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Direito Processo Penal   Renato Brasileiro

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DIREITO PROCESSUAL PENAL
Conceito
É um conjunto de normas e princípios que regulam a aplicação jurisdicional do direito penal objetivo, a sistematização dos órgãos de jurisdição e respectivos auxiliares, bem como a persecução penal.
O direito processual penal funciona como instrumento do qual se vale o Estado para a imposição da sanção penal ao possível autor do fato delituoso. Todavia, o Estado não pode punir de qualquer maneira, devendo perseguir o autor do fato delituoso de modo a aplicar-lhe as disposições legais cabíveis, sem, contudo, desrespeitar seus direitos e garantias individuais. É esse, pois, o grande dilema do processo penal: de um lado, o necessário e indispensável respeito aos direitos fundamentais; do outro, o atingimento de um sistema criminal mais operante e eficiente.
SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS
Sistema inquisitorial
Tem como característica principal o fato de que as funções de acusar, defender e julgar encontrarem-se concentradas em uma única pessoa, que assume assim as vestes de um juiz acusador, chamado de juiz inquisidor.
Essa concentração de poderes nas mãos do juiz compromete, invariavelmente, sua imparcialidade.
O sistema inquisitorial está bastante atrelado com o modelo de governo absolutista, no qual as funções de legislar, aplicar a lei e julgar encontram-se nas mãos de um só governante.
Neste sistema, o juiz possui ampla liberdade probatória, podendo utilizar seus poderes instrutórios da maneira que lhe aprouver.
O acusado, assim, é mero objeto do processo, não sendo considerado sujeito de direitos. O processo inquisitório é, em regra, escrito e sigiloso, mas essas formas não lhe são essenciais.
O processo inquisitorial é incompatível com a CF/88, pois viola os mais elementares princípios processuais penais e também os direitos e garantias individuais.
Sistema acusatório
Caracteriza-se pela presença de partes distintas, contrapondo-se acusação e defesa com igualdade de posições, e a ambas se sobrepondo um juiz, de maneira equidistante e imparcial. Aqui, há uma separação das funções de acusar, defender e julgar.
No sistema acusatório, a gestão das provas é função das partes, cabendo ao juiz o papel de garante das regras do jogo, salvaguardando direitos e liberdades fundamentais.
Foi acolhido de forma explícita pela CF/88 (Art. 129, I da CF). Nesse sistema, o juiz deve abster-se de promover atos de ofício na fase investigatória, atribuição esta que deve ficar a cargo das autoridades policiais e do MP.	Comment by Everton: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei;
Sistema misto ou francês
O processo se desdobra em duas fases distintas: a primeira é tipicamente inquisitorial, com instrução escrita e secreta, sem acusação e, por isso, sem contraditório. Nesta, objetiva-se apurar a materialidade e a autoria do fato delituoso. Na segunda fase, de caráter acusatório, o órgão acusador apresenta a acusação, o réu se defende e o juiz julga, vigorando, em regra, a publicidade e a oralidade.
Houve entendimento de que o ordenamento brasileiro tinha acolhido o sistema misto. Todavia, com o advento da CF/88, que prevê de maneira expressa a separação de acusar, defender e julgar, estando assegurado o contraditório e a ampla defesa, estamos diante de um sistema acusatório.
PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO PROCESSO PENAL
Princípio da presunção de inocência
Também chamado de princípio da não culpabilidade.
Consiste no direito de não ser declarado culpado senão mediante sentença transitada em julgado, ao término do devido processo legal, em que o acusado tenha se utilizado de todos os meios de prova pertinentes para sua defesa (ampla defesa) e para a destruição da credibilidade das provas apresentadas pela acusação (contraditório).
Como decorrência da presunção de inocência, cabe ao órgão acusador demonstrar a culpa do acusado, e não este de demonstrar sua inocência (esta é presumida). Em outras palavras, recai exclusivamente sobre a acusação o ônus da prova, incumbindo-lhe demonstrar que o acusado praticou o fato delituoso que lhe foi imputado na peça acusatória.
Não havendo certeza quanto à prática da conduta delituosa, o acusado será absolvido. A condenação deve fundamentar-se em elementos sólidos, com uma base probatória idônea (STF).
Ainda, como consectário do princípio em estudo, não há que se falar em nenhum tipo de antecipação de juízo condenatório ou de culpabilidade, ou seja, a restrição à liberdade do acusado antes do trânsito em julgado de sentença condenatória só deve ser admitida a título de medida cautelar (natureza excepcional), e desde que presentes os pressupostos legais.
Princípio do contraditório
Está previsto no Art. 5º, LV da CF.
Não se pode cogitar da existência de um processo penal eficaz e justo sem que a parte adversa seja cientificada da existência da demanda ou dos argumentos da parte contrária. Daí a necessidade da presença do acusado para responder pelos fatos que lhe são imputados.
O núcleo fundamental do contraditório estaria ligado à discussão dialética dos fatos da causa, devendo se assegurar a ambas as partes, e não somente à defesa, a oportunidade de fiscalização recíproca dos atos praticados no curso do processo.
Princípio da ampla defesa
Também previsto no Art. 5º, LV da CF.
A ampla defesa está intimamente ligada ao contraditório, mas com este não se confunde. A ampla defesa assegura ao acusado o direito de participar do processo penal, seja por meio de defesa técnica (exercida por profissional da advocacia legalmente habilitado), seja por meio da autodefesa (possibilidade de participar diretamente da produção de provas e influenciar na convicção do juiz).
A defesa técnica compreende o direito de escolha do defensor e uma defesa plena e efetiva; A autodefesa abrange os direitos de audiência e de presença.
Princípio da publicidade
Tem relação com o Estado democrático de direito e tem como objetivo assegurar a transparência da atividade jurisdicional, oportunizando sua fiscalização não só pelas partes, mas também por toda a comunidade.
De acordo com o Art. 93, IX da CF, todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos e, fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade.	Comment by Everton: IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação;
Trata-se de um princípio absoluto?
Não. A lei pode limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação.
Princípio da busca da verdade
Durante muitos anos prevaleceu o entendimento de que no âmbito do processo civil vigorava o princípio da verdade formal (o que importava era a convicção do juiz acerca do caso concreto e não necessariamente a verdade, pois os objetos em discussão eram bens disponíveis); ao contrário, no âmbito do processo penal, vigorava o princípio da verdade material, no qual o juiz tinha amplos poderes instrutórios e buscava sempre a verdade real dos fatos (o direito a liberdade é um bem indisponível).
Atualmente, essa dicotomia entre verdade formal e material deixou de existir. Já não há mais espaço para a dicotomia entre a verdade formal (processo civil) e verdade material (processo penal).
Tem prevalecido na doutrina moderna que o que vigora no processo penal atual é o princípio da busca da verdade. Seu fundamento é o Art. 156 do CPP. Admite-se que o magistrado produza provas de ofício, porém apenas na fase processual, devendo sua atuação ser sempre complementar/subsidiária. Na fase preliminar de investigações (inquérito) não é dado ao magistrado produzir provas

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