Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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medida tomada por aqueles que 
o resgataram para que não fugisse na jornada de volta para casa. Não 
adiantou. John conseguiu escapar à noite e retornou para sua família índia. 
Lá permaneceu por mais um ano, quando foi fi nalmente trazido para seu 
lar inglês na Pensilvânia sob forte guarda. 
 Situações como essa eram mais comuns entre crianças e jovens, 
que se ligavam a suas famílias índias, especialmente quando raptados ou 
capturados com pouca idade. Algumas vezes, porém, os laços de afeto 
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História da América I
entre índios e brancos se formavam também com europeus adultos. Foi 
esse o caso do colono Thomas Ridout, que, em 1799, onze anos após 
ter sido libertado, recebeu em York (atual Toronto) uma visita de seu \u201cpai\u201d 
nativo, Kakinathucca. O relato de Ridout sobre essa visita não esconde 
a emoção do reencontro: \u201cKakinathucca olhava para mim e para minha 
família com particular satisfação, e a minha mulher e meus fi lhos igualmente 
contemplavam as nobres qualidades deste valoroso índio.\u201d
A venda de terras também foi um mecanismo introduzido pelas 
demandas dos europeus, pontuado quase sempre pela denúncia de 
prejuízos e abusos sofridos pelos índios nessas transações. Mesmo 
em regiões que tinham a reputação de reconhecer os direitos dos 
nativos à terra, como era o caso da Pensilvânia, tais denúncias 
acabavam ganhando expressão. Os índios lenni lenape, por 
exemplo, venderam terras que ocupavam para W. Penn, fundador 
da colônia, entre 1682 e 1684. Permaneceram na região nos anos 
seguintes, onde logo se viram engolfados pelo avanço dos europeus 
e pela devastação causada por doenças. Dizia-se na época que 
\u201cdois nativos morriam a cada cristão que chegava\u201d, de acordo com 
um relato escrito em 1694 por Gabriel Thomas, cronista da região. 
O ritmo da desagregação acabou levando-os a migrar para o 
interior da nova colônia, competindo por terras e recursos naturais 
com outros nativos previamente instalados na região. 
 O expediente da venda de terras foi adotado também em 
outras colônias, introduzindo a noção de propriedade no mundo dos 
nativos envolvidos nas transações de compra e venda. Os iroqueses 
da região de Nova York, reputados como guerreiros excepcionais, 
vendiam terras aos ingleses para custear as mercadorias e armas que 
compravam deles. Criava-se, assim, uma situação de dependência 
suscitada por novas necessidades do mundo dos índios. Na ausência 
de uma política formal da Coroa sobre as terras dos índios, os 
colonos geralmente legitimavam seus avanços por meio da compra 
ou de acordos de concessão, ambos denunciados pelos nativos 
como abusivos ou fraudulentos. 
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Aula 12 \u2013 Nativos e escravos na América colonial inglesa
Figura 12.2: Mulheres iroquesas moendo grãos. Gravura 
anônima de 1664.
Fonte: www.wikepedia.es
Em 1763, com o fi m da Guerra dos Sete Anos, os ingleses 
conquistaram diversos territórios que estavam sob ocupação francesa 
no interior da América do Norte. A questão da terra dos índios, que 
se aliaram aos franceses durante a guerra, obteve um tratamento 
específi co por parte da Coroa. Decidida a apaziguar os ânimos e 
trazer os índios para seu lado, a Coroa inglesa reservou os domínios 
recém-conquistados para o usufruto dos nativos. Assim, as terras a 
oeste dos Apalaches foram reconhecidas como parte do domínio da 
Coroa inglesa na América, mas reservadas por direito ao usufruto 
dos índios, desagradando os colonos que pretendiam avançar seus 
domínios sobre aquela região. Tal medida evidenciava o fato de que 
a terra, mais do que o trabalho, era o principal ponto de confl ito 
entre índios e colonos ao longo da época colonial.
Pelo que vimos até aqui, as comunidades nativas reagiram ao 
avanço da colonização vendendo terras, guerreando ou migrando. 
Mas também houve aquelas que formularam ações políticas perma-
necendo em suas áreas originais, onde criaram mecanismos mais 
ou menos bem-sucedidos de adaptação, em face das mudanças 
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História da América I
introduzidas pelos colonizadores. Um exemplo de resistência 
adaptativa em face dessas mudanças pode ser encontrado entre 
os índios catawbas, que viviam na região das Carolinas. 
O termo catawba, usado desde o início do século XVIII, não 
designava uma comunidade nativa existente antes da chegada dos 
ingleses. Designava, antes, a união entre diferentes grupos da região 
interessados em promover uma liderança política comum \u2013 mas nem 
sempre estável \u2013 que os fortalecesse diante de europeus e de outras 
nações de índios não aliados. Por volta de 1730, quando colonos 
ingleses se estabeleceram nas terras próximas aos catawbas, as 
trocas comerciais promoveram os contatos iniciais. Tais contatos 
tornaram-se mais confl itantes à medida que os colonos desejavam 
expandir suas propriedades. Considerando os índios pouco hábeis 
para o trabalho e não os desejando como vizinhos, os ingleses 
pressionaram os catawbas a deixarem seus territórios, abrindo assim 
espaço para o avanço da colonização. 
Diante do inevitável avanço dos colonos, os catawbas se viram 
reduzidos a cerca de 500 habitantes após a epidemia de varíola de 
1759. Os nativos, então, gradualmente reconheceram a necessidade 
de criar alternativas políticas em meio às enormes perdas que vinham 
sofrendo. Em outras palavras, encontrar meios de conviver com os 
indesejáveis vizinhos era a via possível para a sobrevivência dos 
nativos em seus territórios originais. Como tantos outros grupos origi-
nais das Américas, os catawbas souberam utilizar as instituições e 
mecanismos legais dos ingleses a seu favor. Obtiveram, assim, uma 
concessão que lhes conferia o direito de explorar uma reserva no 
antigo território do grupo. Aos colonos que desejassem terra nesta 
área, restou a possibilidade de arrendamento, praticada pelos índios 
em troca de dinheiro, manufaturas e mantimentos. Reforçando sua 
presença junto aos povoamentos coloniais, os catawbas prestavam 
serviços aos ingleses, como a doma de cavalos, a recuperação de 
escravos fugitivos e a venda de seus artesanatos.
Resistência 
adaptativa 
O conceito de 
\u201cresistência adaptativa\u201d 
foi proposto pelo 
historiador Steve Stern. 
Este conceito ajuda-nos 
a pensar que os nativos 
elaboraram estratégias 
de contato com os 
europeus, levando em 
conta suas próprias 
motivações e interesses. 
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Aula 12 \u2013 Nativos e escravos na América colonial inglesa
Como adverte a historiadora Maria Regina Celestino, as novas 
perspectivas sobre a história indígena devem levar em conta o fato 
de que os índios souberam se transformar e reelaborar seus valores, 
culturas, interesses e objetivos. Essa nova abordagem permite pensar 
que \u201cos povos indígenas não estavam na América à disposição dos 
colonizadores, nem com eles colaboraram por ingenuidade ou tolice\u201d, 
como afi rma Celestino. As experiências dos catawbas, iroqueses e 
shawnees, brevemente relatadas aqui, apresentam vivências diferentes 
diante da colonização. Guardam, entretanto, um traço em comum: 
não houve mundo nativo intocado depois da conquista.
As relações comerciais, políticas e a intensa exploração dos 
recursos humanos ou naturais dos nativos causaram enorme devastação 
\u2013 ainda mais sistemática, no caso da América do Norte, ao longo 
do século XIX. Mas é preciso ressaltar que as ações dos diferentes 
grupos de nativos diante dos colonos foram também ações políticas 
e deram margem a processos de transformação cultural certamente 
permeados pela violência. A tarefa do historiador ao examinar tais 
processos, como lembra o historiador S. Gruzinski, é recuperar aquilo 
que houve de multiplicidade, coerência e inventividade nas estratégias