Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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Gruzinski, outro historiador especialista neste tema, já 
afi rmou que o grau de cristianização dos índios era muito dífi cil de 
ser medido, pois dependia das situações locais, das pressões da 
comunidade e das escolhas individuais. Assim, cada um devia, de 
acordo com seu círculo de relações e suas possibilidades, adaptar-
se à realidade colonial sem, contudo, romper com o passado. Deste 
modo, o espaço da igreja e o tempo da missa exigiam dos índios uma 
piedade cristã que podia se apagar, ou assumir outras formas, nos 
cultos por eles celebrados nos campos de milho ou nas montanhas.
 Nos espaços domésticos, as imagens cristãs ganhavam 
os altares e conviviam, muitas vezes, com os objetos antigos que 
os párocos qualifi cavam como idolatrias, demonstrando que a 
introdução de novas crenças não criava, de imediato, uma ruptura 
com o passado. Nos locais de trabalho menos controlados pela 
presença de europeus, os antigos encantos e presságios eram 
praticados na tentativa de controlar as forças da natureza; os 
curandeiros, adivinhos e sacerdotes também se deslocavam por 
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esses espaços menos vigiados, empregando seus serviços e poderes 
no tratamento das doenças e na assistência ritual. Em áreas ainda 
mais afastadas e isoladas, como ocorreu no Bispado de Oaxaca, 
no México, as idolatrias assumiam formas mais exuberantes. Nessa 
localidade de acesso difícil e de presença missionária inconstante, 
há relatos sobre missas realizadas em igrejas cristãs, dominadas 
pela fumaça do copal (um tipo de resina) e das penas de animais 
queimadas. Esses elementos, típicos dos antigos rituais praticados 
pelos índios, eram complementados pelas oferendas, colocados em 
buracos das paredes, e pelo sangue dos animais. 
 Para Gruzinski, que estudou particularmente estes casos ocor-
ridos no México colonial, as décadas entre 1580 e 1650 testemu-
nharam um recuo das chamadas idolotrias ajustadas. Antes disse-
minadas pela sociedade da conquista, a ponto de os espanhóis, 
os negros e os mestiços apelarem frequentemente para o auxílio 
religioso dos adivinhos e sacerdotes índios, as idolatrias recuaram 
por razões variadas. Embora fossem dinâmicas e capazes de 
incorporar elementos de outras crenças, como o catolicismo e as 
práticas africanas que chegavam com os escravos, enfraqueceram 
com o tempo. Mas por quê? De acordo com Gruzinski, entre o fi m 
do século XVI e meados do século XVII a repressão e a vigilância 
do clero se difundiram mais, da mesma forma que os indígenas 
aderiram de maneira mais massiva ao imaginário cristão. A crescente 
infl uência das práticas religiosas trazidas pelos africanos também 
contribuía para modifi car o cotidiano religioso das massas índias. 
Por essa época, enfi m, as idolatrias começaram a se dissolver como 
um corpo coeso de práticas que caracterizavam especialmente a 
religiosidade dos nativos. 
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Aula 6 \u2013 Resistência indígena e \u201cidolatrias\u201d na América espanhola
Você pode estar se perguntando sobre o signifi cado da expressão 
\u201cimaginário cristão\u201d, que acabei de mencionar. Uma avaliação 
das fontes da época permite dimensionar a chegada massiva de 
imagens de santos e de tantas outras que reproduziam os episódios 
do cristianismo para uma audiência nativa. Muito mais difícil seria 
dimensionar o impacto e a penetração dessas imagens, e novos cultos 
na vida dos índios. Ainda que uma parte da vida religiosa destes fosse 
pública, é preciso lembrar que a religiosidade é também uma vivência 
muito íntima e particular e, portanto, difícil de ser dimensionada.
Mas quando um especialista, como Serge Gruzinski, afi rma 
que os indígenas aderiram de maneira mais massiva ao imaginário 
cristão, entre fi ns do século XVI e início do XVII, devemos prestar 
atenção às evidências apresentadas. Uma dessas evidências, no 
caso do México colonial, relaciona-se ao considerável crescimento 
de uma devoção em particular, dedicada à Nossa Senhora de 
Guadalupe. Como essa devoção surgiu naquela região? De que 
modo se ligou aos índios? 
O primeiro culto à Virgem de Guadalupe de que se tem notícia 
data do século XIV, quando uma \u201cimagem milagrosa\u201d teria sido 
encontrada, segundo a tradição, por um guardador de gado da região 
de Villercuas, na Espanha. Esta imagem, conhecida daí em diante como 
Virgem de Guadalupe, logo começou a ser cultuada, contando inclusive 
com a devoção muito especial do rei espanhol Afonso XI.
Bem mais tarde, já no século XVI, surgiu uma segunda tradição 
ligada à Virgem de Guadalupe. Uma nova aparição ocorreu no 
México, em 1531, quando a virgem teria sido avistada pelo índio 
Juan Diego, a quem solicitou a construção de um templo em sua 
homenagem. A devoção criada no México, onde a imagem de 
Nossa Senhora de Guadalupe guardava traços físicos indígenas, 
disseminou-se entre nativos, mestiços e, progressivamente, ganhou 
adeptos também entre os espanhóis que viviam nas Américas. 
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Inspirada pelo modelo espanhol, porém modifi cada no contexto 
americano e indígena, o culto ganhou reconhecimento mais efetivo 
por parte das autoridades religiosas coloniais a partir do século 
XVII. Hoje, no século XXI, a Igreja católica considera a Virgem de 
Guadalupe como a padroeira das Américas.
Figura 6.1: Esta imagem da Virgem de Guadalupe é a reprodução de uma 
gravura originalmente produzida no século XVI. Note-se que a Virgem era \u2013 e 
ainda é \u2013 representada com cabelos escuros e pele morena, que a tornavam uma 
devoção atraente para os índios e mestiços, que com ela se identifi cavam. 
Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Virgen_de_Guadalupe.jpg
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Aula 6 \u2013 Resistência indígena e \u201cidolatrias\u201d na América espanhola
Atende aos Objetivos 1 e 2
1. Na citação que se segue, o autor expressa sua visão sobre o tema das idolatrias 
na América hispânica. Analise este trecho, considerando as relações entre idolatrias e 
resistência, abordada na primeira parte da aula.
 
Não contentes em eliminar os antigos sacerdotes e parte da nobreza, os espanhóis 
reservavam para si o monopólio do sacerdócio e do sagrado... Foi primeiro por 
suas manifestações externas que a cristianização marcou os espíritos e ameaçou 
o monopólio da idolatria... Com os antigos templos demolidos e os antigos cultos 
proibidos, a igreja e o cemitério tornavam-se os novos pólos religiosos dos [povoados 
dos índios], como ilustram os mapas feitos pelos próprios índios... Vencidos, esgotados 
pela doença, os índios não dispunham de meios para recusar o cristianismo... Mas nem 
por isso devemos considerar que as massas estivessem completamente cristianizadas 
desde o século XVI, ainda que as práticas públicas e cerimônias comunitárias não 
pudessem se furtar às formas cristãs (GRUZINSKI, 2003, p. 225-226).
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