trauma abdominal
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trauma abdominal


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Trauma 
abdominal
Eduardo Bertolli
Neste capítulo, será abordado o trauma abdominal, 
incluindo as lesões pélvicas e retroperitoneais. Por ser 
o abdome um local onde são frequentes lesões trau-
máticas, o socorrista deve atentar-se para os sinais e 
sintomas clínicos de instabilidade hemodinâmica (taqui-
cardia, hipotensão, sudorese fria) e, com base nisso, 
adotar a conduta adequada: laparotomia exploradora, 
lavado peritoneal, FAST ou tomografia. Este capítulo é 
de grande importância porque o trauma abdominal é o 
assunto mais cobrado em Cirurgia do Trauma nos con-
cursos médicos, com mais de 20% das questões.
1. Introdução
O abdome é sede frequente de lesões traumáticas, tanto contusas 
como penetrantes, muitas das quais necessitarão de tratamento cirúr-
gico. O socorrista deve estar atento aos sinais sugestivos dessas lesões 
para não retardar o tratamento definitivo.
Define-se como abdome anterior a área entre a linha transmamilar su-
periormente, os ligamentos inguinais e a sínfise púbica inferiormente, 
e as linhas axilares anteriores lateralmente. Pode ser dividido em 9 re-
giões: regiões de hipocôndrios direito e esquerdo, região epigástrica, re-
giões de flancos direito e esquerdo, região mesogástrica, regiões ilíaca 
direita e esquerda e região hipogástrica (Figura 1). Há, ainda, outra divi-
são em quadrantes: superiores direito e esquerdo e inferiores direito e 
esquerdo. Do ponto de vista interno, o abdome possui 3 compartimen-
tos distintos: a cavidade peritoneal, o retroperitônio e a pelve (Figura 1).
 
Figura 1 - (A) e (B) Divisão topográfica do abdome e (C) órgãos peritoneais e (D) retroperitoneais 
2. Mecanismos de trauma
O trauma contuso ou fechado compreende as lesões por compressão, 
esmagamento, cisalhamento ou desaceleração. Os acidentes automo-
bilísticos são responsáveis por 60% dos traumatismos abdominais 
fechados. As vísceras parenquimatosas são mais frequentemente 
acometidas, sendo mais comuns as lesões do baço (de 25 a 45%) e do 
fígado. 
Os traumas penetrantes dividem-se basicamente em ferimentos por 
projéteis de armas de fogo e ferimentos por arma branca. Cerca de 
80% dos primeiros causam lesões abdominais significativas, o que 
ocorre em só 20 a 30% dos últimos. Em 25%, há acometimento conco-
mitante da cavidade torácica, lembrando que alguns ferimentos podem 
transfixar o diafragma. Os órgãos mais comumente lesados são fígado 
(30 a 40%), intestino delgado (30 a 50%) e estômago (20%). Ferimentos 
que comprovadamente penetraram a cavidade peritoneal têm indica-
ção formal de laparotomia exploradora.
3. Avaliação inicial
A avaliação inicial segue as prioridades do Advanced Trauma Life Support 
(ATLS®), iniciando com a garantia de via aérea pérvia e proteção da co-
luna cervical. A ventilação pode estar comprometida nos ferimentos 
transfixantes do diafragma, e a drenagem de tórax pode ser necessá-
ria. No exame físico abdominal, é preciso pesquisar a presença ou a au-
sência de ruídos hidroaéreos, pneumoperitônio (hipertimpanismo e/ou 
sinal de Joubert positivo) e sinais de peritonite por meio da palpação.
A avaliação hemodinâmica é o item mais importante na definição da 
conduta. Pacientes instáveis com suspeita de sangramento abdominal 
podem ser submetidos a Lavado Peritoneal Diagnóstico (LPD) ou ultras-
sonografia na sala de emergência (Focused Assessment with Sonography 
for Trauma \u2013 FAST). Dependendo da etiologia do trauma, esses indiví-
duos podem ser diretamente submetidos a laparotomia exploradora. 
Entre os estáveis, é possível a realização de exames complementares. 
Como medidas complementares ao exame primário, o paciente deve 
ser submetido a sondagem gástrica, útil para esvaziar o conteúdo gás-
trico (principalmente em gestantes, crianças e pacientes obesos), dimi-
nuindo o risco de aspiração, além de verificar possíveis sangramentos 
digestivos. O uso de sonda nasogástrica está contraindicado em fra-
tura suspeita da base do crânio. Realiza-se, também, sondagem vesical 
para descompressão da bexiga e para avaliação de hematúria. 
Importante
Antes da sondagem 
vesical, deve-se realizar 
o exame de toque retal, 
o que permite avaliar a 
presença de sangramento, 
de crepitação ou de espí-
culas ósseas, a tonicidade 
esfincteriana e a posição 
da próstata. Se o paciente 
apresentar sangue no 
meato uretral, hematoma 
escrotal ou equimose 
perineal, espículas ósseas 
ou deslocamento cranial 
da próstata no toque retal, 
estará contraindicada 
a sondagem vesical e 
deverá ser feita uretro-
cistografia retrógrada 
após a estabilização 
hemodinâmica.
Se, durante a avaliação inicial, o paciente apresentar dados que indi-
quem a necessidade de cirurgia e não houver cirurgião no serviço, a 
transferência deverá ser rápida para o centro de trauma, que poderá 
oferecer tratamento adequado.
4. Exames diagnósticos
A - Radiografia simples 
Apresenta pouca aplicabilidade no diagnóstico do trauma abdominal. 
No trauma contuso, pode revelar pneumoperitônio quando há lesão de 
víscera oca, pneumorretroperitônio e apagamento do psoas em lesões 
retroperitoneais.
Nos traumatismos penetrantes, é útil para localizar os projéteis e de-
terminar seu trajeto (Figura 2), além de avaliar a presença de hemotó-
rax ou pneumotórax nos ferimentos de transição toracoabdominal e 
de pneumorretroperitônio. Em Ferimentos por Projéteis de Armas de 
Fogo (FPAFs) dorsais, a radiografia simples de perfil pode ser útil para 
avaliação do trajeto e localização do projétil, indicando ou não a pene-
tração na cavidade.
Figura 2 - Radiografia de paciente vítima de tiro de cartucheira
Diagnóstico
Exames contrastados, 
como uretrocistografia e 
urografia excretora, são 
úteis para a avaliação 
de lesões do sistema 
geniturinário. A ure-
trocistografia, por sua 
vez, deve ser realizada 
em todos aqueles com 
suspeita de trauma ure-
tral antes da sondagem 
vesical (Figura 3).
Figura 3 - (A) Cistografia que evidencia lesão vesical intraperitoneal e (B) uretrocistogra-
fia retrógrada que evidencia lesão de uretra
B - Lavado peritoneal diagnóstico
Consiste em uma pequena incisão infraumbilical, com abertura da 
aponeurose e colocação de um cateter ou sonda dentro da cavidade 
abdominal, pela qual é infundido soro. Em caso de refluxo de sangue 
ou material entérico, diz-se que o exame é positivo, e está indicada a 
laparotomia exploradora. Quando há refluxo do soro destilado aparen-
temente sem alterações, esse material deve ser enviado para estudo 
laboratorial em que a presença de alguns itens caracteriza o lavado 
como positivo (Tabela 1).
Tabela 1 - Critérios de positividade
- Aspiração de mais de 10mL de sangue, conteúdo gastrintestinal, fezes 
ou bile; 
- Bactérias pelo Gram; 
- \u2265100.000mm3 de hemácias/mL; 
- \u2265500mm3 de leucócitos/mL; 
- Amilase >175mg/dL.
Apresenta alta sensibilidade (95 a 98%) para o diagnóstico de hemor-
ragia intraperitoneal, com a desvantagem de ser um exame invasivo. 
Sua realização está indicada ao paciente instável, com trauma multis-
sistêmico e alteração do nível de consciência ou modificação da sensi-
bilidade (lesão medular). Quanto ao paciente estável, o lavado pode ser 
utilizado em serviços que não dispõem de ultrassonografia e/ou de to-
mografia. As contraindicações estão citadas na Tabela 2.
Tabela 2 - Contraindicações
Contraindicação absoluta
Indicação de laparotomia
Contraindicações relativas
Cirurgia prévia
Devem-se realizar a incisão e a colo-
cação da sonda com cuidado, pela 
presença de aderências.
Obesidade mórbida
A hemostasia durante o procedimento 
deve ser rigorosa para não haver fal-
sos positivos.
Cirrose avançada e 
coagulopatia
Exigem cuidados com hemostasia e 
assepsia para evitar contaminação do 
líquido ascítico.
Gravidez avançada A incisão deve ser supraumbilical.
C - Ultrassonografia