Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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simbólicas ou não, eles lutaram. 
INFORMAÇÃO SOBRE A PRÓXIMA AULA 
Na próxima aula, veremos questões relativas à sociedade 
colonial no século XVI: a Meso-América.
Aula 4
Esta aula 
encontra-se 
em fase de 
elaboração
Aula 5
Missionários e 
índios na América 
espanhola colonial
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História da América I
Meta da aula
Discutir a introdução e o desenvolvimento das missões religiosas na América espanhola 
colonial, privilegiando-se as interações entre os missionários e os índios. 
Objetivos 
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de:
1. caracterizar os principais traços da ação missionária conduzida por franciscanos e 
jesuítas na América espanhola;
2. relacionar a atuação política do Frei Bartolomé de las Casas com a primeira grande 
reforma da legislação hispânica que afetava os índios, na década de 1540.
Pré-requisitos
Para melhor acompanhar o conteúdo desta aula, é desejável que você tenha acesso à 
internet para eventuais consultas. É interessante que você tenha à mão seu material de História 
Moderna, para revisar os conteúdos relativos ao contexto da Reforma protestante e da 
Contra-Reforma católica, no século XVI. 
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Aula 5 \u2013 Missionários e índios na América espanhola colonial
INTRODUÇÃO
 O missionário espanhol José de Acosta chegou à América 
em 1571 para integrar a missão jesuíta do Peru. No caminho, 
parou em Santo Domingo, no Caribe, onde foi interpelado pelo 
Arcebispo local, um franciscano. O arcebispo lançou diversas 
perguntas provocativas a Acosta, todas a respeito da ordem a que 
ele pertencia, a Companhia de Jesus: por que os jesuítas tomaram 
o nome de Jesus, quando as outras ordens mantiveram o nome 
de seus fundadores? Por que não praticavam sistematicamente as 
penitências? Além disso, o arcebispo queixava-se particularmente 
dos hábitos dos jesuítas, acusando-lhes de comerem muito bem, de 
vestirem-se com conforto, e de atenderem às necessidades dos ricos 
e dos cultos, enquanto as outras ordens ocupavam-se dos pobres e 
dos humildes. O missionário Acosta, ao que parece, não se intimidou 
diante das provocações e respondeu, defendendo a Companhia 
de Jesus. Afi rmou, entre outras coisas, que os jesuítas de fato não 
buscavam a penitência do corpo, como os franciscanos. Buscavam, 
antes, penitenciar suas vontades, submetendo-se completamente às 
ordens de seus superiores.
 Podemos tirar algumas lições desse breve episódio ocorrido 
no distante ano de 1571. A primeira delas é evidenciar que os 
franciscanos \u2013 primeira ordem religiosa a chegar às Américas 
no século XVI \u2013, receberam os jesuítas com profundas críticas e 
desconfi anças. A segunda lição sugerida por esse episódio seria 
a diferença de métodos e princípios na ação missionária dos 
franciscanos, conhecidos pelo amor à pobreza, e dos jesuítas, 
conhecidos pelos talentos intelectuais e rigorosa disciplina. 
 Nesta aula, discutiremos várias questões sobre o processo 
de evangelização da América, nomeadamente no século XVI: como 
se organizava o movimento missionário? Como os missionários 
interagiam com os índios? Quais eram as principais diferenças 
entre a ação evangelizadora de franciscanos e jesuítas? Como os 
religiosos se posicionaram em relação à escravização dos índios? 
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História da América I
A conquista espiritual
A primeira modalidade de conquista das terras americanas 
empreendida pelos espanhóis realizou-se por meio das armas. 
Conquistadores e soldados formavam as companhias que entraram 
no continente e lideraram guerras contra os nativos e suas cidades, 
vencendo estados indígenas tão vastos quanto aqueles liderados 
pelos mexicas, na América central, ou pelos incas, na região andina. 
A guerra, a destruição das cidades e povoamentos, e a submissão 
das populações nativas das Américas eram, portanto, parte da 
violenta ação dos conquistadores e de suas armas.
Tão logo se desse a conquista em armas, também chamada na 
época de pacifi cação, os espanhóis concebiam outros modos para 
consolidar seu domínio sobre as terras de além-mar. Nessa política 
de consolidação da presença hispânica na América, destacava-se 
a noção de conquista espiritual, encabeçada pelos religiosos que 
garantiriam, em princípio, a catequização dos índios. 
De acordo com os historiadores S. Schwartz e J. Lockhart, 
não seria incorreto chamar os religiosos que se dirigiram para as 
Américas de missionários. E, como você já notou, este foi o termo 
escolhido para ser usado ao longo desta aula. No entanto, estes 
autores nos ensinam que os religiosos europeus que se dirigiam 
para o trabalho de evangelização dos nativos americanos eram 
chamados, na época, de doctrineros: aqueles que ministram a 
instrução cristã. Em geral, a sede da paróquia rural, também 
chamada de doctrina, era construída diretamente nas principais 
povoações dos índios. Os religiosos usavam a autoridade dos 
caciques para ajudar a construir as igrejas e a garantir a frequência 
dos índios aos serviços religiosos. Nesse sentido, nos primeiros 
tempos da conquista, estabelecida em torno de populações já fi xadas 
em suas aldeias, a tarefa dos religiosos não era propriamente a 
de construir missões no sentido mais restrito desse termo. Ao invés 
disso, dedicavam-se principalmente a instruir os nativos nas crenças 
e sacramentos cristãos.
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Aula 5 \u2013 Missionários e índios na América espanhola colonial
Ao afi rmar que a Igreja das Américas nos primeiros tempos era 
missionária (ou de doutrinamento), o objetivo central é lembrar que clero 
regular dominou a obra pioneira da evangelização desta região. 
Quando foi cumprida essa primeira etapa do chamado 
doutrinamento cristão das populações indígenas, os religiosos 
pertecentes ao clero regular \u2013 franciscanos, jesuítas e dominicanos, 
entre outros \u2013 foram sendo progressivamente substituídos por 
membros do clero secular. Esta substituição demonstrava que 
a Igreja ultramarina estava se estruturando, com a formação de 
diversas dioceses sob controle dos bispos estabelecidos em território 
americano. Os bispos deviam então presidir a organização de 
diversas paróquias, designando padres seculares para cuidar das 
pessoas já instruídas na fé católica pelos missionários regulares. 
Muitos conflitos entre regulares e seculares ocorreram nestas 
paróquias, mas, em geral, pode-se dizer que ao fi nal do século XVI 
a enorme infl uência dos missionários havia diminuído, ao menos 
nas áreas centrais da conquista. 
Sob o ponto de vista dos missionários, o projeto de evange-
lização conduzido nas Américas consistia em apagar as diferenças 
e reafi rmar as semelhanças entre os cristãos e os índios. O que quer 
dizer isto? Para a maioria dos missionários, os nativos americanos 
eram vistos como pagãos e não exatamente como infi éis. Ora, na 
Europa, os cristãos travavam confl itos crescentes com os chamados 
infi éis, fossem eles judeus ou muçulmanos vivendo na Península 
Ibérica. Mas as religiões praticadas pelos índios não eram 
conhecidas pelos missionários, nem se adequavam prontamente à 
ideia do infi el familiar a eles. Assim, percebidos como pagãos, os 
nativos foram vistos como membros potenciais da cristandade, desde 
que recebessem a doutrina cristã e tivessem seus cultos, considerados 
demoníacos, extirpados. A doutrinação, nesse sentido, deixava 
exposta a face rude e violenta do processo de conquista espiritual 
empreendido nas Américas. 
Clero regular 
O termo designa os 
religiosos que viviam de 
acordo com as regras 
estabelecidas por uma 
determinada ordem. 
Na Europa, a primeira 
grande experiência de 
um clero regular ocorreu