Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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atestam os confl itos com os senhorios das 
cidades de Tlaxcala e Metztitlan, para 
citar duas regiões que resistiram diante dos 
avanços mexicas.
Figura 2.1: A Mesoamérica antes de 1519. Observe 
que o domínio mexica correspode às áreas sombreadas de 
cinza neste mapa.
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História da América I
Zacatecas.1. 
Querétaro.2. 
Tula.3. 
Teotihuacán.4. 
Tlaxcala.5. 
Tenochtitlán (Cidade do México).6. 
Puebla.7. 
Vera Cruz.8. 
Oaxaca.9. 
Acapulco.10. 
As estimativas sobre a população da cidade de Tenochtitlán 
são muito variadas, com cifras que vão de 120 a 400 mil 
habitantes. Ainda que não seja possível precisar o tamanho exato 
da população, é certo que se tratava de um grande e complexo 
centro urbano, formado por templos, praças, fontes, arsenais 
militares, residências dos governantes, além de diversos bairros. A cidade 
contava, em 1519, com mais de cinquenta calpulli \u2013 nome atribuído 
às comunidades que formavam os bairros da cidade \u2013, constituídos 
principalmente pelo grupo macehualtin, a população simples e dedicada 
ao trabalho na cidade. 
As pessoas que não precisavam se ocupar do trabalho na terra ou 
com as atividades artesanais eram geralmente os chamados pipiltin \u2013 
os senhores ou principais. Eles recebiam educação sofisticada e 
ocupavam os postos destacados nas funções religiosas, militares e 
burocráticas. Dessa camada da sociedade saíam os dirigentes máximos 
dos mexicas, conhecidos pelo nome de tlatoani: aquele que tem a 
palavra preciosa. Esse era o título atribuído ao conhecido Montezuma, 
que na época da chegada dos espanhóis era o juiz supremo, o chefe 
dos exércitos e a autoridade religiosa máxima nos domínios mexicas. 
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
Mas é igualmente notável que os mexicas impuseram-
se militar e politicamente sobre muitos senhorios da região. 
Como legitimaram tal expansionismo? Para responder a essa 
pergunta, seria interessante considerar inicialmente a visão 
presente nas fontes nativas, já que estamos tratando de uma área, 
a Mesoamérica, marcada pelas culturas orais, eminentemente, mas 
também pela escrita, ainda que restrita às elites. Em seguida, vou 
abordar visões historiográfi cas sobre o expansionismo, tentando 
recuperar os modos pelos quais historiadores, a partir do fi m dos 
anos 70, têm avaliado o movimento expansionista dos mexicas.
Os mexicas investiram na construção de uma imagem de seu 
passado e de sua identidade antes da instalação em Tenochtitlán, 
por volta de 1325 d.C. A história contada pelos mexicas chegou 
O poder dos soberanos mexicas era conferido por um pequeno 
grupo de pipiltin, que se reunia e discutia por alguns dias para 
eleger, em decisão unânime, o chefe da confederação mexica. 
Figura 2.2: Esta imagem faz parte do Civitates Orbis Terrarum, o primeiro atlas incluindo 
diferentes cidades ao redor do mundo a ser publicado na Europa, em 1572. A parte 
esquerda da imagem corresponde à cidade de Tenochtitlán (atual Cidade do México), 
e a parte direita representa a cidade de Cuzco, sede do Estado inca, atual Peru. A vista 
da cidade de Tenochtitlán reproduzida nesse mapa foi inspirada pela representação 
presente nas cartas do conquistador Hernan Cortés, publicadas em 1524.
Fonte: http://www.loc.gov/exhibits/earlyamericas/online/precontact/precontact.html
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História da América I
a nós através de fontes índias compiladas após a conquista (estão 
presentes no Códice Florentino e no Códice Vaticano A, entre 
outros), e narra a sujeição desse povo na região de Aztlán, onde 
pagavam tributos e trabalhavam para senhorios que os humilhavam 
e os odiavam. O sacerdote Huitzilopchtli teria manifestado então 
aos mexicas a ordem de migrarem para o Vale, pois lá deixariam 
de ser pobres e teriam um destino singular como governantes e 
conquistadores. De acordo com o historiador Miguel León-Portilla, 
a história que os mexicas elaboraram sobre sua instalação no vale do 
México teria sido disseminada por volta da década de 1420 d.C., 
quando, sob o governo de Itzcoatl, iniciou-se uma era de expansão 
sem precedentes desse grupo. Assim, os mexicas teriam investido 
na construção de uma tradição relativa a seu passado que era 
adequada ao momento de rápida expansão de seu domínio sobre 
outros senhorios da região.
Os mexicas herdaram uma tradição já presente entre outros 
povos que habitaram a Mesoamérica: o registro escrito de 
acontecimentos, antigos eventos, narrativas, conhecimentos sobre 
os deuses, a astronomia e tantos outros elementos que faziam parte 
de suas vidas. Esses registros foram gravados em pedras, escritos em 
códices \u2013 espécies de livros \u2013 ou mantidos pelas tradições orais daqueles 
povos. Na época da conquista espanhola, no início do século XVI, 
a maioria dos antigos códices nativos foi incendiada a mando das 
autoridades e dos religiosos europeus, restando apenas quinze livros 
produzidos antes da chegada dos espanhóis. Entretanto, como demonstra 
o historiador Eduardo Natalino dos Santos, os índios especializados na 
produção de códices continuaram elaborando livros, principalmente nas 
regiões mais distantes dos centros de poder criados pelos espanhóis. 
Os próprios religiosos e funcionários da coroa espanhola perceberam, 
mais tarde, que a destruição sistemática dos documentos produzidos 
pelos índios era um entrave para os propósitos dos conquistadores, 
que precisavam conhecer os povos que estavam buscando dominar. 
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
Assim, a memória e a história elaborada por esse povo ligam 
a migração à promessa de um destino singular para os mexicas, 
legitimando seus novos domínios. Ou, nas palavras de Eduardo 
Natalino dos Santos, \u201co importante é que se busque entender quais 
são os marcos referenciais e os objetivos com os quais um determinado 
grupo humano molda sua memória e sua visão de história, pois assim 
podemos entender por que tais fatos são selecionados e narrados 
de tal modo\u201d. No caso aqui discutido, parece-me que os mexicas 
privilegiaram a memória da humilhação e das difi culdades no 
passado, que os levaram a migrar e constituir uma nova cidade, a 
partir da qual se tornariam governantes e conquistadores.
Parte da historiografi a produzida nas últimas décadas esteve 
atenta a esses registros culturais ao buscar explicar o movimento de 
expansionismo dos mexicas. Ao fi nal dos anos 1970, Christian Duverger 
interpretou o sacrifício humano entre os mexicas em seu livro, La Flor letal, 
Assim, mais de 900 códices foram produzidos pelos índios na época 
colonial, muitos deles por encomenda ou com a participação dos 
próprios agentes da colonização espanhola.
Figura 2.3: Imagem de uma das páginas do Códice Vindobonensis, um manuscrito 
elaborado antes da conquista do México, e um dos poucos não destruídos naquela 
época. Esse documento ilustra como os deuses criaram o mundo, de acordo com a visão 
dos índios mistecas, da região de Oaxaca, México. O códice original está atualmente 
depositado na Biblioteca Nacional de Viena.
Fonte: http://www.loc.gov/exhibits/earlyamericas/online/precontact/precontact3.html
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História da América I
e apontou alguns dados socioculturais que ligavam a morte em 
combate ao destino do povo mexica. De acordo com Duverger, 
os mexicas acreditavam e disseminavam a ideia de que os mortos 
em combate \u2013 assim como as mulheres mortas no parto e as vítimas 
de sacrifícios humanos \u2013 alimentavam o sol. Segundo o imaginário 
de povos mesoamericanos, os mexicas eram o povo do quinto sol, 
considerado o sol em movimento. E para que o sol se mantivesse 
em movimento, a morte dos