Acidentes e complicações em anestesia local
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Acidentes e complicações em anestesia local


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PRO-ODONTO | CIRURGIA | SESCAD 151
ACIDENTES E COMPLICAÇÕES
EM ANESTESIA LOCAL
Sérgio Luiz Melo Gonçalves
Tariza Gallicchio Moreira (Colaboradora)
INTRODUÇÃO
O cirurgião-dentista é, entre os profissionais que atuam nas diversas especialidades médicas,
um dos que mais utiliza os anestésicos locais na prática diária. O emprego da anestesia
local, muitas vezes, é necessário para prevenir ou controlar a dor durante o tratamento
odontológico, seja em procedimentos ambulatoriais, clínicos ou cirúrgicos. Com o uso de
anestesia, é possível proporcionar ao paciente maior conforto e melhor controle da ansiedade.
É de vital importância ter em mente que a utilização de anestésicos é uma das
manobras mais invasivas realizadas pelo cirurgião-dentista, pois a droga injetada é
absorvida pela corrente sangüínea, biotransformada e eliminada.
Espera-se uma ação terapêutica da droga de acordo com a dosagem utilizada na anestesia.
Algumas vezes, porém, podem ocorrer intercorrências de ordem local ou sistêmica, que
exigirão uma ação rápida por parte do profissional. Essas intercorrências podem ir desde um
simples incômodo por parte do paciente até situações em que ele pode evoluir para óbito.
O profissional precisa estar apto para intervir nos momentos de intercorrência durante a
anestesia, ou seja, ele necessita, para um pronto diagnóstico, de conhecimento teórico e
prático dos sinais e dos sintomas apresentados pelo paciente. É importante, também, ter
medicamentos e materiais adequados e saber como e quando utilizá-los para uma correta
solução do problema.1,2
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152 ACIDENTES E COMPLICAÇÕES EM ANESTESIA LOCAL
OBJETIVOS
Ao final da leitura do presente capítulo, espera-se que o leitor seja capaz de:
\ufffd classificar os acidentes e as complicações existentes na prática da anestesia local em
ambiente ambulatorial;
\ufffd distinguir, entre as complicações da anestesia local, as que possuem manifestação
local e as que se manifestam sistemicamente;
\ufffd conhecer os métodos e as manobras importantes na prevenção de acidentes com
anestesia;
\ufffd revisar as características dos principais anestésicos locais existentes no mercado e suas
combinações ou não com os vasoconstritores;
\ufffd estabelecer as doses terapêuticas e o risco da superdosagem;
\ufffd perceber a importância da anamnese e da avaliação sistêmica do paciente, garantindo
a segurança e tranqüilidade durante a realização de procedimento com anestesia
local.
ESQUEMA CONCEITUAL
Alergia
Superdosagem ou dose tóxica
Fratura da agulha
Dor e ardência
Hematoma e equimose
Infecção
Edema
Trismo
Lesão de tecidos moles
Neuropraxia
Anestesia local
Caso clínico
Conclusão
Complicações não-sistêmicas em
anestesia local
Complicações sistêmicas em
anestesia local
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ANESTESIA LOCAL
A realização de procedimentos cada vez mais complexos e invasivos, sem proporcionar
desconforto ao paciente, só foi possível depois da descoberta da anestesia local. Por isso,
essa pode ser considerada uma das descobertas que mais marcaram a prática médico-
odontológica e pode ser comparada ao surgimento dos antibióticos.
A simples idéia de se realizar um procedimento com total supressão da dor revolucionou a
odontologia e a medicina. Os problemas associados à anestesia local, em contrapartida,
também vieram junto com essa revolução. Entre os possíveis problemas, estão complicações
decorrentes de erro de técnica, de armazenamento errado do anestésico ou da agulha, de
uma esterilização deficiente e, até mesmo, de reações alérgicas a algum componente conti-
do no tubete do anestésico. Tais reações alérgicas podem evoluir para o choque anafilático
e, conseqüentemente, a possibilidade de morte aumenta.
Os acidentes e as complicações devem ser evitados desde a fase pré-operatória. É na
anamnese que o cirurgião-dentista começa a conhecer o paciente, pesquisando sua história
pregressa, questionando sobre complicações passadas ou alguma predisposição que possa
existir em relação à reação alérgica.
As patologias do paciente devem ser pesquisadas, tais como hipertensão arterial, diabete,
coronariopatias, cardiopatias, hepatopatias e insuficiência renal. É necessário, caso haja algu-
ma patologia, pesquisar se o paciente está sob acompanhamento médico e se o problema
encontra-se compensado, ou seja, sob controle.
É fundamental encaminhar o paciente, caso perceba-se alguma alteração nos exames
laboratoriais ou haja suspeita de alteração sistêmica, a um especialista, para que
exames mais específicos e aprofundados sejam realizados. Depois de o paciente ser
tratado ou compensado, decide-se se ele será liberado para realizar o tratamento
odontológico.
As complicações em anestesia local serão divididas, no presente capítulo, em não-sistêmicas
e sistêmicas.
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154 ACIDENTES E COMPLICAÇÕES EM ANESTESIA LOCAL
COMPLICAÇÕES NÃO-SISTÊMICAS EM ANESTESIA LOCAL
As complicações não-sistêmicas que podem ocorrer durante a realização da anestesia local
são:
\ufffd fratura da agulha;
\ufffd dor e ardência;
\ufffd infecção;
\ufffd hematoma e equimose;
\ufffd edema;
\ufffd trismo;
\ufffd neuropraxia;
\ufffd lesão de tecidos moles.
FRATURA DA AGULHA
A ocorrência de fraturas da agulha, hoje em dia, não é tão comum se comparada há alguns
anos. Isso se deve ao fato de as agulhas serem descartáveis, isso é, não é mais admitido o uso
de agulhas esterilizáveis como no passado, quando as sucessivas esterilizações, ainda com
água fervente, levavam o metal da agulha à fadiga, favorecendo sua fratura durante a inje-
ção.
O que ainda pode levar, atualmente, à fratura da agulha é algum movimento brusco
do paciente durante a injeção, fazendo com que a agulha seja dobrada e quebrada.2
Ainda se encontra, embora seja um erro de técnica gravíssimo, a dobra proposital da agulha,
que alguns profissionais fazem para \u201cfacilitar\u201d a anestesia, principalmente do nervo alveolar
superior posterior (Figura 1). A área de menor resistência da agulha é exatamente junto ao
canhão (junção da agulha com a parte plástica que faz a adaptação à seringa Carpule) e é
nessa junção que ocorre a grande maioria das fraturas3 (Figura 2).
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Caso ocorra a fratura da agulha no interior do tecido, é importante que alguns
passos sejam seguidos:
\ufffd manter a calma acima de tudo;
\ufffd deixar o paciente com a boca aberta, colocar um bloco de mordida se esse
estiver acessível e identificar se a fratura ocorreu com a agulha toda no interior
do tecido ou se existe alguma ponta para fora;
\ufffd utilizar, caso exista essa ponta, uma pinça hemostática delicada, pinçar cuidado-
samente a porção visível da agulha e puxá-la para fora do tecido, solucionando
o problema. Mas, se a agulha estiver toda no interior do tecido, ela deverá ser
deixada lá. A tentativa de remoção da porção fraturada com incisão da mucosa
e divulsão dos tecidos aumenta o trauma local, inviabilizando a retirada;
\ufffd ter em mente que a agulha não será abordada de lado, mas sim por trás, onde
só uma porção referente ao seu diâmetro, que é muito pequeno, será palpável;
\ufffd Saber que a permanência de um fragmento da agulha no interior do tecido não
traz grandes conseqüências, e o acompanhamento radiográfico ou tomográfico
é suficiente2 (Figuras 3 e 4). Sua remoção em um segundo tempo cirúrgico irá
depender de avaliação posterior.
Figura 1 \u2013 Anestesia no nervo alveolar superior
posterior.
Fonte: Arquivo de imagens dos autores.
Figura 2 \u2013 Parte mais fraca da agulha.
Fonte: Arquivo de imagens dos autores.
Figura 3 \u2013 Raio X de perfil, mostran-
do agulha fraturada.