O materialismo histórico e os estudos organizacionais - José Henrique de Faria
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O materialismo histórico e os estudos organizacionais - José Henrique de Faria


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O MATERIALISMO HISTÓRICO E OS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS 
 
Parafraseando Marx (A Miséria da Filosofia), dedico 
humildemente este estudo aos pesquisadores e 
professores que têm sobre mim a vantagem de nada 
entenderem sobre o que escrevem e ensinam. 
 
José Henrique de Faria 
 
1. Introdução 
 
Ao discorrer sobre como realizar uma pesquisa sobre uma base sólida, 
Marx (1974) refere-se ao método em Economia Política e não a qualquer 
método. Entretanto, os fundamentos de sua proposta alcançaram uma 
amplitude que extrapolou a economia política, servindo de orientação às 
ciências sociais em geral e à filosofia. O objetivo destas reflexões é o de ajustar 
o método exposto por Marx aos Estudos Organizacionais. Assim, o presente 
estudo tratará do Materialismo Histórico e do Método Dialético a ele 
correspondente no campo dos Estudos Organizacionais, do ponto de vista 
epistemológico e metodológico, como fundamento da Teoria Crítica em 
Estudos Organizacionais de base marxista. Não se pretende, portanto, discutir 
as semelhanças e diferenças com os representantes da Teoria Crítica 
Frankfurtiana, sejam eles da primeira (Adorno, Horkheimer, Benjamin, 
Marcuse, Fromm, Pollock, entre outros), da segunda (Habermas) ou da terceira 
(Axel Honneth) gerações. Também não se pretende discutir os desvios 
estruturalistas de Althusser, a concepção mecanicista de Engels em sua 
dialética da natureza, a visão reflexológica de Lênin, entre outras 
interpretações. Estes são estudos importantes, mas cujo debate não cabe no 
espaço deste trabalho. Também não se pretende discutir os problemas 
epistemológicos e metodológicos dos CMSs, da arqueologia foucaultiana e 
outras correntes abarcadas pelos Estudos Organizacionais Críticos. 
Neste sentido, é necessário esclarecer desde logo que aqui se entende, 
de maneira bem simples, por epistemologia o estudo científico do 
conhecimento. A epistemologia pretende responder à seguinte questão: como 
o conhecimento é produzido (construído, obtido, desenvolvido), organizado, 
sistematizado e transmitido (explicitado, divulgado, exposto)? Deste modo, 
entende-se que o método é um procedimento epistemológico, na medida em 
que ele define como o conhecimento é produzido, sistematizado e transmitido. 
O método não se confunde com as técnicas de coleta (quantitativas, 
qualitativas ou ambas), processamento e análise de dados, fatos e informações 
e tampouco com as fontes (primárias ou secundárias), embora se valha 
totalmente de todas elas. Este é, portanto, um estudo sobre, ao mesmo tempo, 
epistemologia e metodologia do Materialismo Histórico e que está organizado 
em seis partes. 
Na primeira e na segunda serão apresentados temas básicos que 
ajudam a esclarecer o restante da exposição. Inicia-se pelo esclarecimento 
sobre o que é e quais as diferenças entre materialismo, idealismo e interação. 
Em seguida, serão apresentados os fundamentos da dialética em sua 
evolução. Estes dois itens serão breves, pois os mesmos têm apenas o 
propósito de elucidar e não o de promover discussão. O terceiro item aprofunda 
o segundo, pois tratará de expor o que é a dialética marxista, discutindo 
posições sobre este tema. O quarto item indicará os princípios do materialismo 
histórico marxista e também discutirá posições. O quinto ítem tratará do 
método em Marx, que é o tema central deste estudo. Aqui as discussões 
implicam tomadas de posição e, portanto, desencadeamento de polêmicas. O 
sexto item completenta o anterior ao abordar o que são categorias de análise 
na perspectiva marxista. Insiste-se que a discussão de cada tema terá sempre 
como suporte a epistemologia. 
 
2. Materialismo, Idealismo e Interação 
Todas as discussões epistemológicas partem da visão entre duas 
concepções opostas: o materialismo e o idealismo. O que se encerra nesta 
discussão é se a origem do conhecimento está na realidade apreendida pelo 
sujeito ou em como o pensamento apreende a realidade. No primeiro caso 
encontra-se o materislismo, que considera que o conhecimento é produzido a 
partir do real. No segundo caso está o idealismo, que considera que a 
realidade é dada a conhecer a partir da idéia que se tem dela. 
O materialismo considera que todas as coisas são matérias e todos os 
fenômenos são resultados de interações materiais. Matéria, neste sentido, não 
é o mesmo que objeto tangível, mas objeto realmente existente. Assim, a 
organização da sociedade para produzir suas condições de existência é uma 
realidade material tanto quanto uma barra de ferro, embora sejam realidades 
de concretudes diferentes. Entretanto, a matéria é a única substância e, deste 
modo, é a fonte do conhecimento e da prática, ou seja, o sujeito pensa e age 
de acordo com a realidade dos fatos. Na filosofia, Demócrito e Epicuro foram 
dois pensadores pré-socráticos que defendiam a posição materialista. 
Embora o idealismo tenha em Platão um de seus mais importantes 
filósofos1, é com a revolução filosófica de Descartes e o seu cogito que esta 
concepção ganha força na filosofia. Contudo, o idealismo está em geral 
associado a Kant e Hegel que são considerados os mais importantes 
pensadores idealistas da filosofia moderna. Em linhas gerais o idealismo 
refere-se ao primado da idéia, mas não à idéia de maneira simples, pois isto 
significaria reduzir a realidade ao pensamento. O ponto central do idealismo é o 
Eu subjetivo, ou seja, seu postulado básico é \u201cEu sou Eu\u201d, porquanto o sujeito 
(Eu) é objeto para si (Eu). Desta forma, a oposição entre sujeito e objeto se 
revela no próprio sujeito, já que o próprio sujeito (Eu) é o objeto para si mesmo 
(Eu). 
As análises mais simplistas consideram, em geral, que a primazia da 
idéia e a primazia do real signicam formas absolutas de desenvolvimento do 
conhecimento. Esta maneira de separar o mundo do saber em duas fontes 
originárias do conhecimento é uma redução analítica que desemboca no 
empirismo e no abstracionismo. Em vista disto, alguns autores sustentam que 
há uma terceira forma, à qual chamam de interacionismo entre sujeito e objeto. 
Contudo, analisada esta fórmula, nota-se que ela mesmo é fruto de uma 
 
1
 Existem autores que defendem a tese de que Platão foi o fundador do idealismo. A história da 
filosofia indica que Platão é um dos mais importantes, se não o mais importante filósofo da 
antiguidade a defender o idealismo como filosofia, mas não há certeza de que tenha ele sido o 
pioneiro. Por outro lado, há quem, citando o mito da caverna, reivindique a origem de uma 
teoria crítica ao pensamento platônico, negligenciando que para Platão a verdadeira realidade 
está no mundo das idéias, das formas inteligíveis, acessíveis apenas à razão (somente o 
visível é real, ou seja, a realidade é aquela que o sujeito controi a partir das imagens ou 
sombras e o esclarecimento é o que se pode ver na luz do pensamento novo). 
elaboração metafísica, é uma espécie de partenogênese, em que o 
conhecimento se desenvolve sem ter sido fecundado por uma interação 
instantânea entre sujeito e objeto. Neste sentido, é necessário esclarecer 
melhor a questão. 
Pode haver uma interação permanente entre sujeito e objeto, interação 
dialética. Para o materialismo histórico, como se verá adiante, esta interação é 
mediada pelo pensamento e a primazia é do real, ou seja, a produção do 
conhecimento é inicialmente fecundada pela realidade material. O materialismo 
histórico não recusa a interação, mas se opõe ao idealismo que esta vertente 
contém. Para o materialismo histórico a primazia, portanto, não é da interação. 
Tampouco é da dialética, como querem outros autores, que confundem a 
forma, o processo, o conteúdo da produção e do desenvolvimento do 
conhecimento com a ação do sujeito em relação ao objeto, ou seja, autores 
que acreditam que o que desencadeia o desenvolvimento da produção
maria
maria fez um comentário
muito bom,
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