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Thereza Baumann é mestre e doutora em História Social das Ideias pela Universidade Federal Fluminense e atualmente é assessora de direção do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O livro “América em tempo de conquista” organizado por Ronaldo Vainfas foi lançado em 1992 e possuí vários textos referentes à História da América, entre eles está o texto da Thereza Baumann intitulado “Imagens do ‘outro mundo’: o problema da alteridade na iconografia cristã ocidental”. - Baumann inicia colocando pontos ao o que seria “o outro”, que aparece constantemente no texto. O “outro” seria tudo e qualquer coisa ou alguém diferente do seu próprio mundo. Coloca que o conquistador só aceita o “outro” personagem que no caso seria o índio, se o mesmo estiver em um tempo mítico, em um espaço maravilhoso que seria tanto o paraíso ou o caos. - Explica que o homem já com seus preconceitos e expectativas, não vê a realidade concreta e sim, a adapta para ser uma versão da sua fantasia, do seu esperado. Como Colombo fez segundo Todorov em Tempos de Conquista – a questão do outro. - O terceiro ponto exposto é a questão da visão do homo religiosus, que vê o mundo diferente, o mundo desconhecido, como profano porque verá esse “outro” mundo com a sua percepção do seu mundo próprio. Então tudo que ele ignora, e que passa dos limites da sacralização que seu próprio mundo tem, se torna algo profano e perigoso. - O homem medievo cristão vai acreditar que o centro do universo é o local da criação, é o cosmos, local de origem. E que para alcançar este "centro", o homem deve enfrentar o mundo do desconhecido. - "A permanência do estado de religiosidade comprometeria a percepção do conquistador sobre o "outro" , que estaria irremediavelmente associado ao profano e condenado à submissão.". p. 59 - Ao se depararem com um território desconhecido, vão associa-lo ao cosmos, ao paraíso e que deve ser sacralizado através de rituais que acreditavam recriar o momento de origem. - O cosmos vai ser um ponto de eixo, de encontro entre os três signos cósmicos que são o céu, a terra e o inferno, segundo Eliade. - Eliade apresenta a dualiade que o homem vive: Pelo homem estar em queda, ele tende a se encaminhar para o centro (paraíso) mas é dificil entrar no centro, mesmo com todos os ritos para tal. Portanto, existirá a peregrinação, que serve para a remissão dos pecados. - Para o homem voltar à condição do paraíso, ele deve lutar contra o profano e se redimir dos pecados (que são cometidos pelo seu "outro eu" - mas são seus desejos íntimos). - DESVIO -> PEREGRINAÇÃO -> RECONCILIAÇÃO FINAL - Durante tal peregrinação, é que acontece de ter pelo caminho das procissões, imagens do pecado para que os fiéis saibam o caminho da salvação. (Duby). - O homem medievo cristão acreditava estar de passagem pela terra (lembrando que seu objetivo é retornar à condição do paraíso) então via o mundo com o espírito e não com o corpo. Logo, ele deve enfrentar as tentações e provações sem questionar a Deus, porque é impossível saber os planos de Deus. Por este motivo, a cartografia medieval vai ser repleta de conteúdo religioso e é a fonte que a Baumann usa sobre a iconografia. - Mapa ecumênico ou "T/O" era um círculo simbolizando a perfeição de Deus e dentro tinha os 3 continentes conhecidos e segundo as Sagradas Escrituras, distribuídos pelos filhos de Noé: Ásia (Sem), Europa (Jafet), e África (Cam - filho maldito). O T significava os limites e a cruz - O mapa hemisférico: Tinha o hemisfério norte (com os 3 continentes) e o Sul (austral, vazio) e ainda seguia exemplo do mapa de Macróbio que era dividido com 5 zonas de clima. * Não se aceitava ainda da Terra ser uma esfera, em parte porque assim deveriam aceitar a ideia da existência de pessoas diferentes e desconhecias, opostas (antípodas). Alguns filósofos defendiam a existência de um quarto mundo e Santo Agosto se absteve, disse q o hemisfério sul podia tanto ser cheio de antípodas, coml também cheio de água. - O terceiro grupo de mapas, séc XI-XII, é uma espécie de representações mistas, porque coloca o mundo terreno e o "outro mundo". E o mundo sagrado ganha foco porque afinal os humanos sao sacralizados pelo "outro mundo". Acaba misturando "fatos" míticos com lugares terrenos. * Chama-se Imago Mundi e servirá como um instrumento de ensinamento da Igreja. * Existiram Imago Mundi que mostravam os caminhos de peregrinação e que foram expostos em catedrais. * Imago Mundi cresce de acordo com a expansão dos conhecimentos físicos e religiosos do homem. Ainda no século XVIII, era dificil separar o terreno com o "além". - A mudança causa pânico ao homem medievo. A Idade Média passa a produzir conhecimento (com financiamento de instituições cristãs) mas, não para questionar Deus, e sim, para testemunhar seus feitos. - A alteridade só é alcançada quando o homem percebe as particularidades do outro e a sensação de estranheza que o desconhecido lhe causa, e só assim vai se abrir espaço para o “maravilhoso” (maravilhoso como algo surreal, incrível, milagroso, assombroso). - O homem passa a ver no “outro” diferenças fabulosas, sempre em exagero. O “outro” vai ser sempre “lúdico”. - Este “outro” vai ter sua presença legitimada através da viagem que é agora considerada a peregrinação. E já que o homem deve enfrentar o desconhecido e o “outro” para alcançar o paraíso, a viagem encaixa perfeitamente neste propósito. - O “outro” passa a ter representações exageradas, para causar medo e estranheza. Assim, o índio antropófago é anunciado pela sua comida estranha, e a cor, a língua são postos como algo do caos que deve ser sacralizado. - Cria-se então, o purgatório entre as três divisões da casa de Deus (uns oram, uns lutam, e outros trabalham) que é para aqueles que nem foram bons o suficiente para irem direto para o céu, mas também não foram maus demais para irem direto ao inferno. - Essas transformações do espaço sagrado fazem com que o homem passe a buscar seu próprio conceito de cosmos, e busca uma visão mais ampla do sagrado. -