Historia da America I Vol1
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A partir da decretação da lei do chá, os protestos e as manifestações contra as medidas 
metropolitanas expandiram-se, principalmente após as intervenções estabelecidas pelas quatro 
leis de coação, voltadas a reprimirem as revoltas coloniais. A convocação do congresso da 
Filadélfi a, inicialmente voltada a criar um boicote ao comércio com os ingleses, tornou-se, 
depois de 1776, um espaço de representação dos interesses de secessão, principalmente 
depois de a Inglaterra negar o pedido da Assembleia americana em discutir as desavenças 
políticas e comerciais de forma pacífi ca.
Por fi m, dentre as características institucionais do Estado americano, podemos destacar o 
estabelecimento de uma República Federativa de regime presidencialista, onde os poderes 
de Estado apresentam-se divididos em três: Executivo, Legislativo e Judiciário.
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História da América I
CONFLITOS NA AMÉRICA: OPOSIÇÃO À 
METRÓPOLE? O MOVIMENTO COMUNERO 
E DE JUAN SANTOS ATAHUALPA 
Depois da época da conquista, as Índias Ocidentais de 
Castela passaram por um longo período de relativa estabilidade e 
crescimento, que se estendeu por um século e meio ou mais até ser 
rompido no fi nal do século XVIII pelas transformações profundas 
provocadas pelo Iluminismo, pela independência das colônias 
Inglesas e, principalmente, pelos desdobramentos da Revolução 
Francesa. 
A diversidade das categorias étnicas decorrentes da expansão 
e crescimento da sociedade colonial que permitiu o aumento 
demográfi co, bem como a ascensão econômica de determinados 
indivíduos, resultou na complexifi cação das hierarquias sociais. Esta 
pode ser representada principalmente pela ascensão dos criollos, 
grupo social a partir do qual foram fundadas as bases para a 
consolidação de uma elite desejosa de autonomia política, ainda 
que leal ao rei espanhol. Essa lealdade, como veremos na próxima 
aula, foi o motor para a contra-ofensiva aos exércitos napoleônicos. 
Por outro lado, será essa mesma elite que comandará as lutas pela 
independência na maioria das colônias espanholas. 
Se o processo de conscientização das elites coloniais contra 
o domínio espanhol tornou-se expressivo nos anos fi nais do século 
XVIII, os confl itos nas Índias de Castela ocorreram durante todo o 
domínio espanhol. Todavia, ao contrário do que tradicionalmente 
se tem apresentado, nem todos os confl itos podem ser entendidos 
enquanto uma luta entre os colonos \u201camericanos\u201d contra o domínio 
das metrópoles europeias.
Em termos gerais, a historiografi a a partir do século XIX, 
preocupada com a construção da nação na América Latina, 
enfatizou a ruptura institucional das independências, entendendo 
todos os movimentos sociais anteriores a partir do ponto de vista 
\u201cnacional\u201d. 
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Aula 09 \u2013 O século XVIII na Europa e nas América: confl itos
A abundância dos estudos produzidos nos diferentes países 
da América Latina encontrava-se fortemente associada a uma 
discussão bastante teleológica dos processos de construção 
dos diversos Estados nacionais. Buscava-se assim estabelecer 
uma espécie de reconhecimento das origens desses Estados, 
atitude bastante ambígua, pois, se de um lado dava destaque à 
maturidade política das classes dominantes locais, e, portanto 
à necessidade de promover a ruptura do vínculo colonial até 
então vigente, de outro, enfatizava a inadequação das classes 
populares para exercer uma plena cidadania. Esse debate 
foi muito característico da primeira metade do século XX, 
quando os intelectuais travaram grande discussão acerca da 
crise do Estado oligárquico e da conseqüente implementação 
de medidas reformistas de cunho fortemente autoritário 
(GOUVÊA, 1997, p. 1-2).
Cabe, no entanto, tratarmos de casos em que o aprofundamento 
dos estudos superou a preocupação em ver em qualquer manifestação 
de descontentamento sinais de nacionalismo. Para a América sob o 
domínio espanhol, temos como exemplo de confl ito que, apesar de 
afetar de alguma forma os representantes do poder régio na colônia, 
em nada pode ser considerado uma luta pela independência, o 
Movimento Comunero. Esta revolta, ocorrida no Reino de Nova 
Granada entre 1781 e 1782, foi tradicionalmente tratada como 
uma luta contra o domínio colonial e, apesar das novas pesquisas 
da historiografi a, a ideia ainda continua presente nos livros didáticos 
(CHECCHIA, 2000, p. 2). Portanto, enquanto historiadores e 
professores, devemos ter muita atenção ao delimitarmos o caráter 
das manifestações sociais. Passamos ao estudo de caso. 
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História da América I
O papel que o Movimento Comunero ocupa até hoje no imaginário 
social colombiano, e por que não dizer latino-americano, pode ser 
percebido pelo poema de Pablo Neruda. Para o poeta chileno, que 
viveu entre os anos de 1904 e 1973, os verdadeiros heróis foram 
os oprimidos sociais. Evidentemente, apesar do olhar sensível aos 
anseios dos estratos mais baixos da população, Neruda não deixa 
de caracterizar o movimento como precursor dos movimentos de 
independência. 
Leia o poema:
\u201cFue em Nueva Granada, em villa
Del Socorro. Los Comuneros
Sacudieron el virreinato 
Em um eclipse precursor.
Se unieron contra los estancos, 
Contra el manchado privilegio, 
Y levantaron la cartilla
de las peticiones forales.
Se unieron com armas y piedras,
milícias y m ujeres, al pueblo,
orden y fúria, encaminados 
hacia Bogotá y su linaje\u201d
(COSTA, 2007, p. 214)
O Movimento Comunero teve início após a publicação 
da \u201cInstrução de novos impostos\u201d, em 12 de outubro de 1780, 
no contexto da reformas implementadas pela nova dinastia, as 
reformas bourbônicas que veremos com mais detalhes na próxima 
aula. A instrução, por sua vez, ilustrativa dos princípios daquelas 
reformas, tinha por objetivo aumentar a pressão fi scal e o controle 
da produção, sobretudo a do tabaco, através da imposição de novos 
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Aula 09 \u2013 O século XVIII na Europa e nas América: confl itos
impostos, do retorno de antigas taxas (Armada de Barlovento) e da 
criação de zonas de cultivo específi cas.
 O primeiro efeito dessas medidas foi tornar ilegal a 
produção de tabaco onde tradicionalmente eram produzidos, como 
em Antioqua e Santander, afetando assim pequenos e grandes 
produtores. Quanto ao aumento da carga fi scal, este atingiu uma 
ampla camada da sociedade, uma vez que recaiu sobre quase 
todos os produtos consumidos na colônia, principalmente sobre o 
tabaco e a aguardente. Imagine como fi caram os colonos quando 
descobriram que teriam que pagar, praticamente, da noite para o 
dia, o dobro do preço pelo tabaco e aguardente! 
Assim, insatisfeitos com a série de alterações implementadas 
pelo visitador Juan Francisco Gutierrez de Piñeres, pequenos 
agricultores e comerciantes da cidade de Socorro, uma das mais 
afetadas pelas medidas, começaram a sublevação sob os gritos de 
\u201cviva o rei e mora o mau governo\u201d. Frase emblemática, que reafi rma 
os laços com a monarquia ao mesmo tempo em que evidência o 
entendimento daqueles leais vassalos rebeldes. Para esses homens, 
o rei \u201cjusto\u201d não era o responsável pelos tormentos que passavam 
com a pressão fi scal, mas sim o \u201cmau governo\u201d, representado pelo 
visitador Piñeres. Prova disso foi a verdadeira caça que os revoltosos 
promoveram contra o visitador, que se viu obrigado a fugir para a 
capital em direção a Cartagena. 
Em poucos dias, a sublevação começa a ter a adesão da 
aristocracia e de diferentes setores sociais de diversas cidades. Aos 
grandes fazendeiros criollos, pequenos agricultores e comerciantes 
juntam-se os mais baixos estratos sociais: populações indígenas, 
escravos negros, e até mesmo alguns membros das tropas militares,