Historia da America I Vol1
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coloquios 
de los doce e remete ao contexto em que foi escrito. Os doze 
franciscanos que chegaram à região do México em 1524 faziam 
pregações inicialmente dirigidas aos senhores principais, aos sábios 
e sacerdotes que sobreviveram aos massacres promovidos pela 
conquista espanhola. Após ouvirem as pregações, realizadas com a 
ajuda de intérpretes, os sábios índios respondiam aos missionários, 
expondo argumentos e defendendo-se das acusões dirigidas pelos 
europeus aos modos de viver e de crer dos índios. O manuscrito 
representa, portanto, os diálogos e embates entre os missionários e 
os índios, naquele ano de 1524. 
O testemunho dramático diante da conquista e da evangelização 
foi pontuado por argumentos diversos, propostos pelos índios para 
demonstrar que suas antigas formas de pensamento sobre as 
divindades deviam ser respeitadas. Por vezes, essa defesa revestia-
se de desesperança, como se nota no trecho a seguir, extraído do 
Libro de los coloquios: 
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História da América I
Mas aonde deveremos ainda ir?
Somos gente simples,
Somos perecíveis, somos mortais, 
deixai-nos, pois, morrer, 
deixai-nos perecer, 
pois nossos deuses já estão mortos.
Estas palavras, de tão grande impacto, foram escritas em 
um momento de trauma sem precedentes. Afi nal, os mexicas, até 
então senhores da guerra, acabavam de ser derrotados em sua 
cidade principal, Tenochtitlán, e a viam ser remodelada pelos 
novos governantes, os espanhóis. A brutalidade da consquista e a 
chegada das doenças, logo em seguida, tornavam aquele cenário 
particularmente desolador, marcado por mortes e destruição em 
ritmo jamais visto. Aos sábios e sacerdotes, portanto, parecia que 
os deuses já estavam mortos.
Nesta aula, quero argumentar que essa impressão inicial de 
abondono e morte dos deuses foi modifi cada ao longo do tempo e 
à medida em que o processo de evangelização dos ameríndios se 
aprofundou. Nosso objetivo nesta aula é argumentar que, diante da 
invasão do imaginário cristão trazido pelos europeus, os índios criaram 
diferentes formas de resistência, em mome de seus antigos deuses e 
de suas práticas religiosas mais estimadas. Não deve ter sido fácil, 
já que a Igreja na América criou vários mecanismos para combater 
qualquer traço das religiões praticadas antes da conquista. Mas os 
índios foram hábeis ao reconstituir, sempre que possível e desejável, 
certas práticas de suas antigas crenças. Outras vezes, combinaram 
elementos novos, introduzidos pelos europeus, com seus saberes e 
crenças antigas, produzindo formas de religiosidade tipicamente 
mestiças e coloniais, como você verá nos itens que se seguem.
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Aula 6 \u2013 Resistência indígena e \u201cidolatrias\u201d na América espanhola
Adaptar-se ou romper com o passado?
A chegada dos religiosos missionários à América, especialmente 
a partir do século XVI, foi o início de uma empreitada fortemente 
inspirada pelo ideal de reconstrução de um cristianismo primitivo entre 
os índios. Aprender as línguas nativas, estudar os códices produzidos 
pelos índios, estreitar o contato com eles para saber de seus rituais 
e crenças eram tarefas que possibilitavam a evangelização. À 
medida em que conheciam os antigos cultos e práticas, chamados 
de idolatrias, os evangelizadores mandaram destruir grande parte 
das imagens, locais sagrados e das pinturas referentes aos rituais 
religiosos dos índios. As chamadas idolatrias eram vistas como 
práticas religiosas falsas, demoníacas, bestiais e, portanto, afastadas 
da \u201cverdadeira fé\u201d, que para eles era a fé cristã. 
Destruir esses vestígios do passado e conhecer essas práticas 
eram duas das tarefas que absorviam os religiosos, quase sempre 
convencidos de que ensinar o cristianismo, apenas, não era 
sufi ciente. Bom exemplo dessa postura pode ser identifi cado no 
missionário dominicano Diego Durán, criado na Nova Espanha e 
conhecedor do idioma náhuatl, que dedicou seus escritos a narrar 
detalhadamente a religião dos índios daquela região, com a intenção 
de distinguir a idolatria da fé católica no comportamento dos nativos. 
Durán preocupava-se especialmente com a falta de conhecimento 
dos missionários sobre as práticas idolátricas dos índios e afi rmava 
que tais rituais eram muitas vezes praticados na frente dos padres, 
sem que estes se dessem conta por ignorarem a religiosidade antiga 
dos nativos. 
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História da América I
O religioso franciscano Diego de Landa (1524-1579) chegou 
ao continente americano em 1549 e estabeleceu-se na região 
da península de Yucatán, no atual México, onde viviam os índios 
maias. Nessa região, Landa exerceu uma repressão brutal contra 
as chamadas idolatrias e os idólatras maias ao ordenar a queima 
de dezenas de códices \u2013 livros antigos, contendo diversos elementos 
da religião praticada pelos índios \u2013 e de imagens que simbolizavam 
divindades cultuadas ali. Landa, assim como muitos franciscanos daquele 
período, agia de acordo com convicções milenaristas, pois acreditava 
estar próxima uma segunda vinda de Jesus Cristo à terra. Essa convicção 
estimulava os batismos em massa, ministrados pelos membros da ordem 
franciscana nas Américas, bem como o intenso combate a qualquer 
prática considerada diabólica ou pagã.
Após empreender um ataque aos vestígios materiais das antigas crenças 
e cerimônias dos índios maias, Diego de Landa curiosamente dedicou-
se a elaborar uma obra intitulada Relación de las cosas de Yucatán, a 
principal fonte colonial de que temos conhecimento sobre o antigo mundo 
dos maias. Parece contraditório que um religioso destacado pelo virulento 
combate às práticas antigas, tenha sido também o responsável pela 
compilação de uma obra que relatava aspectos das culturas nativas da 
região de Yucatán que ele condenava como diabólicos, supersticiosos ou 
supostamente falsos. Mas a contradição, nesse caso, é apenas aparente. 
Ao produzir a Relación, Landa valia-se de seu privilegiado acesso às 
fontes e aos informantes nativos para apreender diferentes traços das 
práticas sociais e culturais que os missionários desejavam extirpar do 
mundo dos índios. O conhecimento detalhado da organização social 
dos maias, anterior ou contemporânea à chegada dos espanhóis, podia 
ser encarado, por um missionário, como um potencial instrumento de 
vigilância ou controle sobre os nativos. Afi nal, saber identifi car traços 
das antigas religiões locais era uma das formas de combater as danosas 
idolatrias, sob o ponto de vista de um missionário. 
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Aula 6 \u2013 Resistência indígena e \u201cidolatrias\u201d na América espanhola
Noções como essa, expressa por um evangelizador dominicano 
do século XVI, despertaram a refl exão de muitos historiadores do 
século XX, que pensaram em outros sentidos para o termo idolatria. 
Ora, para os evangelizadores, o signifi cado da idolatria era óbvio: 
tratava-se de algo diabólico, irracional, que devia ser combatido. 
Para os historiadores contemporâneos, em contrapartida, a idolatria 
pôde ser vista como uma forma de resistência dos índios frente à 
religião e aos novos costumes impostos pelos colonizadores.
O historiador brasileiro Ronaldo Vainfas já notou, entre os 
ameríndios, a presença das idolatrias qualifi cadas como ajustadas: 
os índios adotavam as formas do cristianismo publicamente, ao 
mesmo tempo em que mantinham um corpo de práticas antigas. 
Era uma resistência cotidiana, que não desafi ava abertamente o 
colonialiasmo nem o cristianismo, mas possibilitava, nos espaços 
menos controlados da casa e do trabalho, a vivência de formas 
religiosas que remetiam a seus antigos costumes, em um tempo de 
intensa pressão, violências e transformações radicais. 
Serge