Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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religiosa, e por rivalidades entre os 
adeptos do catolicismo, da Igreja Anglicana e dos chamados puritanos. O contraponto 
implícito na afi rmação de Leandro Karnal refere-se ao contexto hispânico à época das 
conquistas ultramarinas. Lembre-se, conforme conteúdo já estudado neste curso, de que os 
reis católicos Fernando e Isabel e seus sucessores legitimavam seus direitos sobre o Novo 
Mundo em torno dos argumentos de expansão da fé católica e combate aos chamados infi éis. 
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Aula 11 \u2013 A formação das treze colônias inglesas na América
O Estado e a Igreja Católica na Espanha estavam, assim, fi rmemente comprometidos com os 
empreendimentos coloniais do início da época moderna. O Estado e a Igreja na Inglaterra, por 
sua vez, experimentavam um clima de confl itos religiosos, que conduzia os monarcas de uma 
mesma dinastia, como foi o caso dos Tudor, a adotarem diferentes formas de credo religioso. 
No Novo Mundo criado pelos ingleses, esta atmosfera de diversidade religiosa também se 
fez presente. As questões políticas também fi zeram com que o Estado inglês estivesse mais 
afastado dos colonos no período de assentamento na América. Afi nal, na primeira metade 
do século XVII os ingleses viviam uma guerra civil, que mobilizava o Estado e deixava pouco 
espaço para o envolvimento com a rotina da colonização da América. 
Contrastes nas treze colônias inglesas da 
América
Muitos novos habitantes chegaram às colônias inglesas da 
América na primeira metade do século XVII. Neste período, a 
Inglaterra viveu um impulso colonizador marcado pela atividade de 
particulares organizados em companhias que mobilizavam recursos 
para a colonização com licença da Coroa. Para as colônias da 
América do Norte, dirigiram-se então cerca de 75.000 homens e 
mulheres que partilhavam condições materiais precárias, hábitos da 
vida rural e o sentimento de distância da Inglaterra de origem.
 Mas o fato de possuírem origens relativamente homogêneas 
não garantiu a criação de padrões de colonização idênticos nos 
assentamentos ingleses da América continental. As colônias eram 
marcadas, aliás, por muitas diferenças em seus modos de organi-
zação e povoamento iniciais.
 Boa parte dos livros didáticos, fi lmes e imagens mais habituais 
que relacionamos à colonização inglesa traz à mente grupos de 
puritanos vestidos de preto, desembarcando na costa atlântica com 
suas extensas famílias e logo envolvidos em intensa vida religiosa e 
comunitária marcada pela disciplina e pelo controle moral. Teria sido 
esse um padrão de colonização dominante na América continental? 
Estendeu-se ao conjunto das treze colônias?
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História da América I
Figura 11.2: A localização das treze colônias inglesas.
Fonte: www.commons.wikimedia.org 
New Hampshire
Massachusetts
Rhode Island
Connecticut
Nova York
Nova Jersey
Pensilvânia
Delaware
Maryland
Virgínia
Carolina do Norte
Carolina do Sul
Geórgia
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Aula 11 \u2013 A formação das treze colônias inglesas na América
Tabela 11.1: Datas de fundação das treze colônias
Colônias
Ano de 
fundação 
Virgínia 1607
New Hampshire 1623
Massachusetts 1620-30
Maryland 1634
Connecticut 1635
Rhode Island 1636
Carolina do Norte 1653
Nova York 1613
Nova Jersey 1664
Carolina do Sul 1670
Pensilvânia 1681
Delaware 1638
Geórgia 1733
 
Jack Greene, um conceituado especialista norte-americano 
nessa temática, reconhece que a imagem dos imigrantes puritanos 
é a mais habitualmente identifi cada ao passado das treze colônias. 
Mas o autor adverte que a experiência colonial foi mais diversifi cada, 
tendo seu \u201ccentro de gravidade\u201d se desenvolvido inicialmente nas 
áreas do centro-sul, em torno da baía de Chesapeake. Nesta região, 
que aqui chamaremos de Chesapeake, apenas se estabeleceram as 
colônias de Maryland e Virgínia. 
O exigente cultivo do tabaco determinou os contornos da 
sociedade do Chesapeake, marcada por uma orientação largamente 
comercial em seus propósitos. Dependia, portanto, do desenvolvimento 
de uma produção vendável e valorizada nos mercados europeus. 
A mão-de-obra inicialmente empregada na região era formada 
pelos trabalhadores por contrato (indentured servants). Eram quase 
sempre ingleses, que deixavam a terra natal diante da promessa de 
receber um lote de terra após cerca de sete anos de trabalho nos 
campos de tabaco. Esses trabalhadores constituíram um padrão de 
sociedade jovem, masculina (houve momentos em que a proporção 
era de uma mulher em cada seis homens embarcados para a região) 
e com poucas condições de crescimento natural pela difi culdade na 
formação de famílias estáveis. 
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História da América I
Difíceis eram também as condições de vida na região. 
Nas décadas iniciais do assentamento colonial, os altos índices 
de mortalidade por doenças e os repetidos ataques indígenas 
dizimavam povoados recém-instalados. Embora a Companhia 
responsável pela colonização da Virgínia exigisse que os ganhos 
econômicos da região se realizassem em um contexto de instituições 
culturais e religiosas fi rmemente estabelecidas, é notável que o senso 
de comunidade se enraizava mais lentamente nessa área voltada 
para ganhos imediatos. Na área de Chesapeake, os trabalhadores 
por contrato eram explorados à exaustão e quase sempre recebiam 
menos do que o necessário para o próprio sustento. 
A riqueza produzida pelo tabaco, porém, suscitou algumas 
mudanças no cenário da região após 1660. A expectativa de 
enriquecimento encorajou um aumento da imigração familiar. 
A possibilidade de melhoria nas condições de vida passou a ser 
progressivamente partilhada por setores médios e mesmo por 
trabalhadores que sobreviviam ao tempo de contrato, esperando 
viver de forma mais independente em suas propriedades. A maior 
diversificação da produção para consumo local, somada à 
subordinação ou ao isolamento dos índios das imediações, contribuiu 
ainda para diminuir as ameaças mais constantes à população colonial. 
Criaram-se, assim, melhores condições de coesão comunitária. 
A formação de paróquias e o estabelecimento de uma estrutura judicial 
dedicada à articulação dos interesses locais completavam o contexto 
de busca por maior estabilidade social na região. 
Desde os assentamentos iniciais, a área do Chesapeake desta-
cou-se pelos traços mais seculares: exploração da agricultura comercial, 
competição por recursos e ascensão social, formação familiar lenta e 
instituições sociais que se enraizaram progressivamente. Considerando 
que se trata da região mais populosa, além de ter sido econômica e 
politicamente a mais dinâmica da América colonial, é de se notar que seus 
modos coloniais diferem da tradicional visão que temos da experiência 
colonial inglesa no continente. Melhor dizendo, a região do Chesapeake 
não se adapta prontamente àquela imagem de uma colonização familiar 
e puritana habitualmente associada aos colonos ingleses. 
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Aula 11 \u2013 A formação das treze colônias inglesas na América
Figura 11.3: Vista da colônia da Geórgia, em 1734.
Então, onde estavam os chamados puritanos? Estavam ao norte 
do rio Hudson, na Nova Inglaterra. Sendo a perseguição religiosa 
constante na Inglaterra, as alternativas à liberdade de culto passavam 
pela América, que recebeu inúmeros grupos de imigrantes atingidos 
por perseguições religiosas. Por volta de 1640, a região que aqui 
chamamos de Nova Inglaterra era formada por quatro colônias: 
Massachusetts, Connecticut, New Hampshire e Rhode Island. Não é 
possível afi rmar que os colonos vindos para essas áreas partilhavam 
todos as mesmas convicções teológicas, mas é possível notar alguns 
traços de