Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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manufaturas. A infl ação acelerada 
elevou os custos da produção da indústria, que operava com limites 
técnicos muito rígidos. Assim, a incapacidade produtiva dos espanhóis 
abriu espaço para os atravessadores e contrabandistas holandeses e 
ingleses. O potencial produtivo espanhol estava sendo minado pelo 
mesmo império que injetava recursos para o aparato militar. 
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Aula 8 \u2013 O sistema econômico colonial: terra, trabalho e comércio
A monarquia espanhola, durante os séculos XVI e 
XVII, conduziu sua política externa de forma agressiva, 
envolvendo-se em diversos confl itos militares na Europa. 
Assim, o extraordinário reforço dos rendimentos reais através 
da contribuição colonial permitiu as operações militares realizadas 
por Felipe II, que se estenderam do canal da Mancha ao Egeu, de 
Túnis a Antuérpia. Os recursos advindos das colônias colaboraram, 
igualmente, para o curso da Guerra dos Trinta Anos, ainda que a 
Espanha acabasse derrotada pelo absolutismo francês de Luís XIV 
(ANDERSON, 2004, p. 74-75).
Contudo, o mais grave efeito ocorreria em longo prazo. 
Uma modifi cação qualitativa no padrão das importações coloniais, 
que tendia para o consumo de bens manufaturados mais sofi sticados, 
alteraria as relações comerciais entre a Espanha e a América. 
A mudança de padrão de importação decorreu de duas importantes 
transformações na sociedade colonial. Por volta de 1600, as colônias 
americanas iam tornando-se cada vez mais autossufi cientes quanto 
à produção dos bens primários que tradicionalmente importavam da 
Espanha (cereais, azeite e vinho) e começavam a produzir artigos 
manufaturados, como tecidos grosseiros. Também se desenvolviam 
nas colônias a indústria naval e o comércio intercolonial. 
A importação havia mudado, porque um novo tipo de 
consumidor também surgia. Com o despontar da produção agrícola, 
em certas regiões da América espanhola, a aristocracia crioula 
crescia e gerava uma demanda que as manufaturas espanholas e 
coloniais não eram capazes de atender. Com isso, mais uma vez, os 
ingleses e holandeses abocanhavam mais uma parcela do mercado 
colonial, oferecendo produtos mais sofi sticados. 
Também os portugueses aproveitaram-se da capacidade 
de consumo da América espanhola. Porém, ainda que tenham 
comercializado clandestinamente por muito tempo, dispuseram de 
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História da América I
certa legalidade durante os anos de 1580 a 1640 quando as duas 
coroas, de Portugal e Espanha, encontraram-se unidas. A união 
ibérica apagou as fronteiras entre as monarquias na Europa e nos 
territórios ultramarinos; a partir dela, Castela absorveu numerosas 
possessões lusitanas na Ásia, África e América. 
A participação dos portugueses na América espanhola 
ocorreu principalmente através da fronteira do rio da Prata. 
Da América portuguesa partiam um conjunto contínuo de pequenas 
naus carregadas de açúcar, arroz, tecidos e escravos negros. Essas 
naus regressavam carregadas de prata extraída da própria região 
sul (do rio da Prata) ou trazidas pelos mercadores do Peru, que 
vinham comprar as mercadorias produzidas em Pernambuco, Bahia 
e Rio de Janeiro. 
A penetração portuguesa não se limitou à margem atlântica. 
Também pelo pacífi co chegavam os mercadores portugueses à 
América espanhola. No México, portugueses abriam lojas onde se 
vendia de tudo, desde diamantes até escravos, pérolas preciosas 
e outros produtos, sem esquecer os bens de luxo provenientes 
da Europa: o vinho, o azeite, os tecidos fi nos, além das sedas e 
especiarias do Oriente. 
Os mecanismos do comércio português lembravam bastante 
os que vimos na América espanhola. As companhias eram na 
verdade parcerias criadas com objetivos e durações limitadas. 
Os parceiros ligavam-se por contrato apenas para aquela meta ou 
transação específi ca, e um homem podia estar envolvido em vários 
desses arranjos ao mesmo tempo. De fato, a ideia de \u201cfi rma\u201d ainda 
não existia. O mercador português de Lisboa ou do Porto dependia 
de seu parceiro (geralmente parentes jovens, sobrinhos, primos ou 
cunhados) nos portos coloniais ou dos serviços de um procurador.
Esse tipo de comércio, baseado em sociedades, ou parcerias 
de curto prazo, e geralmente nas mãos de agentes comissionados, 
continuaria a caracterizar grande parte do comércio luso-americano 
durante os séculos seguintes, quando então arranjos mais permanentes 
já se tinham estabelecido em outros sistemas europeus.
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Aula 8 \u2013 O sistema econômico colonial: terra, trabalho e comércio
A principal atividade comercial portuguesa no trato com a 
América espanhola foi através do Asiento. Como vimos, durante o 
século XVII, a mortalidade da população indígena gerou uma série 
de problemas para a Coroa espanhola (o debate sobre a condição 
indígena foi um deles), sendo a necessidade de repor a mão de 
obra perdida uma das questões principais. Em decorrência disso, 
Felipe II determina que alguns mercadores teriam o direito de vender 
africanos aprisionados às colônias espanholas na América. Para 
tanto, precisavam adquirir os contratos leiloados pela Coroa por 
um tempo determinado. 
Durante a união ibérica, os portugueses dominaram essa parcela 
do comércio espanhol, uma vez que detinham o monopólio da costa 
africana e, por isso, podiam arrematar os contratos pelos melhores 
preços. Após a ruptura entre Lisboa e Madri, em 1640, apesar da 
participação dos portugueses no Asiento ter se tornado ilegal, o 
contrabando português continuava servindo à América espanhola.
Embora muito do que dissemos aqui sobre mercadores e 
comércio na América portuguesa também se aplique à América 
espanhola, havia diferenças importantes. Segundo Schwartz:
Desde o início, Portugal, uma nação pequena, dependera 
dos navios de outros Estados para fazer boa parte do 
comércio com o Brasil. A coroa portuguesa criou monopólios 
para certos produtos e comércios, como as especiarias das 
Índias, mas para mercadorias agrícolas volumosas, como o 
açúcar, o comércio era aberto à todos, mesmo à estrangeiros, 
contanto que navegassem sob liderança e pagassem os 
impostos devidos. No século XVI, os holandeses eram os 
maiores transportadores do comércio colonial luso, enquanto 
navios ingleses eram raros nesses domínios (LOCKHART; 
SCHWARTZ, 2002, p. 266).
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História da América I
Em resumo, apesar de algumas semelhanças relacionadas 
ao trato comercial entre portugueses e espanhóis, especialmente no 
período correspondente à união das coroas ibéricas entre 1580 e 
1640, o sistema comercial luso era bastante diferente do \u201cconceito 
espanhol de um império fechado, limitado aos navios espanhóis que 
só podiam entrar pelo porto de Sevilha\u201d. As diferenças eram, em 
sua maioria, provenientes do nível desigual de recursos humanos e 
materiais que poderiam ser utilizados por Portugal e Espanha naquele 
momento (LOCKHART; SCHWARTZ, 2002, p.266).
Atende ao Objetivo 3
Leia com atenção as palavras do historiador Fernando Novais:
O exclusivo metropolitano do comércio colonial consiste em suma na reserva 
do mercado das colônias para a metrópole, isto é, para a burguesia comercial 
metropolitana. Este era o mecanismo fundamental, gerador de lucros excedentes, lucros 
coloniais; através dele, a economia central metropolitana incorporava o sobreproduto 
das economias coloniais (NOVAIS, 1983, p. 57-58).
Apesar de o referido autor fazer menção a uma das mais importantes características 3. 
das relações comerciais entre as áreas coloniais e as metrópoles europeias, devemos 
destacar a complexidade desse sistema de relações a partir de suas características e 
de suas respectivas contradições no mundo colonial. Considerando