulação? A tese da
prioridade da linguagem não se impõe; as atividades que demarcam o solo, que deixam traços, que
organizam gestos e trabalhos em comum, não teriam prioridade (lógica, epistemológica) em relação
às linguagens bem regradas, bem articuladas? É preciso, talvez, descobrir algumas relações ainda
dissimuladas entre o espaço e a linguagem, a \u201clogicidade\u201d inerente à articulação funcionando desde o
início como espacialidade, redutora do qualitativo dado caoticamente com a percepção das coisas (o
prático-sensível).
36) Em qual medida um espaço se lê? Se decodifica? A interrogação não receberá uma resposta
satisfatória tão cedo. Com efeito, se as noções de mensagem, de código, de informação etc., não
permitem seguir a gênese de um espaço (proposição enunciada mais acima, que aguarda argumentos
e provas), um espaço produzido se decifra, se lê. Ele implica um processo significante. E mesmo se
não existe um código geral do espaço, inerente à linguagem ou às línguas, talvez códigos particulares
tenham se estabelecido ao longo da história, provocando efeitos diversos; de modo que os \u201csujeitos\u201d
interessados, membros desta ou daquela sociedade, acedam ao mesmo tempo a seu espaço e à sua
qualidade de \u201csujeitos\u201d atuando nesse espaço, o compreendendo (no sentido o mais forte desse
termo).
37) Se houve (sem dúvida, a partir do século XVI e até o século XIX) uma linguagem codificada
sobre a base prática de uma determinada relação entre a cidade, o campo e o território político,
fundada na perspectiva clássica e no espaço euclidiano, por que e como essa codificação explodiu? É
preciso se esforçar para reconstruir uma tal linguagem comum aos diversos membros da sociedade:
usuários e habitantes, autoridades, técnicos (arquitetos, urbanistas, planificadores)?
38) A teoria só pode se formar e se formular ao nível de um sobrecódigo. O conhecimento só
assimila pelo abuso de uma linguagem \u201cbem feita\u201d. Ele se situa ao nível dos conceitos. Ele não
consiste, portanto, nem em uma linguagem privilegiada, nem em uma metalinguagem, mesmo se
esses conceitos convêm à ciência da linguagem como tal. O conhecimento do espaço não pode se
fechar de início nessas categorias. Código dos códigos? Caso se queira, mas essa função \u201cao segundo
grau\u201d da teoria não elucida grande coisa. Se existiram códigos do espaço caracterizando cada prática
espacial (social), se essas codificações foram produzidas com o espaço correspondente, a teoria
deverá expor sua gênese, sua intervenção, seu definhamento. O deslocamento da análise, em relação
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
25
aos trabalhos dos especialistas nesse domínio, é claro: em lugar de insistir no rigor formal dos
códigos, dialetizar-se-á a noção. Ela será situada numa relação prática e numa interação dos
\u201csujeitos\u201d com seu espaço, com seus arredores. Tentar-se-á mostrar a gênese e o desaparecimento
das codificações-decodificações. Esclarecer-se-á os conteúdos: as práticas sociais (espaciais)
inerentes às formas.
39) I.9 O surrealismo aparece, nos dias de hoje, diferentemente do que apareceu já há um meio
século. Algumas pretensões desapareceram: a substituição da poesia pela política e a politização da
poesia, a idéia de uma revelação transcendente. Esta escola literária não se reduz, entretanto, à
literatura (que inicialmente ela amaldiçoava {desonrava}), portanto, a um simples evento literário
ligado à exploração do inconsciente (a escrita automática), da aura subversiva no início, recuperada
em seguida por todos os meios: as glosas, as exegeses e comentários \u2013 a glória e a publicidade etc.
40) Os principais surrealistas tentaram a decifração do espaço interior e se esforçaram para
esclarecer a passagem desse espaço subjetivo à matéria, corpo e mundo exterior, assim como à vida
social. O que confere ao surrealismo um alcance teórico de início despercebido. Essa tentativa de
unidade, anunciando uma pesquisa em seguida obscurecida, se revela em L\u2019amour fou, de André
Breton. A mediação do imaginário e da magia (\u201cAssim para me fazer aparecer uma mulher sou eu
visto a abrir uma porta, a fechar, a reabrir \u2013 quando eu constatara que era insuficiente deslizar uma
lâmina num livro escolhido ao acaso após ter postulado que tal linha da página da esquerda ou da
direita devia me informar de uma maneira mais ou menos indireta sobre suas disposições, me
confirmar sua vinda iminente ou sua não-vinda \u2013 depois, recomeçar a deslocar os objetos, buscar uns
em relação aos outros \u2013 lhes fazer ocupar posições insólitas\u201d etc.22), essa estranheza {extravagância}
não retira nada do valor anunciador da obra23. Todavia, os limites do fracasso dessa tentativa poética
também podem ser mostrados. Não que falte à poesia surrealista uma elaboração conceitual exibindo
o sentido (os textos teóricos, manifestos e outros, do surrealismo não faltam e se pode até perguntar o
que resta do surrealismo sem essa sobrecarga). As deficiências inerentes a essa poesia vão mais
fundo. Ela privilegia o visual além do ver, raramente põe-se \u201cà escuta\u201d e curiosamente negligencia o
musical no \u201cdizer\u201d e mais ainda na \u201cvisão\u201d central. \u201cÉ como se, de repente, a noite profunda da
existência humana tivesse sido aberta, como se a necessidade natural consentindo a não fazer senão
com a necessidade lógica, todas as coisas sendo liberadas à transparência total...\u201d24.
 
22 Cf. L\u2019amour fou, éd. originale, p.23.
23 Mesma apreciação, após tantos anos, para muitas poesias de Éluard.
24 Id. p.6.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
26
41) O projeto, hegeliano de origem (segundo o próprio A. Breton, cf. p.61), não se persegue senão
no curso de uma sobrecarga afetiva, portanto subjetiva, do \u201cobjeto\u201d (amado) por uma sobreexaltação
de símbolos. Postulando sem excesso o dizer, e sem mostrá-lo, o fim hegeliano da história na e pela
poesia, os surrealistas só propiciaram uma metalinguagem lírica da história, uma fusão ilusória do
sujeito com o objeto num metabolismo transcendental. Metamorfose verbal, anamorfose,
anaforização da relação entre os \u201csujeitos\u201d (as pessoas) e as coisas (o cotidiano), os surrealistas,
portanto, sobrecarregaram o sentido e não mudaram nada. Porque eles não podiam passar da troca
(dos bens) ao uso, pela única virtude da linguagem.
42) Como a dos surrealistas, a obra de G. Bataille aparece, hoje, sob uma outra perspectiva que
durante sua vida. Ele também não teria desejado (entre outros propósitos) reunir o espaço da
experiência interior ao espaço da natureza física (abaixo da consciência: a árvore, o sexo, o acéfalo)
e ao espaço social (o da comunicação, da palavra). Como os surrealistas, mas numa outra via que a
da síntese imaginada, G. Bataille demarca o trajeto entre o real,