02. Política - história ciencia cultura etc - Angela de Castro Gomes - TENHO
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02. Política - história ciencia cultura etc - Angela de Castro Gomes - TENHO


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Política: História, Ciência, 
Cultura etc. 
Angela de Castro Gomes 
Este texto tem como objetivo básico realizar o arriscado exercício de 
pensar como, no Brasil das últimas décadas, se desenvolveram o que se irá 
chamar de "estudos políticos". Tal designação, passível de muitas críticas e 
desconfianças, é reveladora da grande dificuldade de delinear o campo dos 
trdbalhos cobertos pela reflexão, uma vez que se trata, fundamentalmente, de 
situar as questões e relações, ao mesmo tempo competitivas e complementares, 
de uma produção que, tendo como objeto "temas políticos", pode assumir 
contornos teórico-metodológicos mais próximos ou distantes da história, da 
ciência política ou, também, de outras ciências sociais. 
Esse tipo de produção tem profundas raízes na tradição intelectual 
brasileira, marcada por um vigoroso ensaísmo histórico-sociológico (que é 
político); desde o início do século. Evidentemente, não se buscará aqui 
acompanhar tão longa convivência, mesmo porque a intenção básica é concen­
trar o foco nas relações entre história e polítiCa, o que só se toma possível de 
fOllna mais efetiva quando um certo acúmulo de textos identificados grosso 
Nota: Estc lexto foi escrito p::Ir:I minha. PfI.>V<I d\ufffd aula no (&quot;Qncurso público pa m professor I itular de história 
do Bmsil da Universidade Feder ... 1 FllImin\ufffdnsc. (C',i1i7.ado em 14 de dezembro de 1995. A bancJ era 
composta pelos professores titulares Ronaldo Vainfas (presideme), Maria O<.Iila Leite cb Silva Di<ls, Hclga 
Picmlo, Joana Pedro c Gilberto Velho. 
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estudos históricos . / 996 - / 7 
modo como de ciência política começa a circular no país. Isso só acontece mais 
claramente, guardada a fluidez de toda fronteira, a partir dos anos 1960, tendo 
a ver com a disseminação dos cursos de ciências sociais (graduação e 
pós-graduação) nas universidades; com o aumento do interesse editorial pela 
publicação de textos políticos; e também com os crescentes contatos entre 
historiadores e cientistas sociais/políticos, que passam a sinali
:-
..ar novos tem\ufffdos 
para tais relações interdisciplinares e para o pensamento pobtlCü brasileiro. 
Embora possa parecer supérfluo, uma primeira observação a ser feita 
diz respeito à própria relação da autora deste artigo com seu objeto de reflexão. 
Isto porque tornou-se claro para mim, a partir de certo momento nào localizável 
das leituras empreendidas para a elaboração do artigo, que havia alguma dose 
de minhas próprias vivências nas observações que vinham brotando da análise. 
Dito de outra forma, esta autord é por formação básica uma historiadora que, 
tendo-se dedicado desde meados dos anos 1970 à pesquisa da história política, 
sentiu necessidade de aplicar-se teoricamente na área da ciência política para 
empreender estudos que se definiam crescentemente por sua inserção no campo 
do que veio a ser designado como &quot;história do tempo presente&quot;. 
Assim, a ótica por mim assumida é a do historiador com &quot;dupla&quot; 
formação, ou seja, a do profissional que está comprometido com os impasses 
contemporâneos da história - dentre os quais se destaca a afirmação de 
cardcteristicas distintivas e constitutivas da disciplina -, mas que se recusa a 
aceitar que o preço da singularidade possa .ser um maior estremecimento das 
ligações amorosas e, em certa medida, perigosas entre história e ciências sociais. 2 
Por esta razão, a estratégia escolhida para &quot;construir&quot; este texto parte 
de uma série de opções - portanto, de exclusões - que devem ficar claras e que 
têm a ver fundamentalmente com os temas da revitalização da história política, 
do reconhecimento da história do tempo presente e das relaçqes de interdisci­
plinaridade constitutivas de uma história política do tempo presenteJ 
No que se refere à história política: também no Brasil a tradição 
historiográfica é fortemente marcada por uma produção de história político-ad­
ministrativa, com o predonúnio de uma narrativa povoada de acontecimentos, 
grandes vultos, batalhas etc. Em oposição a essa &quot;velha&quot; história, que se 
transformou, a partir da critica e da prática da escola dos Annales, na síntese 
de todos os males da disciplina, também se desenvolveu uma &quot;outra&quot; história 
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, 
que se caracterizou por ser econômico-social e voltada para as estruturas, OS 
atores coletivos, as metodologias quantitativas etc. 
Nos dois casos - o da &quot;velha&quot; história política e o da &quot;nova&quot; história 
econômico-social, na qual a política era como que uma conseqüência/decor­
rência -, os períodos de tempo mais estudados eram os da Colônia e do lmpélio 
Política: História, Ciência, Cultura etc. 
Oogo, uma classificação &quot;política&quot;), havendo bem menos interesse pela Repú­
blica. 
Nada de especial, por conseguinte, em relação ao que ocorria em outras 
experiências historiográficas, como a francesa, que sempre foi de espedal 
importância para a produção intelectual dos historiadores nadonais. 
O que pode constituir uma primeira observação a flexibilizar tal 
&quot;evolução&quot; é o reconhecimento de que, por uma ausência de trabalhos 
sistemáticos de reflexão sobre a historiografia brasileira, e pela solidificação do 
tipo de visão aama enunciada, acabamos por delinear uma tradição disciplinar 
por demais homogênea e dominada pela &quot;velha&quot; história político-administrativa, 
a partir da qual se definiu a estratégia de combate, renovação e af=ção dos 
&quot;novos'J estudos sociais e econôrnicos. 
Isto teria ocorrido por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, porque 
houve um obscurecimento das caracteristicas da produção histórica anterior, 
sobretudo daquela pertencente às primeiras décadas da República e que, em 
certo sentido, fundou o campo desse conhecimento no Brasil. Essa produção 
foi globalmente imersa no epíteto de uma história política de eventos/ho­
mens/datas, carente de interpretações que levassem em conta a situação 
sócio-econômica do &quot;fato&quot; que se examinava. Estudos recentes sobre esses 
autores e obras, embora pouco numerosos, têm demonstrado que os nossos 
&quot;historiadores clássicos&quot; eram bem mais &quot;sofisticados&quot;,. construíam seus textos 
políticos recorrendo a fontes e metodologias diversificadas (arquivos privados, 
material iconográfico etc.) e, prindpalmente, contextualizavam a questão que 
examinavam na vida sooo-econômica do país, da região, da cidade. Além disso, 
alguns desses textos possuíam, ao menos em panes significativas, características 
de uma história do tempo presente, ou de uma história in'iediata, em que o autor 
era um testemunho e/oLl um ator dos acontecimentos que analisava. 
Em segundo lugar, porque é possível que essa ''velha'' história política, 
sem dúvida existente e influente, estivesse mais presente nos cOll1pêndios 
escolares, eles mesmos objeto de crítica desde os anos 1930, justamente por não 
atraírem os estudantes devido a suas minúdas descritivas, enumerações cansa­
tivas e escassez de idéias interpretativas. O convite a uma história dos fatos 
econômicos e sociais do Brasil estava feito - inclusive pelas reformas ofidais do 
ensino, a de Capanema, de 1942, com destaque -, independentemente das 
razões e dos objetivos da rejeição da &quot;velha&quot; história política pela escola dos 
Annales. Tal perspectiva, é interessante registrar, só iria se disseminar bem mais 
tarde, guardando intrínsecos contatos com o crescimento das análises de 
orientação teórica marxista já nos cursos universitários de história e dêndas 
\u2022 \u2022 SOCiaiS. 
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estudos históricos \u2022 1996 - 17 
Ainda \lO rastro desta possibilidade de reflexào, podemos suspeitar dos 
laços que uniam essa ''velha'' história política e o ambiente acadêmico das 
Faculdades de Filosofia, Ciências'e Letras, criadas para fonnar professores a 
partir de finais dos anos 1930. Usando o exemplo do Rio de Janeiro, a prática 
docente de catedráticos como Hélio Viana nào deixa dúvidas quanto ã 
longevidade de uma