Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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Essas são, portanto, as perguntas que norteiam esta 
primeira aula.
O povoamento das Américas e as 
hipóteses demográfi cas
As primeiras populações da América eram originárias do 
antigo mundo asiático, de onde começaram a emigrar por volta de 
40.000 anos antes da Era Cristã. Essas migrações foram feitas a pé 
através do estreito de Bhering, que se tranformou em uma espécie 
de plataforma sólida durante o período de glaciação, permitindo os 
deslocamentos entre a Ásia e o continenete americano. Na América, 
os povos nômades vindos da Ásia espalharam-se no sentido norte-sul. 
Não se sabe as razões dessa migração humana, de modo que só 
podemos formular questões e hipóteses: foram expulsos por outros 
povos? Buscavam caça? Fugiam da escassez de alimentos?
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Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
O certo é que esses grupos nômades encontraram na América 
grandes reservas de proteína, gorduras, ossos e peles, sendo bem 
provável que tal abundância de recursos tenha facilitado a expansão 
vertiginosa desses povos pelo continente. Na virada do décimo 
milênio a.C., a temperatura da Terra elevou-se, fazendo subir o 
nível dos oceanos e destruindo a passagem anteriormente presente 
no estreito de Bhering. A partir desse momento, as populações 
americanas passaram a viver de forma relativamente isolada entre 
si e em relação ao resto do mundo até a chegada dos europeus no 
fi nal do século XV. 
Nesse vasto espaço americano, duas re-
giões devem ser particularmente consideradas, 
pois foi nessas áreas que surgiram os Estados 
mais densamente povoados e politicamente 
hierarquizados a serem encontrados pelos 
espanhóis que chegaram ao continente: o 
Estado mexica e o Estado inca. É importante, 
desde já, que você seja capaz de localizar 
duas regiões que serão por vezes menciona-
das ao longo do curso: a Mesoamérica (onde 
viveram os mexicas, entre outros povos) e a 
região andina (onde fl oresceu o Estado inca). 
Mesoamérica e região andina são denomi-
nações atualmente usadas por historiado-
res e antropólogos para designar tais áreas, 
também conhecidas como zonas nucleares da 
América. Ao longo de vários séculos, esses 
espaços concentraram as maiores densidades 
demográficas do continenente americano, 
tornando-se, portanto, grandes núcleos de 
populações que viveram nos diferentes Estados que fl oresceram 
(e muitas vezes decaíram) naquelas áreas.
Na Mesoamérica e nos Andes, as condições climáticas e 
ecológicas, assim como um conjunto de circunstâncias particulares, 
Figura 1.1: Regiões do continente americano nas quais primeiro 
se observaram processos de intensa sedentarização. Na época da 
chegada dos espanhóis ao continente americano, no século XVI, 
estas permaneciam sendo as áreas mais densamente povoadas 
das Américas. 
Mesoamérica
Região andina
Oceano Atlântico
Oceano Pacífi co
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História da América I
permitiram a domesticação do milho e o desenvolvimento de 
uma agricultura intensiva por volta do terceiro milênio a.C. 
Essas condições permitiram, nessas áreas, o desenvolvimento 
de civilizações caracterizadas por forte hierarquia social, por 
sistemas de governo teocrático e por construções arquitetônicas 
monumentais. A capacidade de alimentar grandes conjuntos 
populacionais era propiciada pelo desenvolvimento da agricultura 
intensiva, que fixava as populações nativas e impulsionava 
o crescimento da urbanização, outra característica marcante 
das áreas nucleares da América antes e depois da conquista. 
Os grandes regimes tributários surgidos nessas áreas, como foi o 
caso dos mexicas e dos incas, alimentavam-se da sedentarização: 
apenas as populações fi xadas e praticantes de agricultura podiam 
produzir mercadorias excedentes para pagar tributos a seus 
governantes. Com a tributação, criaram-se sociedades nativas 
caracterizadas por forte hierarquia social, uma vez que os setores 
burocráticos e sacerdotais se distanciavam socialmente daqueles 
que trabalhavam diretamente para o pagamento de tributos.
Governo 
teocrático
Sistema de governo 
em que o poder 
político se encontra 
fundamentado no poder 
religioso, muitas vezes 
através da crença de 
que o governante era 
uma encarnação da 
divindade. 
Quando tratamos de temporalidades muito extensas, como 
nesta aula, é comum haver confusão e dúvidas. Uma cronologia 
básica pode ajudá-lo a localizar-se temporalmente:
40.000 a 10.000 a.C. \u2013 a glaciação fez surgir um grande 
bloco de gelo no Estreito de Bhering.
12.000 a 10.000 a.C. \u2013 Período de intensa migração terrestre da 
Ásia para a América através do Estreito de Bhering; dispersão de 
povos pela América no sentido norte-sul.
Não há consenso na comunidade arqueológica sobre esse dado.
3.000 a 1.000 a.C. \u2013 Os Andes e a Mesoamérica já contam com 
plena sedentarização, ou seja, já possuem agricultura estável para 
permitir a vida em aldeias e a urbanização. 
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Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
A esta altura, uma pergunta pode estar passando por sua 
cabeça: quantos nativos viviam nas Américas na época da chegada dos 
espanhóis a essas terras? Já vimos aqui que a América era um continente 
vasto, povoado há milênios e particularmente populoso em algumas 
áreas, como a Mesoamérica e os Andes. É preciso notar, também, que as 
diversas localidades da América apresentavam uma grande variedade 
de povos, línguas, meio ambiente e sistemas socioeconômicos. 
Em relação a uma área tão vasta e marcada por grande 
diversidade, não é de se estranhar que as estimativas populacionais 
apresentem divergências. De fato, os cálculos sobre a população 
americana antes da conquista são muito divergentes e boa parte 
da controvérsia e dos contrastes se deve a uma dúvida importante: 
a América era capaz de nutrir uma quantidade expressiva de 
habitantes? Antes de tentar responder a essa questão, é válido 
ressaltar algumas estimativas propostas pelos estudos demográfi cos 
que consideram a quantidade de habitantes nativos nas Américas 
do Norte, Central e do Sul antes da conquista. A. L. Kroeber, por 
exemplo, calculou em cerca de 8.400.00 os nativos da América 
nesse período, ao passo que H. F. Dobyns afi rmou que a população 
americana então variava entre 90 e 112 milhões de habitantes. 
Para A. Rosenblat, os nativos americanos não ultrapassavam o 
modesto número de 1.385.000 habitantes, ao passo que seu colega 
W. M. Denevan propôs o mais generoso número de 57 milhões de 
nativos por volta de 1492. 
O primeiro dado a ser notado é a variedade de estimativas: 
algumas muito baixas, prevendo que o continente americano era 
muito pouco povoado antes da chegada dos europeus; outras bem 
altas, considerando que o continente era capaz de alimentar mais 
de 100 milhões de pessoas nesse mesmo período. Em meio às 
controvérsias, vale notar, de início, que as hispóteses demográfi cas 
hoje mais aceitas pelos historiadores são as chamadas hipóteses 
médias, que calculam a população nativa entre 57 e 80 milhões de 
pessoas. Mas o que esta estimativa pode nos sugerir em termos de 
uma caracterização do continente antes de 1492?
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História da América I
Na verdade, as hipóteses médias sugerem que os nativos 
do continente dispunham de técnicas agrícolas e de recursos para 
alimentar populações bastante consideráveis. Embora os níveis 
de população fossem variáveis nas diferentes áreas do continente 
(algumas muito povoadas; outras povoadas escassamente), a 
América era capaz de manter sociedades numerosas em 1492. 
Cerca de um século depois, em 1600, havia apenas 10 milhões 
de habitantes nesse mesmo continente. Como se deu, então, uma 
queda