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ANESTESIA A VITÓRIA SOBRE A DOR

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relata. Por-
tanto, é importante quando, ao fazermos uso de um medi-
camento, surgir uma reação, prestar bastante atenção para
poder relatar com detalhes e distinguir
uma reação normal de uma mais grave
que exija tratamento.
Por exemplo, no local da aplica-
ção de uma injeção intramuscular pode
surgir uma reação avermelhada, que é normal, não de-
vendo ser confundida com urticária. A urticária se ca-
racteriza pela presença de placas avermelhadas por diver-
sas partes do corpo, que se acompanham de edema (pál-
O diagnóstico da
anafilaxia é fundamen-
talmente clínico.
84 ANESTESIA
pebras, lábios) e de coceira intensa pelo corpo. Quando
presente, essa reação por si só já é sinal de alerta para um
possível processo de anafilaxia.
É importante relatar se ocorreram espirros sucessi-
vos, chiado no peito (broncoespasmo) e alterações gás-
tricas (náuseas e vômitos).
Devemos estar atentos, também, para os nomes dos
medicamentos (antibióticos, antiinflamatórios, exames
com uso de contraste) e alimentos (peixes, tomates) in-
geridos que possam ter relação com alguns dos sinais e
sintomas acima apresentados.
Outra consideração que precisa ser feita, para
evitar falsos diagnósticos de reação alérgica, é que exis-
tem indivíduos que, em situação de estresse, apresen-
tam sintomatologia que pode ser confundida com rea-
ções anafiláticas. É o caso daquela pessoa que tem
medo de injeção e que, ao ir à farmácia aplicar deter-
minado medicamento, desmaia. Outro exemplo é o
do indivíduo que, no dentista, na hora de aplicar a
anestesia (picada de agulha), tem suores, palpitações
e passa mal. Observando-se essas histórias, verifica-
mos que o fato desencadea-
dor foi o medo da dor da
picada de agulha e não a
substância injetada. Portan-
to, esses fatos não têm nada
de processo anafilático, es-
tando relacionados com a resposta do organismo à si-
tuação de estresse.
A incidência do choque anafilático em anestesia
é rara, variando de 1 para cada 5.000 a 1 para cada
20.000 casos.
A incidência do
choque anafilático em
anestesia é rara.
 ANESTESIA 85
PREVENÇÃO E TRATAMENTO
A ocorrência de choque anafilático não é sinônimo
de irreversibilidade, pois existe tratamento. E na sala de
cirurgia estão reunidos todos os recursos para tratar ade-
quadamente essa emergência, sendo que na maioria dos
casos o resultado do tratamento é o pronto restabeleci-
mento da saúde.
Evitar o contato com a substância desencadeadora
da reação alérgica é importante tanto para o tratamento
quanto para a profilaxia. Por isso, uma parte importante
da avaliação pré-anestésica é dedicada a averiguar a his-
tória de cada paciente. Os antecedentes e as manifesta-
ções alérgicas devem ser informadas ao médico-aneste-
siologista.
Existem medicamentos que diminuem a liberação
das substâncias desencadeadoras do choque anafilático.
Outros que diminuem ou bloqueiam os efeitos dessas
substâncias na circulação. Assim, em pacientes com his-
tória positiva, é possível fazer a profilaxia da reação alér-
gica. Com tais medidas, a reação alérgica não acontece,
ou tem seu quadro clínico amenizado.
Embora sempre requeira cuidado, observação e às
vezes tratamento agressivo, a reação alérgica e o choque
anafilático em anestesia não são a catástrofe que o pú-
blico leigo imagina. Isso acontece por
desinformação e porque os poucos
acidentes em anestesia, sobretudo os
mais famosos, são divulgados pela mí-
dia como resultantes de choque ana-
filático, quando na realidade nunca
o foram.
O anestesiologista é o
médico com maior
capacidade de tratar
adequadamente um
choque anafilático.
86 ANESTESIA
Certamente a sala de cirurgia é o local que apresen-
ta todos os recursos necessários para o tratamento de um
choque anafilático; recurso de drogas, monitores, mate-
rial cirúrgico e equipe médica.
O anestesiologista adquiriu durante seu treinamento
para a prática da anestesia conhecimentos e habilidades
que o tornam o médico com maior capacidade de tratar
adequadamente um choque anafilático. E isso é muito
confortante.
 ANESTESIA 87
A grande diferença entre a anestesia obstétrica a as
demais é o zelo e a preocupação que a futura mãe mani-
festa em relação aos efeitos da anestesia no filho que irá
nascer. Essa atitude deriva da consciência de que os anes-
tésicos utilizados passam através da circulação placentá-
ria e alcançam o sangue fetal.
Isso é verdade: praticamente todas as drogas anesté-
sicas utilizadas alcançam a circulação fetal, em maior ou
menor quantidade. Devemos analisar então quais os efei-
tos que elas exercem no feto.
Quando utilizamos, para uma operação cesariana,
anestesia geral, e existem algumas situações em que esta
é a melhor escolha, é muito provável que, ao nascimen-
to, o filho apresente algum grau de depressão, causado
pela passagem através da circulação placentária dos anes-
tésicos administrados à mãe. O Apgar do recém-nascido
no primeiro minuto, um indicador de bem-estar e vitali-
dade fetal, costuma ser menor quando comparado com
filhos de mães que foram submetidas a anestesia espi-
nhal. No quinto minuto, entretanto, não se encontra
mais nenhuma diferença, o que mostra que esses efeitos
da anestesia geral são transitórios.
Considerando somente o ponto de vista de segu-
rança, tanto a anestesia geral quanto a espinhal podem
ser utilizadas. No nosso meio, a anestesia espinhal tem
ganho merecida preferência, pois propicia que a mãe, e
também o pai, participem intensamente do significativo
1 2
Anestesia e gestação
88 ANESTESIA
momento do nascimento, podendo, em ocasiões, ama-
mentar pela primeira vez o filho, enquanto a cirurgia
prossegue normalmente. A gestante permanece acorda-
da e confortável, enquanto a operação cesariana está sendo
realizada, participa do momento do
nascimento, e isso é muito valorizado.
Assim, em resumo, a escolha do
tipo de anestesia depende da vontade
da paciente, das condições clínicas (exis-
tem algumas situações, poucas é verda-
de, em que um ou outro tipo de anes-
tesia estará contra-indicado), da experiência da equipe e
da prática local. No nosso país, na imensa maioria das
vezes, utiliza-se anestesia espinhal.
Em nosso meio, a consulta pré-anestésica ao anes-
tesiologista ainda não é uma prática estabelecida, mas
que vem crescendo muito, com vantagens médicas e psí-
quicas importantes. Ao nascimento, a possibilidade de
ser necessário o atendimento desse profissional (opera-
ção cesariana) é, por si só, tão alta, que já justificaria a
consulta. Além disso, poderá haver a opção ou necessi-
dade de analgesia durante o trabalho de parto, aprovei-
tando-se a oportunidade para esclarecer todas as dúvidas
sobre a anestesia e os efeitos dela sobre a mãe e o filho.
A sentença bíblica “Terás teus filhos com dor”, con-
tida no livro do Gênesis, não pode corresponder a uma
intenção divina, pois, explorando a anatomia da mulher,
encontramos tantas possibilidades, com fácil abordagem,
que é relativamente difícil imaginar que o Criador não
pretendeu que o alívio da dor do parto fosse uma reali-
dade. Senão vejamos: durante o trabalho de parto, em
decorrência da contração uterina dolorosa, ocorre um
período inicial de dilatação do colo uterino – fase 1. Após
Em nosso meio, a consulta
pré-natal ao anestesiologis-
ta ainda não é uma práti-
ca estabelecida.
 ANESTESIA 89
o colo estar completamente dilatado,
inicia-se o período expulsivo (nasci-
mento) – fase 2. A fase 1 dura horas,
e a 2, cerca de trinta minutos. A iner-
vação do útero, que conduz a dor da
fase 1, passa por um único local, onde
pode ser bloqueada, sem afetar a in-
tensidade da contração do útero, através de uma inje-
ção de anestésico local, realizada sob visão direta. A
inervação da dor da fase 2 é dada por um nervo facil-
mente bloqueável, utilizando uma referência