Historia da America I Vol1
320 pág.

Historia da America I Vol1


DisciplinaHistória da América I1.169 materiais43.984 seguidores
Pré-visualização50 páginas
uma questão de política externa. O império colonial 
português \u2013 potencializado pelo ouro- e o espanhol viam o monopólio 
ser combatido pelo contrabando das novas potências marítimas. As 
regiões coloniais constituíram boa parte dos objetivos dos confl itos 
entre as nações europeias. A guerra de sucessão à coroa espanhola, 
que nos interessa particularmente nesta aula, teve como uma de suas 
causas o desejo dos franceses em controlar o comércio das Índias de 
Castela. Também a esta época ocorreram as invasões francesas no Rio 
de Janeiro, cidade colonial da América Portuguesa.
Tradicional aliado inglês, Portugal viu-se envolvido na Guerra 
de Sucessão Espanhola, que signifi cou mesmo o tom das rivalidades 
entre franceses e ingleses que procuravam o equilíbrio europeu, 
para evitar que uma monarquia por suas vitórias e alianças viesse a 
dominar as principais colônias e os principais pontos estratégicos. 
A questão sucessória na Espanha começa a ser discutida antes 
da morte de Carlos II, rei da Espanha que adoecia sem deixar herdeiros 
diretos. Apesar das várias negociações e propostas de candidatura à 
 67
Aula 09 \u2013 O século XVIII na Europa e nas América: confl itos
eleição ao trono, como a do rei de Portugal, a questão centrou-se entre a 
França e a Áustria. A possibilidade de ascensão de um príncipe francês 
ao trono espanhol devia-se ao não-pagamento de um dote. 
Quando, em 1659, Luís XIV causou-se com Maria Tereza, no 
acordo matrimonial, esta abria mão de seu direito de herança ao 
trono. Contudo, o não-cumprimento do pagamento do dote prometido 
foi um dos motivos alegados pelos juristas franceses para tomarem 
todo o tratado, inclusive a renúncia ao direito de herança, como 
inválido. Assim, Luís XIV apresentava seu neto, Felipe de Anjou, 
como legítimo herdeiro do trono espanhol. 
Margarida
de Austria Felipe III
Felipe IV
Isabel de 
Burbom
Mariana
de
Espanha
Carlos II
Margarida 
Tereza Leopoldo I
Fernando III
Mariana
de
Austria
Leonor
Madalena
(3ª esposa)
Luís
Delfi m
da França
Maria 
Tereza
Luís XVI Mariana
da Baviera
Felipe de 
Anjou
José
Fernando 
da Baviera
Carlos VI
Maximiliano II
Maria 
Antônia
Joéfa
Legendas
Aústrias
Burbons
Habsburgos de Espanha
Pretendentes ao trono de Castela
68 
História da América I
Por outro lado, se a renúncia de Maria Tereza podia ser 
questionada, a de Margarita Tereza era mais difícil. Apesar de lhe 
ter sido concedido o direito ao trono em 1665 através do testamento 
do rei Felipe IV, com a condição de não haver herdeiros varões, 
a irmã mais nova de Carlos II e Maria Teresa, ao casar-se com o 
imperador Leopoldo, em 1666, também renúncia ao trono espanhol, 
renunciando, assim, ao testamento de Felipe IV. 
Contudo, a casa de Áustria oferecia dois pretendentes ao 
trono. Leopoldo I, que aceitava a renúncia da esposa ao trono, mas 
reivindicava seu direito sucessório a partir de sua herança materna. 
Leopoldo era fi lho de Mariana de Espanha, ou seja, sobrinho de 
Felipe IV e neto de Felipe III. Nesta linha, reivindicava o trono 
espanhol como neto do rei Felipe III. Também pelo lado austríaco, 
Maximiliano II reivindica o direito ao trono espanhol para seu fi lho, 
José Fernando, da Baviera, questionando a dispensa da avó de seu 
rebento, Margarida Tereza, ao testamento de Felipe IV. 
Assim, apesar da tentativa de alguns acordos de divisão do 
império espanhol, ainda antes da morte de Carlos II, último monarca 
da Casa dos Habsburgos, os franceses, sem saber das intenções 
do rei espanhol e certos da impossibilidade de um acordo com 
o imperador, começaram a aumentar o efetivo de seus exércitos. 
Mas, uma surpresa os aguardava em 1º de novembro de 1700, 
dia da morte de Carlos II. O testamento do rei espanhol, escrito sob 
recomendação do papa, tornava o duque de Anjou e seu irmão 
menor, netos de Luís XIV, seus herdeiros diretos e, caso nenhum 
dos dois aceitasse o trono, o direito passaria aos Habsburgos 
austríacos. 
A despeito do aceite francês ao testamento, o que lhes garantia 
acesso mesmo que indiretamente à parcela do comércio com as ricas 
Índias de Castela, o recrutamento militar foi intensifi cado tanto do lado 
francês quando do dos Habsburgos. Porém, a estratégia decisiva para 
a confi guração de alianças que resultaria na guerra direta partiu do 
desejo de Guilherme III, príncipe de Orange, de que a monarquia 
espanhola fosse dividida, evitando assim a infl uência francesa nas 
 69
Aula 09 \u2013 O século XVIII na Europa e nas América: confl itos
Províncias Unidas. Além disso, para ele, Felipe V só poderia assumir 
a coroa espanhola e as Índias de Castela sob a condição de que as 
coroas de Espanha e França nunca pudessem se unir. 
Assim, a grande aliança fi rmada em 7 de setembro de 1701, 
assinada entre Áustria, Grã-Bretanha e as Províncias Unidas foi a 
última obra mestra de Guilherme III. Neste acordo, a Inglaterra 
procurou assegurar a reafi rmação dos direitos de comércio com as 
Índias de Castela, desfrutados durante o reinado de Carlos II. 
Também objetivando assegurar as rotas marítimas e comerciais, 
sobretudo do Atlântico, os portugueses entravam na guerra ao lado 
da grande aliança. Coube à corte lisboeta decidir entre romper com 
a tradicional aliança inglesa, protegendo o reino do enfrentamento 
com as duas potências continentais, Espanha e França e, assim, 
abandonar suas colônias à retaliação das perigosas potências 
marítimas, Inglaterra e Holanda. Entre o reino e as ricas colônias, 
optou-se pelos interesses comerciais representados pelo domínio das 
últimas. Neste sentido, torna-se evidente a importância dos mercados 
coloniais, sobretudo americanos, nos confl itos que tomaram o cenário 
europeu no início do século XVIII.
Em resumo, o confl ito europeu organizou-se a partir de dois 
grupos liderados pela França e Inglaterra. O primeiro defendia a 
candidatura de Felipe de Anjou, neto de Luís XIV, como vimos, herdeiro 
por testamento de Carlos II, enquanto a Grande Aliança, liderada 
pelos ingleses, desejava impedir a união das coroas de Espanha e 
França e assim defendia as pretensões da Casa austríaca. 
Embora a guerra tenha sido travada no campo de batalha, 
foram as disputas diplomáticas que defi niram a questão sucessória em 
Espanha. Isto porque, com a eleição do príncipe Austríaco Carlos VI 
como imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a Inglaterra 
perde o interesse por sua ascensão ao trono espanhol e prefere tentar 
um acordo com a França a permitir à Casa de Áustria tamanho 
poder. Com tais intenções, os ingleses iniciam as negociações com os 
franceses realizando o Congresso de Utrecht, onde foram assinados 
os tratados de paz sem a participação da Áustria. 
70 
História da América I
Com a perda do apoio de seus aliados, sobretudo da 
Inglaterra, não cabia mais ao imperador do Sacro Império continuar 
com a guerra, pois não havia condições materiais para tanto. Assim, 
em 1714, aceita a recusa ao trono espanhol em favor de Felipe de 
Anjou. Este conservou a coroa de Espanha e o domínio sobre as 
colônias, renunciando à sucessão ao trono francês e reafi rmou o 
direito de assiento concedido por Carlos II aos ingleses. 
Como vimos na aula anterior, o assiento era um contrato 
que estabelecia o direito de abastecer as colônias espanholas 
com escravos negros africanos. No século XVII, o assiento fora 
concedido aos portugueses durante a monarquia dual; agora, no 
século XVIII, era a vez de os ingleses monopolizarem o lucrativo 
tráfi co de escravos. Desta forma, fi ca evidente a relação entre os 
confl itos europeus e o papel das colônias americanas no jogo das