DITADURA E REPRESSÃO. PARALELOS E DISTINÇÕES ENTRE BRASIL E ARGENTINA
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DITADURA E REPRESSÃO. PARALELOS E DISTINÇÕES ENTRE BRASIL E ARGENTINA


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Taller (Segunda Época). Revista de Sociedad, Cultura y Política en América Latina 
Vol. 3, N° 4 (2014) ISSN: 0328-7726 
 
DITADURA E REPRESSÃO. PARALELOS E DISTINÇÕES ENTRE BRASIL 
E ARGENTINA 
JANAÍNA DE ALMEIDA TELES \u2217 
 
RESUMEN: Los modelos represivos utilizados por las dictaduras latinoamericanas vienen siendo 
objeto puntual de análisis por parte de historiadores y científicos sociales. En Brasil, la Comisión 
Nacional de la Verdad representa una posibilidad de que se reinterpreten los mecanismos 
específicos del modelo brasileño y sus relaciones con otros del Cono Sur. Esto demanda mayor 
profundización en el análisis de semejanzas y diferencias entre los modelos. El presente estudio 
procura satisfacer esa demanda, utilizando como referencia la obra de Pilar Calveiro, entre otras 
herramientas de reflexión. Entre las principales conclusiones se destaca el hecho de que las 
prácticas de tortura y represión circularon por el continente, siendo Brasil el principal polo de 
diseminación, más allá de la existencia estrategias diferenciadas en cuanto a la aplicación del 
terrorismo de Estado. Estas diferencias pueden ser señaladas cuando se compara Argentina, 
donde predominó el poder desaparecedor del Estado con Brasil, donde prevaleció el poder 
torturador. 
 
PALABRAS CLAVE: dictadura; represión en el Cono Sur; aparato represivo; modelos comparativos; 
memoria. 
 
ABSTRACT: The repressive models employed by dictatorships in Latin America have been subject 
of intense analysis by historians and social scientists. In Brazil, the National Truth Commission 
represents a possibility of shedding new lights over the specific mechanisms of the Brazilian 
repressive model and its relations with other models of the Southern Cone. This context demands 
a deeper look at the parallels and distinctions between these models. The present study aims to 
meet this demand using, among other reflexive basis, Pilar Calveiro's reference work. Among the 
key findings is the fact that torture and repression circled the continent having Brazil as the main 
dissemination pole, in spite of the existence of different strategies regarding the application of the 
state terror. These differences can be pointed out when comparing Argentina, where 
predominated the disappearing power of the state, and Brazil, where, in contrast, prevailed the 
torturing power. 
 
KEYWORDS: Dictatorship; repression in the Southern Cone; the repressive apparatus; comparative 
models; memory. 
 
RESUMO: Os modelos repressivos utilizados pelas ditaduras latino-americanas vêm sendo objeto 
de intenso escrutíneo por parte de historiadores e cientistas sociais. No Brasil, a Comissão 
Nacional da Verdade representa uma possibilidade de que nova luz seja lançada sobre os 
mecanismos específicos do modelo brasileiro e suas relações com outros do cone sul. A ocasião 
demanda maior aprofundamento sobre os paralelos e distinções entre esses modelos. O presente 
\u2217 Universidade de São Paulo, Brasil. E-mail: janateles@uol.com.br. 
Recibido: 12 de Mayo de 2014 | Aceptado: 4 de Julio de 2014. 
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Taller (Segunda Época). Revista de Sociedad, Cultura y Política en América Latina 
Vol. 3, N° 4 (2014) ISSN: 0328-7726 
estudo procura satisfazer essa demanda, utilizando entre outras bases reflexivas, a obra de 
referência de Pilar Calveiro. Entre as principais conclusões destacam-se o fato de que práticas de 
tortura e repressão circularam pelo continente, tendo o Brasil como principal pólos disseminador, 
a despeito da existência de diferenças de estratégia quato à aplicação do terror de estado, o que 
este artigo revela em relação à Argentina, onde predominou o poder desaparecedor, em contraste 
com o Brasil, onde prevaleceu o poder torturador. 
 
PALAVRAS-CHAVE: ditadura; repressão no Cone Sul; aparato repressivo; modelos comparativos; 
memória. 
 
CÓMO CITAR ESTE ARTÍCULO: Teles, Janaína de Almeida (2014) \u201cDitadura e repressão. Paralelos e 
distinções entre Brasil e Argentina\u201d. Taller (Segunda Época). Revista de Sociedad, Cultura y Política 
en América Latina, Vol. 3, N° 4, pp. 99-117. 
 
 
 
Os modelos repressivos implementados na Argentina e no Brasil apresentam aspectos 
comuns a todas as ditaduras latino-americanas e distinções que os situam em polaridades 
no espectro desenvolvido pelos regimes militares do Cone Sul durante as décadas de 
1960-1980. 
O conhecimento acerca destas aproximações e distanciamentos é, entre outras coisas, 
uma função do quanto se conhece acerca dos aparatos repressivos locais. Um número 
razoável de estudos dedicou-se à compreensão do modelo repressivo argentino, em 
contraste com o Brasil, onde estudos com este perfil permanecem escassos. 
Este ensaio visa à proposição de um quadro comparativo dos dois países, utilizando como 
pontos de partida um conjunto de entrevistas originais conduzidas pela autora junto a ex-
presos políticos brasileiros e membros de suas antigas redes de solidariedade1 e o estudo 
de Pilar Calveiro \u201cPoder e desaparecimento\u201d, que oferece uma visão crítica e bastante 
pessoal acerca dos aspectos visíveis e invisíveis do aparato repressivo argentino. O caráter 
estratégico da tomada desta obra como referencial alinha-se à particular relevância que o 
tema da experiência individual das vítimas e algozes adquiriu desde a formação da 
Comissão da Verdade brasileira, em 2012, com vias à reconstituição factual da ditadura e 
à revelação da profunda dimensão da repressão empreendida neste país. 
Neste sentido, é interessante notar que Calveiro reflete de maneira sistemática sobre um 
tema que a envolveu pessoalmente durante a década de 1970, quando esteve presa em 
campos de extermínio argentinos como a Mansão Seré, a Delegacia de Castelar e a temida 
Esma (Escola de Mecânica da Armada). Sua capacidade de refletir sobre a formação da 
1 Trata-se de um conjunto de 107 entrevistas realizadas com ex-presos políticos (80 delas gravadas em 
vídeo, somando mais de 300h \u2013 Projeto USP/Unicamp/Fundação Ford), advogados e militantes constituído 
ao longo da minha pesquisa de doutorado. Janaína de A. Teles Memórias dos cárceres da ditadura: as lutas e 
os testemunhos dos presos políticos no Brasil, Doutorado, História/FFLCH, USP, 2011. 
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Vol. 3, N° 4 (2014) ISSN: 0328-7726 
lógica subjacente aos milhares de \u201cdesaparecimentos forçados\u201d cometidos em seu país 
traduz o equilíbrio com que vem tratando esse resgate histórico. 
O processo de formação e estruturação do aparato repressivo brasileiro ganha nova luz 
sob a influência da obra de Calveiro. Paralelos e distinções tornam-se mais evidentes a 
partir da de sua leitura, assim como a percepção da necessidade de se investigar crimes 
envolvendo a cooperação dos órgãos de segurança dos dois países, tal como o 
desaparecimento do então marido da autora, Horacio Campiglia, no Brasil, em 19802. 
A partir do golpe argentino de março de 1976, a repressão deixou de girar ao redor dos 
cárceres, passando a ter como eixo de sua atividade repressiva o desaparecimento de 
pessoas, levado a efeito nos campos de extermínio. A estrutura do aparelho repressivo 
brasileiro não recorreu de maneira intensa a esse recurso, mas antes desenvolveu um 
modelo híbrido e bastante sofisticado de repressão, com várias instâncias e dispositivos 
para garantir a seletividade da morte de dissidentes e demais \u201cindesejáveis\u201d3. 
Retomando a noção de Calveiro de que a ditadura argentina representou um \u201cpoder 
desaparecedor\u201d4, dir-se-ia que a repressão brasileira constituiu-se como um \u201cpoder 
torturador\u201d5. Na Argentina, a figura do desaparecido e sua contrapartida institucional, os 
campos de extermínio, representaram uma mudança fundamental \u2013 deixaram de ser