Historia da America I Vol1
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desta Igreja. Assim, houve momentos em que a Igreja 
Anglicana esteve mais alinhada ao catolicismo, e outros momentos de 
maior compromisso com os ideais do protestantismo.
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Aula 11 \u2013 A formação das treze colônias inglesas na América
O que foi a questão matrimonial? Em 1527, sem consentimento 
papal, Henrique VIII divorciou-se de sua esposa Catarina, fi lha do 
rei de Espanha, para casar-se novamente. O episódio, conhecido 
por marcar a introdução do protestantismo na Inglaterra, reuniu 
aspectos importantes para a compreensão dos rumos da política e 
da sociedade inglesa no período. Em um cenário no qual as questões 
religiosas eram indissociáveis do mundo da política, a ação de 
Henrique VIII pode ser compreendida como um ato de rebeldia que 
colocava em xeque a tradição. Romper com o catolicismo e negar 
a autoridade do Papa, respeitada pelos ingleses havia séculos, era 
uma atitude que atendia a uma vontade individual do monarca: 
casar-se novamente. Ao mesmo tempo, tal ação contestava uma 
autoridade tradicional. Pode-se ver aqui um traço da modernidade 
inglesa, marcada pelo pragmatismo da ação política voltada para a 
concretização de objetivos que podem exigir a ruptura com valores 
tradicionais. Tal \u201cmodernidade\u201d é uma condição que se aplica às 
vivências políticas experimentadas pelos ingleses naquela época, 
quando a memória das guerras, a construção de uma nova cultura 
política e de uma nova Igreja obrigavam a rever postulados até 
então incontestados. 
Como parte dos princípios mais gerais da Reforma 
Protestante do século XVI, podemos destacar três questões: 
 a \u201cjustifi cação pela fé\u201d, ideia que sugeria ser a salvação 
um ideal alcançável pelas atitudes e experiências religiosas 
cotidianas dos membros da Igreja, e não por práticas vistas 
como exteriores, como a compra de indulgências, por exemplo;
 o \u201csacerdócio universal\u201d, que entendia os homens leigos de \u201cvida 
santa\u201d como sacerdotes, desvalorizando assim o peso da hierarquia 
clerical na mediação das relações dos homens com Deus; 
 a \u201cinfalibilidade baseada na Bíblia\u201d, cuja mensagem deveria 
ser interpretada livremente, contribuindo assim para a meditação 
pessoal e para um exercício religioso mais interiorizado.
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História da América I
A criação da Igreja Anglicana abriu caminho para a 
realização dos propósitos da Coroa em relação aos bens da Igreja 
Católica na Inglaterra. Tais bens foram confi scados e doados a 
particulares, em troca do apoio às reformas religiosas. Os herdeiros 
de Henrique VIII, por sua vez, envolveram-se em novas disputas, 
aprofundando o cenário de violência religiosa que marcaria a 
Inglaterra daí em diante. No breve reinado de Eduardo VI (1547-
1553), militantes do protestantismo enxergaram a oportunidade 
política para a disseminação do calvinismo. Promoveram, então, uma 
série de mudanças na Igreja Anglicana com o objetivo de torná-la 
mais comprometida com ideais da Reforma Protestante presentes na 
Europa continental. Nesse contexto, foram privilegiadas as inovações 
teológicas promovidas por João Calvino (1509-1564), líder da Igreja 
reformada da Suíça: o uso de uma liturgia mais austera, com um 
mínimo de rituais; a adoção do governo presbiteriano, composto 
por ministros e diáconos escolhidos pelas próprias congregações; e 
a difusão do dogma da predestinação, que atribuía a salvação da 
alma das pessoas à graça divina. Melhor dizendo, havia, segundo 
esse dogma, pessoas predestinadas à salvação e outras não, de 
acordo com a vontade de Deus. 
 Esses ideais, entretanto, foram contestados por Maria I, 
sucessora de Eduardo VI e conhecida como \u201ca sanguinária\u201d, pelas 
perseguições e execuções de protestantes. O reinado católico de 
Maria I levou muitos protestantes ingleses ao exílio na Alemanha e 
na Suíça, países nos quais um maior número de pessoas teve acesso 
às doutrinas calvinistas que identifi cariam o puritanismo inglês.
 Muitos desses exilados retornaram à Inglaterra quando 
Elizabeth I, protestante, chegou ao trono. Abriu-se então um novo 
período de disputas e pressões internas e externas, que deixaram a 
ilha fragmentada em diversas seitas protestantes vistas como radicais, 
em focos de resistência católica e no anglicanismo ofi cial.
Puritanismo 
Na Inglaterra, os adep-
tos do protestantismo 
comprometidos com os 
dogmas calvinistas eram 
chamados de puritanos. 
Surgiu daí a expressão 
puritanismo. 
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Aula 11 \u2013 A formação das treze colônias inglesas na América
 Assistir ao fi lme Elizabeth, lançado em 1998, é uma 
boa forma de compreender o clima de confl ito entre católicos 
e protestantes que dominava a Inglaterra em meados do século 
XVI. O fi lme trata basicamente da história de Elizabeth I durante 
a juventude, período em que chegou ao trono, sucedendo sua irmã 
por parte de pai, Maria I. 
A diversidade religiosa que caracterizava a Inglaterra nesse 
período contrastava com a noção de unidade religiosa forjada 
pelos espanhóis à época das conquistas. Na Espanha, a reconquista 
fi nal de Granada e a vitória sobre os mouros, em 1492, foram 
acompanhadas pela convicção de unidade em torno do cristianismo. 
Essa convicção foi reforçada pela posterior conversão forçada dos judeus 
em nome da pretensa \u201cpureza\u201d cristã. A ideia de pureza então dominava 
os discursos e a atuação do Estado e da Igreja peninsular sobre os não-
cristãos. Nesse cenário, a conquista dos novos senhorios era fortemente 
marcada pelo ideal de expansão da fé cristã católica. 
A Inglaterra não vivia, como vimos, um momento de unidade religiosa 
durante as primeiras tentativas efetivas de colonização da América 
do Norte. Mas os ingleses se apoiavam em argumentos semelhantes 
aos desenvolvidos pelos espanhóis e portugueses em suas conquistas. 
A carta de doação conferida pela rainha Elizabeth I a Sir Walter Raleigh, 
comandante das primeiras expedições ofi ciais ao litoral da América 
do Norte entre 1584 e 1587, declarava que ele se apropriasse das 
terras que viesse a encontrar, reservando uma quinta parte de todo o 
mineral \u2013 ouro ou prata encontrados \u2013 à monarquia. Ocupar e explorar 
eram fi nalidades das conquistas, assim como o aumento da glória de 
Deus, que logo se incorporou ao repertório dos colonizadores quando 
falavam de seus propósitos. O encarregado da Companhia dedicada 
à colonização da Virgínia afi rmava, em 1609, que desejava servir à 
\u201cpropagação da religião cristã aos nativos que ainda vivem na escuridão 
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História da América I
e ignoram Deus\u201d. Nos assentamentos onde a convicção religiosa era 
ainda mais explícita, como era o caso da Nova Inglaterra, a imagem da 
construção do reino cristão era igualmente mais forte. Em 1629, o selo 
da Companhia de Massachusetts mostrava o desenho de um nativo com 
a inscrição \u201cVenham nos salvar\u201d. A intenção, certamente, era lembrar 
que a empresa colonial devia envolver, ao menos em princípio, aquilo 
que então se entendia por glória de Deus, assim como o lucro e a glória 
militar.
Atende ao Objetivo 1
Figura 11.1: Miniatura de Elizabeth I, 1600.
Fonte: www.bbc.co.uk/history/british/tudors/elizabeth_portrait_01.shtml
1. A imagem anterior é uma miniatura com o rosto da rainha Elizabeth I pintada por 
Nicholas Hilliard, por volta do ano 1600, quando a rainha já passava dos 60 anos. 
Útima representante da dinastia Tudor, Elizabeth I era também conhecida como a \u201crainha 
virgem\u201d, por ter morrido sem se casar ou deixar herdeiros. Algumas características da 
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Aula 11 \u2013 A formação das treze colônias inglesas na América
fi gura revelam a intenção de reforçar certos atributos da rainha: os cabelos longos e soltos 
simbolizavam, naquele