Historia da America I Vol1
320 pág.

Historia da America I Vol1


DisciplinaHistória da América I1.177 materiais44.216 seguidores
Pré-visualização50 páginas
XVII europeu. Elliott afi rma 
que, neste período, a coerção de Madri sobre as autoridades locais seguia 
sendo a mesma do século anterior. No entanto, observava-se nesse contexto 
uma crescente margem para manobras independentes, já que as ordens 
de uma monarquia distante e falida pela crise fi nanceira bem poderiam 
ser localmente contornadas. E para quê? Geralmente, para favorecer os 
interesses das elites que viviam nas conquistas, especialmente quando 
esses interesses se distanciavam dos princípios estabelecidos em Madri. 
Não se tratava, sob o ponto de vista dos colonos, de uma ruptura com o 
poder real. Os colonos, na verdade, seguiam se afi rmando como súditos 
leais aos monarcas da Espanha, ao mesmo tempo em que pretendiam 
manter espaços de manobra política e de relativa autonomia dentro do 
contexto mais amplo de um governo centralizado. 
Tratava-se, assim, da defesa de interesses pessoais dos colonos, e não 
de rebeldia contra a coroa. As \u201cautoridades negociadas\u201d necessitavam 
desse espaço de manobra para manter uma estabilidade, ainda que 
frágil, de interesses e propósitos entre os diferentes centros dos impérios 
coloniais modernos. 
102 
História da América I
Atende ao Objetivo 1
1. Em 1524, chegou à cidade do México uma missão evangelizadora, composta por 
doze missionários franciscanos, vindos da Espanha. Um desses missionários era Toríbio 
de Benavente, homem austero, que ganhou dos índios o apelido de Motolinía \u2013 \u201co pobre\u201d, 
na língua nativa náhuatl. O frade adotou o apelido e com ele assinou os muitos escritos 
que produziu sobre a região que foi evangelizar. Em um desses escritos, o franciscano 
Motolinía expressou seu desejo de ver o México entregue a um soberano europeu, porque, 
segundo ele, \u201cuma terra tão grande e tão distante não pode ser governada de tão longe\u201d. 
Considerando o contexto em que Motolinía chegou à região do México e a leitura do 
conteúdo do item 1 desta aula, analise a citação acima.
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
Resposta Comentada
Nesta questão, espera-se que você observe inicialmente que Motolinía chegou à região do 
México em 1524, momento em que a Espanha começava a promover algumas mudanças 
na administração das conquistas, através da criação do Conselho das Indias. Com o rei 
distante, conforme observara Motolinía, o Conselho foi formado com o objetivo de ser um 
órgão consultivo, que recebia as demandas vindas da América e as levava ao rei, que então 
elaborava leis baseadas nas discussões do Conselho. Sua resposta deve mencionar também 
 103
Aula 7 \u2013 Poder e cidade na América espanhola colonial
que o apelo de Motolinía para que a fi gura real viesse para as Américas nunca chegou a se 
concretizar, no caso da América espanhola. Mas, em parte, a idéia da \u201cpresença real\u201d nos 
territórios americanos traduziu-se na criação dos vice-reinos, a partir da década de 1530. 
Como foi visto no item 1, o vice-rei era o representante direto do monarca nas Américas, 
com autoridade política e militar sobre vastas áreas e assuntos. Os vice-reinos, por sua vez, 
eram as unidades mais amplas de uma extensa rede de poderes que se estendia de Madri 
aos cabildos coloniais, atestando que os poderes locais e centrais mesclavam-se no governo 
da América espanhola. 
 Ao ler as palavras do franciscano Motolinía, na 
atividade acima, você pode ter se surpreendido com o fato 
de ele julgar que as terras americanas eram, por direito, 
possessões do rei de Espanha. Para a mentalidade da maioria 
dos espanhóis daquela época, início do século XVI, a legitimidade da 
conquista era indiscutível. Assim, para Motolinía, era perfeitamente 
possível que terras antes dominadas por diversos grupos nativos 
passassem a ser governadas por um rei espanhol. Para se aprofundar 
mais no tema das visões européias sobre a conquista, sugiro a leitura 
do clássico livro de T. Todorov, A conquista da América: a questão do 
outro. São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1999. 
As cidades e os símbolos do poder
 O historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda escreveu, 
em 1936, um famoso artigo intitulado \u201cO semeador e o ladrilhador\u201d. 
O artigo é dedicado a examinar comparativamente as formas de 
colonização portuguesa e espanhola nas Américas, especialmente 
no que diz respeito às cidades coloniais. Surge da comparação, 
citada a seguir, uma visão dos portugueses como semeadores:
104 
História da América I
Essa primazia acentuada da vida rural concorda bem com 
o espírito da dominação portuguesa, que renunciou a trazer 
normas imperativas e absolutas, que cedeu todas as vezes que 
as conveniências imediatas aconselharam a ceder, que cuidou 
menos em construir, planejar ou plantar alicerces, do que em 
feitorizar uma riqueza fácil e quase ao alcance da mão.
Os espanhóis, em contraponto, seriam os ladrilhadores, 
preocupados desde o início com a construção de núcleos de 
povoação estáveis e bem ordenados. Para usar novamente as 
palavras do próprio autor, vejamos como Sérgio Buarque descreve 
a atuação espanhola nas colônias americanas:
Um zelo minucioso e previdente dirigiu a fundação das 
cidades espanholas na América[...]. Já à primeira vista, o 
próprio traçado dos centros urbanos na América espanhola 
denuncia o esforço determinado de vencer e retifi car a 
fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato defi nido 
da vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela 
sinuosidade e pelas asperezas do solo; impõem-lhes antes o 
acento voluntário da linha reta 
Muitas décadas e pesquisas passaram-se desde a publicação 
desse artigo de Sérgio Buarque. Sobre o Brasil, na época colonial, 
por exemplo, já sabemos hoje que a hipótese de Buarque pode ser 
revista, pois os portugueses, além de \u201csemeadores\u201d, também deram 
valor às cidades na construção de seu império mundo afora. 
Uma referência para a discussão sobre as cidades e a 
construção de um \u201cimpério\u201d português na época moderna 
é o importante livro da historiadora Maria Fernanda Bicalho, 
intitulado A Cidade e o Império: o Rio de Janeiro no século 
XVIII. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 2003.
 105
Aula 7 \u2013 Poder e cidade na América espanhola colonial
Nesta aula, entretanto, não queremos nos concentrar na 
comparação entre semeadores e ladrilhadores. Achamos mais válido 
pensar apenas nas palavras de Buarque sobre a América espanhola, 
que nos interessa em particular. Ao notar o caráter ordenado e estável 
das cidades espanholas no Novo Mundo, o autor iluminou, de fato, 
um traço importante desses assentamentos, também destacado por 
outros autores. O historiador argentino José Luis Romero, por exemplo, 
já descreveu as normas de regularidade que a Espanha impunha à 
formação dos núcleos urbanos coloniais. Nestes, diz Romero, a regra foi 
o traçado em forma de tabuleiro de xadrez, com quarteirões quadrados 
e uma praça no centro da planta. A plaza mayor (praça central) devia 
ser o núcleo da cidade, ao seu redor seríam construídos a igreja, o 
cabildo (que abrigava o conselho e a administração municipal). Para as 
igrejas e os conventos das diversas ordens religiosas, eram