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Aula 10: As Reformas Religiosas
	
		Ao final desta aula, o aluno será capaz de:
1. Localizar a reforma protestante no conjunto de transformações da idade moderna; 
2. reconhecer o movimento reformista como fruto de seu tempo; 
3. distinguir as diferenças entre os diversos movimentos. 
	
Diversas vezes, temos ressaltado, durante nosso curso, a importância da Igreja Católica não só na Idade Média, mas também durante a modernidade. Podemos perceber que a Igreja não se mantém inerte ao conjunto de transformações sociopolíticas no mundo que a cerca, mas se adapta e cria novos mecanismos para sobreviver e manter seu poder.
Entretanto, se na Idade Média o catolicismo constituía o instrumento de unidade em uma realidade fragmentada, com a formação dos Estados nacionais e o estabelecimento de novos signos de identidade – fronteira, idioma, moeda – estabelecido pelos reis, esta não é mais a realidade do mundo moderno. Não que a Igreja tenha perdido completamente este papel, mas agora teria que dividi-lo frente a um novo processo que se ampliava e conquistava novos adeptos, mesmo entre os reis, a Reforma Protestante.
É importante ressaltar que o que está em jogo não é o fim do cristianismo, mas novas maneiras de entendê-lo e praticá-lo. Nesse sentido, a reforma parte dos princípios católicos e, a partir deles, busca novas maneiras de aproximar o homem de Deus. Isso acontece porque a fé não diz respeito somente ao campo espiritual, mas, sobretudo, ao campo político.
Às vezes, temos dificuldade em compreender estas questões, pois elas parecem muito distantes do mundo que vivemos. Mas só parecem. Mesmo no século XXI, a força da religião é inegável, seja ela cristã ou não. Países muçulmanos ainda possuem líderes políticos que são também líderes religiosos, como o caso dos aiatolás no Irã.
O Dalai lama é o líder espiritual do Tibet, mas desde que o país passou a ser dominado pela China, na década de 50, o Dalai Lama foi expulso, mas não perdeu, para os tibetanos, seu papel de líder político do país, mesmo distante e impedido de retornar.  
Os Estados pontifícios desapareceram, mas o Vaticano sobreviveu, tendo o papa como líder de seu Estado.
Cada vez mais, a religião evangélica se expande, sobretudo na América, e seus membros fazem parte de importantes órgãos decisórios, como câmaras e senados ao longo de todo o continente.
No nosso tempo, de avanços tecnológicos, “milagres” médicos, internet e globalização, o campo espiritual não recuou, tampouco despareceu, mas se adaptou e ganhou força, nos mais diferentes setores da sociedade e da política.
Evidenciar esta questão nos aproxima do processo histórico ocorrido no período reformista. Faz-nos entender que também somos agentes históricos, tanto quanto as grandes figuras da época, como João Calvino e Martinho Lutero.
As grandes transformações históricas são como correntes, com vários elos entre si. Para falar de reforma, temos que, antes de tudo, falar das transformações políticas e econômicas do Estado moderno.
Com o renascimento urbano e comercial, cada vez mais a burguesia se afirmava como classe, cujos interesses não podiam mais ser ignorados. A aliança rei/burguesia elevou esta classe a um novo patamar, concedendo-lhe poder político. É certo que este poder político era limitado tanto pela existência de uma nobreza que compunha a corte, quanto pelo clero, que tinham enorme influência nas decisões reais.
A ascensão burguesa gerou uma contradição: ao passo que obtinham poder econômico, viam o lucro e a usura, fontes de sua riqueza, serem veementemente condenados pela religião que seguiam, o catolicismo. A vida espiritual entrava em choque com a realidade em que viviam. Como princípio, a Igreja Católica condenava o lucro e a usura. Vamos ver seu significado:
Lucro – ganho oriundo de uma relação comercial. É a diferença entre o valor de produção da mercadoria e seu preço de venda.
Usura – lucro exagerado, no qual se paga mais do que o valor real do bem.
A Usura
A usura, portanto, condena o próprio lucro, e este era um tema constante nos sermões católicos. O que acabava gerando uma outra contradição. A igreja condenava a usura, mas era sua principal beneficiária. Pregava o voto de pobreza, mas era a mais rica instituição da Europa. 
Tinha restrições ao comércio, mas vendia indulgências, o que quer dizer que, por determinada quantia, era possível receber o perdão pelos pecados. Praticava a simônia, que é o comércio de relíquias ditas sagradas, como pedaços da cruz de Cristo e ossos e objetos de santos. Ou seja, o discurso católico passava muito longe de sua pratica real. 
Além disso, ao recomendar e valorizar a pobreza alheia, a igreja cumpria um importante papel no campo social. A pobreza terrena e uma vida de virtudes e obediência tinham como recompensa a vida eterna, na esfera celestial. Isso atingia, sobretudo os camponeses e servos, que toleravam uma vida de privações esperando serem recompensados por ela após a morte. A riqueza e a prosperidade burguesas eram um problema, pois traziam um novo sentido de riqueza e conforto que os camponeses desconheciam. 
A igreja ostentava seu luxo não só na grandiosidade de seus templos, mas também como proprietária de terras, sendo ela própria uma poderosa senhora feudal. Na organização dos estados nacionais, isso se torna um entrave e países como a Inglaterra, ao adotar o protestantismo e se tornar anglicano, tem como uma de suas primeiras medidas o confisco das terras eclesiásticas. O que foi um duro golpe no poder econômico da igreja naquele país.
Nesse panorama, podemos inferir que a reforma ocorre não só devido a um contexto político econômico, mas também espiritual. É a ASCENSÃO BURGUESA, o RENASCIMENTO COMERCIAL e a CENTRALIZAÇÃO DOS ESTADOS que criam as condições para que ela ocorra e se propague.
As críticas ao modo de proceder da Igreja Católica não começam com os grandes reformistas como Lutero e Calvino.
Suas doutrinas ganharam destaque e adeptos porque ocorreram em uma conjuntura propícia. Entretanto, a contestação ao catolicismo não era nova.
Fonte: http://educador.brasilescola.com/estrategias-ensino/a-usura-burguesia-purgatorio.htm
No século XII, floresceu na França o movimento cátaro. Os cátaros acreditavam na dualidade, no bem e no mal e reivindicavam uma vida de pureza, pobreza e celibato dos clérigos.
A Igreja considerava o movimento herético, e no século XIII ocorreu a cruzada albigenses, com o objetivo de reconduzir a população aos princípios da fé católica. Deve-se aos cátaros a criação da inquisição. Um equívoco comum é acharmos que a inquisição passou a existir somente no período de contrarreforma. 
Na verdade, ela ganha impulso com a contrarreforma, mas já existia desde o século XII.
Fonte: WIKIPEDIA. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Cathars_expelled.JPG. Acesso em: 31 ago. 2012.
Na imagem, vemos a expulsão dos cátaros pelos cruzados. Além do movimento cátaro, um dos precursores da reforma foi Jan Huss. Huss inspirou-se em outro teólogo, o inglês John Wyclif que se dedicou à tradução da Bíblia para idioma inglês.
Wyclif fazia enormes críticas aos abusos do papado, ao luxo da Igreja e ao estilo de vida do clero que vivia de forma opulenta com o dinheiro dos pobres. Estas críticas encontraram eco na região da Boêmia onde Huss vivia. A Boêmia era parte do sacro Império Romano Germânico que por sua vez tinha relações intrínsecas com a Igreja. A punição foi implacável. Além de excomungado, Huss foi queimado na fogueira.
Dois pontos chamam a atenção em especial no comportamento da Igreja:
Primeiro, no caso de Wyclif, ao traduzir a bíblia para o inglês, ele permitia que mais pessoas tivessem acesso a ela, já que grande parte da população não dominava o latim. Isso tornava possível novas interpretações do documento sagrado e, portanto, novas ideias sobre ela.
O outro ponto é a punição de Huss. Se considerarmos a noção de contrato social, que os iluministas se dedicaram a estudar com afinco, cabe ao Estado o uso da força e da