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A Cidade e o Moderno em Walter Benjamin

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A CIDADE E O MODERNO EM WALTER BENJAMIN: PARA UMA ANÁLISE DE UM PONTO DE VISTA 
 
Apontamento sobre homogeneização do espaço público 
 
 
 
 
Luís Bento 
 
 
 
 
 
 
Trabalho de Seminário Corpo e Espaço na Arte Contemporânea 
 
Mestrado de Ciências da Comunicação – Comunicação e artes 
 
Professor Doutor José Bragança de Miranda 
 
 
 
 
 
 
JANEIRO 2017 
 
 
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Resumo 
 
 
 
 
 
O presente trabalho tem como objectivo analisar criticamente o modo como nos é 
proposta uma convocação de sentidos e memória no tratamento da cidade e do moderno, 
a partir da perspectiva de Walter Benjamin. Até que ponto podemos discutir o paradoxo 
da cidade assente, por um lado, no desenvolvimento do movimento humano e, por outro, 
na desumanização materializada na crescente modernidade, na homogeneização e 
configuração de tipologias arquitectónicas e vivências e o papel cada vez mais 
proeminente da esteticização. Usando como metodologia de trabalho a revisão 
bibliográfica e explorando os conceitos de corpo, palavra, memória, modernidade e a 
cidade como um todo estético experienciável, propomos abordar a questão analisando o 
processo crítico em Walter Benjamin nas Imagens de Pensamento, centrando a 
investigação no modo fragmentário como a ocupação do espaço, o desenvolvimento das 
cidades e a técnica, esvaziaram ou podem esvaziar o homem, permitindo-lhe apenas 
ocupar esses espaço completos, através da memória. Fazendo uso desse mesmo trabalho 
de revisão bibliográfica, a abordagem, interpretação e comparação de textos na linha dos 
paradoxos, sentidos e linguagens, escorada nas leituras de Theodor Adorno, Joseph 
Lewandowski, Wolfgang Welsch e outros, na linha programática já referida, constituirão 
o fio condutor do presente trabalho, com vista à interpretação do ponto de vista de Walter 
Benjamin. 
 
Palavras-chave: Corpo, espaço. memória, cidade, espaço, modernidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
 
Introdução 
 
 
 
 
Numa época de grande preocupação com a geoestética em que se reconhece a importância 
e o primado da protecção da natureza por um lado e a sua intervenção ou capacidade 
estética por outro, verificamos que o tema se reveste de grande actualidade tendo 
suscitado, à época, abertura e análise por parte de Walter Benjamin. 
 As cidades são, por norma, espaços abertos, modernos, amplos, interligados. As 
tecnologias, o cinema, as artes, a estética, têm peso e desenvolvimento nas cidades. O 
mundo tornou-se densamente povoado e urbano, insustentável. As megacidades, que 
antes atraíam as populações com a ilusão do conforto e de um estilo de vida moderno e 
financeiramente aceitável, tornaram-se pesadelos com periferias sobrelotadas, gerando 
desilusão, desconforto e miséria. Os novos urbanistas criaram novo espaços, delimitados 
e delimitando estratos sociais. Os espaços públicos de debate desapareceram das novas 
cidades e passaram-se para os media e para as redes sociais. As cidades tornaram-se mais 
frias e formaram indivíduos desagregados e isolados, no que constitui uma imagem 
universalista da cidade globalizada. 
 
“O mundo está cada vez mais urbano a chegar a um nível insustentável 
entre taxas de crescimento demográfico e economia. A aglomeração de 
pessoas sem precedentes nas periferias produziu o espectro de um "planeta 
de favelas", sombrio. (…) A imagem da cidade moderna como entidade 
distinta e delimitada está quebrada como a globalização liderada pelo 
mercado.” 1 
 
1 “As the world becomes increasingly urban, dire predictions of an impending crisis have reached a feverish pitch. Alarming statistics on the huge and unsustainable gap between the rates of urbanization and economic growth in the global South is seen to spell disaster. The unprecedented agglomeration of the poor produces the specter of an unremittingly bleak “planet of slums.” The image of the modern city as a distinct and bounded entity lies shattered as market-led globalization and media saturation dissolve boundaries between town and countryside, center and periphery.” Prakash, Gyan. “Imaging the Modern City, Darkly”. Disponível em: http://press.princeton.edu/chapters/i9334.pdf, p. 1 [acedido em Janeiro de 2017] 
 
 
 
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Estas cidades criaram um novo homem, individualista, privado, que fica em casa, diante 
da televisão. A casa constitui o seu espaço, o seu conforto onde esquece a contradição do 
mundo e a falta de espaço exterior para o debate. Esta é uma situação actual que Walter 
Benjamin já havia estudado e aflorado no seu tempo: a necessidade de desenvolvimento 
humano obrigava à inscrição de um espaço definido com as condições para a sua 
evolução, caso contrário, o indivíduo seria coartado desse mesmo desenvolvimento: 
 
“O desenvolvimento de todo o movimento humano, quer ele derive de 
impulsos espirituais, quer naturais, pode contar com a resistência 
desmesurada do meio circundante.” (Benjamin. 2004, p. 23) 
 
Se, por um lado, as pessoas migraram dos campos para as grandes cidades, uma vez que 
a criação de infraestruturas permitia melhores condições de vida, por outro, o desenho do 
moderno tecido urbano e a construção de casas veio coartar as liberdades e “prender” o 
homem num espaço delimitado. 
 
“A crise da habitação e o controlo do tráfego entraram em acção para 
destruir completamente o símbolo elementar da liberdade europeia, que, 
sob certas formas, já existia na Idade Média: a liberdade de circulação. E 
se a coação própria da Idade Média prendia as pessoas a determinados 
complexos naturais, hoje elas estão acorrentadas a uma existência 
comunitária não-natural.”2 
 
Subentendendo-se, até, um certo paradoxo entre o desenvolvimento nas cidades e os 
transportes cada vez com mais meios e, ao mesmo tempo, com mais restrições de 
circulação: 
 
“Poucas coisas reforçarão mais a força fatal do impulso para o nomadismo 
que alastra do que as restrições à liberdade de circulação, nunca foi tão 
grande a discrepância entre a liberdade de movimentos e a abundância de 
meios de transporte.”3 
 
Neste ponto, levantam-se algumas questões, a atentar nas palavras de Walter Benjamin. 
Há, ao longo dos tempos um impulso natural para o movimento? Para o nomadismo? E 
de que forma veio a cidade cortar esse impulso? O desenvolvimento só existe na cidade? 
 São questões a que pretendemos dar o devido enquadramento mais adiante, mas 
que Walter Benjamin traz um pouco de luz sobre o tema, em palavras premonitórias 
daquilo em que se tornaram as cidades hoje em dia: uma cidade que dilui, esbate, 
 
2 Benjamin, Walter. 2004, p. 23 
3 Ibidem, p. 23 
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tranquiliza, amolece, uma cidade que perde o fulgor e se torna promíscua, uma cidade 
que a pretexto da paz e da segurança as fez perder o seu carácter natural de passagem: 
 
“Passa-se com a cidade o mesmo que com todas as coisas que vão perdendo 
a expressão da sua essência ao entrarem num processo imparável de 
promiscuidade e hibridação, que substitui o que é próprio pela 
ambiguidade.” (Benjamin. 2004, p. 23) 
 
Uma cidade que mantém o indivíduo numa zona de conforto e que, por isso, o conduz à 
estagnação, uma cidade castradora, burguesa, que tapa o horizonte e não deixa ver mais 
além: 
 
“As grandes cidades, cujo incomparável poder de tranquilizar e incutir 
confiança encerram os criadores num oásis de paz e lhes vai roubando, 
juntamente com a vista do horizonte, a consciência das forças elementares 
sempre despertas, (…)”4 
 
Cidade que, por via da insegurança leva o habitante a aceitar qualquer proposta ou aborto 
arquitectónico, ideia peregrina que veremos tratada, também mais adiante, por Wolfgang 
Welsch na sua tese da cidade como um todo estético, por via do embelezamento geral. 
 
“A insegurança,

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