Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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com São Bento, cuja 
Regra, elaborada no 
ano de 534 d.C., deu 
origem aos mosteiros 
beneditinos. A vida dos 
monges beneditinos 
transcorria de acordo 
com o ideal da oração 
e do trabalho, que eram 
compreendidos como 
as formas ideais de 
alcançar Deus.
Clero secular 
De acordo com a 
organização da 
Igreja católica, os 
membros do clero 
secular eram aqueles 
religiosos voltados 
para as atividades em 
sociedade: celebrar 
as missas, ministrar 
batismos, casamentos 
e outros sacramentos, 
além de orientar 
espiritualmente os 
membros de suas 
paróquias.
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História da América I
Ao ler sobre a ideia de conquista espiritual das Américas, você 
pode ter se surpreendido. Para nós, homens e mulheres do 
século XXI, é muito comum a visão de que a política e a religião 
não se misturam, ou, ao menos, de que não devem se misturar. 
Por essa razão, muitos tendem avaliar episódios do passado, 
como a conquista das Américas, pensando apenas nas motivações 
econômicas e políticas das monarquias europeias que se dirigiam 
para o chamado Novo Mundo. Uma visão muito generalizada e 
incorreta a este respeito pode ser assim expressada: ah!, os espanhóis 
queriam riquezas e poder, e essa história de evangelizar era só uma 
desculpa para o domínio violento sobre os índios!
De fato, a extrema violência dos processos de conquista e colonização 
é inquestionável. Mas quanto ao ideal de evangelização, é preciso 
que seja compreendida com os olhos dos homens daquela época. 
Devemos lembrar, nesse sentido, que pouco antes de iniciar 
a conquista americana, os hispânicos estavam promovendo a 
expansão do cristianismo dentro de suas fronteiras internas, por 
meio da reconquista dos territórios ocupados pelos muçulmanos 
(chamados de mouros, na Península Ibérica) e da perseguição aos 
judeus. Esse clima de violência e intolerância em relação a outras 
religiões era parte do cotidiano dos peninsulares, e reforçava neles 
a convicção de que deviam expandir a fé cristã. 
Este ideal estava presente entre governantes, povo e religiosos. Assim, 
os \u201creis católicos\u201d, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, que 
promoveram as primeiras viagens de conquista e exploração das 
Américas, acreditavam ter o dever de levar sua religião para estas terras, 
convertendo ou instruindo na fé cristã os povos nelas encontradas.
Franciscanos e jesuítas nas Américas
 Corria o ano de 1524, quando uma missão de doze francis-
canos descalços chegou à cidade do México, recém-conquistada 
pelo espanhol Hernán Cortés. O número de doze membros 
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Aula 5 \u2013 Missionários e índios na América espanhola colonial
era intencional, como você pode estar pensando, e remetia 
simbolicamente aos doze apóstolos de Cristo, anunciando que os 
franciscanos tinham a expectativa da doutrinação cristã em massa. 
Talvez por terem sido os primeiros a chegar, coube aos franciscanos 
(e também aos religiosos das ordens dominicana e agostiniana) o 
papel de primeiros mentores espirituais e guardiões políticos da 
comunidade índia. De acordo com o historiador David Brading, 
foram os frades que administraram o enorme reassentamento e 
concentração dos povoados, de índios nas Américas, iniciado 
na década de 1540. Os dispersos povoados situados nas áreas 
montanhosas, na qual viviam tantos índios, foram substituídos por 
povoados novos, geralmente localizados nas planícies. O desenho 
geográfi co desses povoados também foi reformado sob a direção 
dos frades: as ruas formavam uma rede ordenada, a partir da praça 
central, invariavelmente dominada pela igreja paroquial.
A Ordem Franciscana foi criada em Assis, Itália, no ano de 
1209. Seu fundador, Francisco de Assis, criou uma regra 
para seus seguidores baseada nos ideais de pobreza material 
e de pregação aos populares. Os franciscanos formaram então 
uma das ordens mendicantes mais conhecidas da Europa 
medieval, fundando uma espiritualidade nova e logo capaz de 
atrair milhares de vocações. Ao fi nal do século XIV, já se contavam 
cerca de 30.000 franciscanos, contrastando com a decadência das 
velhas ordens monásticas. 
Os frades, guiados pelos ideais de pobreza material e peni-
tência corporal, não se limitavam a pregar o evangelho e batizar 
os indígenas. Pretenderam, também, reformar traços da vida e da 
cultura dos nativos, introduzindo junto a eles técnicas de construção 
e artesanato espanholas, e ensinando às elites índias as formas de 
governo civil próprias dos espanhóis. Os franciscanos empreenderam 
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História da América I
ainda, como linha fundamental de sua ação nas Américas, o 
violento combate às religiões dos índios, dedicando-se inicialmente 
a aprender o máximo possível sobre os deuses, os rituais e as crenças 
mais estimadas pelos nativos. Para os frades, todo esse corpo de 
crenças era uma manifestação diabólica que devia ser extirpada a 
qualquer custo, em nome da evangelização.
Os franciscanos dedicaram-se a elaborar gramáticas das 
línguas indígenas e a aprender as formas particulares de 
expressão presentes nas pinturas dos índios. Tais formas foram 
adaptadas pelos religiosos na elaboração dos livros dedicados à 
catequese dos nativos, com o objetivo de tornar mais compreensíveis 
as imagens que traduziam elementos diversos do cristianismo: o batismo, 
a Virgem Maria, Jesus Cristo, a Santíssima Trindade.
O religioso fl amengo Pedro de Gante foi um dos primeiros franciscanos 
a chegar à cidade do México, onde viveu por mais de 50 anos, até sua 
morte em 1572. Gante foi também um dos primeiros frades a observar a 
aparente inclinação dos índios pelas imagens gravadas e pintadas, bem 
como o gosto pelos cantos e festividades. Introduziu, então, a utilização 
de métodos visuais e performáticos para o ensino da doutrina cristã aos 
nativos. Para os nativos, o religioso criou uma escola chamada de San 
José de Belén de los naturales, situada junto ao convento franciscano 
da cidade do México. Essa escola era especialmente voltada para a 
instrução dos fi lhos da elite índia local, que Gante pretendia transformar 
em futuros evangelizadores, capazes de se dirigir às populações nativas 
em suas línguas originais. Por um sistema de internato, no qual os jovens 
perdiam o contato com suas culturas nativas, ministravam-se aulas de 
leitura, redação e canto durante o dia; à noite, eram ministradas as 
classes de doutrina cristã e de ensino de sermões.
Esse tipo de ensino visava formar futuros pregadores nativos, já que a 
maior parte do trabalho de evangelização dos índios dependeu dos 
próprios índios instruídos na fé cristã. Para a maioria da população, 
então, os franciscanos dedicavam pouco tempo e disseminavam apenas 
rudimentos do catolicismo. 
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Aula 5 \u2013 Missionários e índios na América espanhola colonial
Imagens usadas pelo frade franciscano Pedro de Gante para doutrinar os 
índios. Trata-se de um exemplo de catecismo elaborado especialmente para 
a evangelização dos indígenas da região do México, no século XVI.
Fonte: http://www.newberry.org/smith/slidesets/ss15.html
A expectativa da conversão em massa animava a ação 
evangelizadora dos frades nas Américas: os franciscanos achavam 
que seria possível realizar nessa região, no século XVI, o ideal de 
renascimento da igreja primitiva, tal como aquela da época dos 
apóstolos. Jerónimo de Mendieta, franciscano que chegou a Nova 
Espanha \u2013 México atual \u2013 em 1554, afi rmou que nunca a igreja 
havia presenciado tanto entusiasmo para ouvir o Evangelho, nem 
tamanho zelo, por parte dos missionários, no esforço de ganhar 
novas almas para o cristianismo. O frade Toribio de Benavente, mais 
conhecido pelo apelido de Motolinía, declarou ter batizado