Historia da America I Vol1
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Historia da America I Vol1


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Andes, tranformando-a em uma espécie 
de política de domínio sobre os grupos da região. A dinâmica 
preexistente foi chamada por esse autor de \u201cprática de duplo 
domícilio\u201d, e consistia nos frequentes deslocamentos da população em 
busca de recursos presentes em pisos ecológicos diferentes daqueles 
que se encontravam em sua comunidade original.
Um exemplo pode nos ajudar a compreender melhor os 
argumentos desse autor. Imagine um povoado nativo construído na 
serra andina a uma altitude de aproximadamente 3.000 metros, capaz 
de produzir basicamente milho e batata. Ora, esses alimentos, embora 
muito nutritivos, não eram sufi cientes para alimentar as famílias locais, 
que não dispunham de mais terras para outros cultivos. Assim, uma 
parte da comunidade deslocava-se de tempos em tempos para explorar 
os recursos de pastagens localizadas em outro \u201cpiso\u201d das montanhas, a 
uma altitude de 4.000 metros. Outros membros da mesma comunidade 
da serra viajavam para as áreas mais baixas, aproveitando os recursos 
de um outro \u201cpiso\u201d, localizado nas áreas mais quentes e úmidas, onde 
produziam a coca, o algodão e extraíam madeira. Movimentando-se 
pelos diferentes pisos ecológicos da região andina, os habitantes da 
montanha podiam compensar os rigores de viver em regiões tão altas e 
carentes de terras sufi cientes para que sobrevivessem. Assim, os andinos 
transformavam as limitações do clima e as restrições da terra em uma 
vantagem, deslocando-se para aproveitar recursos variados.
Esse tipo de deslocamento sazonal existia na região andina antes 
do expansionismo inca e continuou a existir após o domínio desse povo 
se estender naquela área. Para John Murra, os incas transformaram essa 
antiga prática \u2013 a de complementar recursos da comunidade \u2013 em um 
meio de controle político. Mas como fi zeram isso? Os administradores 
do Estado inca utilizaram os mecanismos da mita para reassentar 
pessoas em localidades cada vez mais distantes, impedindo-as de 
retornar às suas comunidades de origem, pois as viagens seriam muito 
longas. O domínio inca produzia um enfraquecimento dos vínculos nas 
comunidades originais, uma vez que certos membros eram afastados 
desses núcleos para atender às novas demandas do Estado.
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
Até onde se pode reconstituir, o membro da comunidade, 
antes da expansão inca, devia prestar serviços (mita) ao chefe local 
(cacique ou Kuraka são as denominações presentes na bibliografi a 
para designar essas chefi as comunitárias). Com a expansão inca, a 
mita passou a ser exigida também pelo dirigente máximo, o Inca, 
obrigando os membros da comunidade a despender mais tempo e 
energia em trabalhos diversos (cultivo da terra, tecelagem, pastoreio, 
serviço militar, etc), cujo produto fi nal seguia para o centro do 
\u201cImpério das Quatro Direções\u201d.
A cidade de Cuzco tornou-se, no fi nal do século XV, o centro 
desse Império, acumulando funções administrativas e cerimoniais. 
A capital estava situada no entroncamento das estradas reais que, 
ao longo de mais de vinte mil quilômetros de extensão, ligavam 
Cuzco ao Chile, ao Oceano Pacífi co e ao Equador. Não existe, entre 
antropólogos e historiadores, 
um consenso sobre as formas 
de intervenção de Cuzco no 
governo das comunidades 
incorporadas no movimento 
de expansão. Mas há indícios, 
nas fontes disponíveis, 
acerca de duas situações: 
nas áreas rebeldes, é mais 
provável que os incas tenham 
designado \u201cgovernadores\u201d 
para substituir o \u201csenhor 
natural\u201d da comunidade, ao 
passo que nas regiões leais 
à Cuzco, as chefi as naturais 
foram mantidas.
De qualquer modo, sabe-se que existia uma burocracia 
central, cujos membros eram designados para servir nos grandes 
centros administrativos erguidos ao longo da estrada real. 
Esses administradores (também conhecidos como senhores incas) 
Mita era o nome que 
se dava à prestação 
de serviços, uma 
espécie de tributo 
pago ao chefe da 
comunidade sob a 
forma de trabalho. 
Através da mita, 
os membros da 
comunidade levavam 
produtos para 
a chefi a, que os 
acumulava e tinha o 
dever de redistribuí-los 
quando necessário.
Alguns kurakas, 
os chefes locais 
das comunidades 
subordinadas ao 
domínio inca, 
adquiriam o status de 
inca de privilégio. Esta 
posição era franqueada 
aos chefes das grandes 
comunidades, que 
mantinham uma relação 
aparentemente mais 
próxima com o Inca, 
enviando seus fi lhos 
para se educarem em 
Cuzco e as fi lhas para 
se casarem com o 
soberano. 
Figura 2.5: Ruínas de pedra da construção inca 
Sacsayhuamán nos arredores da cidade de Cuzco.
F o n t e : h t t p : / / e n . w i k i p e d i a . o r g / w i k i /
Sacsayhuam%C3%A1n
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História da América I
eram designados para inspecionar as comunidades existentes nos 
territórios sob sua responsabilidade, evidenciando que mesmo os chefes 
considerados leais eram submetidos a algum tipo de fi scalização. 
O Inca era considerado o fi lho do Sol e também o mediador 
privilegiado entre os homens e essa divindade. Tal atributo, além 
da articulação de políticas de domínio junto às comunidades 
locais, fazia com que o Inca garantisse alguma coesão social em 
meio a uma expansão sobre áreas tão distantes e heterogêneas. 
Os incas não deixaram testemunhos escritos de sua 
história antes da conquista, mas muitas crônicas foram 
produzidas logo após a invasão espanhola nas terras andinas. 
Através dessas crônicas, combinadas a outras fontes, sabemos 
hoje de certas práticas cotidianas da organização do Estado inca. 
Um desses traços é o costume dos índios de registrar nos quipos tudo 
que remetiam aos seus senhores. Os quipos eram objetos formados 
por cordas, cujos nós registravam a contabilidade das comunidades 
e podiam ser \u201clidos\u201d pelos índios contadores, capazes de traduzir 
as informações ali contidas. Temos um relato, datado de 1549, 
no qual os espanhóis interrogavam a comunidade de Pahucar Gauman 
sobre os tributos (mita) que enviavam a Cuzco antes da chegada dos 
espanhóis. O contador de quipos da comunidade leu então um quipo de 
cerca de 25 a 30 cordas, de onde extraiu as seguintes informações: deviam 
enviar quatrocentos índios para Cuzco, a cerca de sessenta dias de viagem, 
\u201cpara fazer muros\u201d. Outros quatrocentos deviam plantar, enquanto outras 
pessoas serviam em guarnições militares ou guardavam múmias reais. 
Havia ainda mais obrigações registradas nesse quipo, como era o 
caso das famílias ocupadas no pastoreio de rebanhos do Estado, na 
tecelagem da lã e no envio de carregadores para o transporte de carga 
pelas estradas reais.
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
Dessa forma, a aparência de centralidade dos domínios do Inca 
a partir de Cuzco mantinha-se pela burocracia do Estado, pela 
educação dos fi lhos dos kurakas mais importantes na capital, pela 
criação de rotas de circulação e comunicação através das estradas 
reais, e, não menos, pela imposição do culto ao Sol, que devia se 
sobrepor aos antigos cultos locais das comunidades.
Atende ao Objetivo 2
2. Uma das fontes escritas de que dispomos sobre as regiões andinas no período da 
conquista (após 1532, no caso) é proveniente dos relatórios feitos pelos funcionários da 
coroa espanhola, que iam às comunidades e registravam o que diziam os índios sobre o 
período do domínio inca. O trecho que você lerá a seguir provém de uma visitação feita 
em 1562 ao chupaychos, um pequeno grupo étnico que morava no vale de Huallaga. 
Quando inquiridos sobre sua vida antes de 1532, declararam que: 
(...) um senhor inca que governava dez