Contribuições da psicanálise à odontopediatria
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Contribuições da psicanálise à odontopediatria

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Fátima Cristina Monteiro de Oliveira

Contribuições da psicanálise à odontopediatria

É sempre natural pensarmos na odontopediatria como útil na prevenção de cáries ou de

problemas ortodônticos, e ela tem eficazmente contribuído muito neste sentido. Neste

artigo no entanto, pretendo desenvolver um assunto sobre o qual pouquíssimo se tem

escrito, que seria o quanto o profissional de saúde pode, através de um olhar

psicanalítico, atender a criança de modo a estar contribuindo profilaticamente para a

saúde psíquica desta e do adulto a devir. Esta correlação está embasada em um estudo

da psicanálise e clínica psicanalítica, bem como na clínica com pacientes

odontopediátricos e adultos com dificuldade de atendimento.

>Palavras-chavePalavras-chavePalavras-chavePalavras-chavePalavras-chave: Odontopediatria, psicologia, psicanálise, clínica

It is natural to regard pediatric dentistry as useful for preventing tooth decay and
treating other dental problems, and the field has certainly contributed much to

children’s health. In this article, however, the author discusses a subject on which very

little has been written, to wit, how dentists could contribute prophylactically to

children’s and adults’ psychological health through a psychoanalytic approach. Such

correlation is based on a study in psychoanalysis and on clinical psychoanalytic

practice, and is also backed up by many years of clinic practice with both pediatric

and adult patients with special difficulties in being treated.

>Key wordsKey wordsKey wordsKey wordsKey words: Pediatric dentistry, psychology, psychoanalysis, clinic

Introdução
Podemos encontrar na literatura alguns
trabalhos relacionando a psicologia à
odontopediatria. E eles são importantes,
pois nos orientam quanto à fase de desen-
volvimento da criança, e enquanto ciên-
cia que descreve as condutas esperadas
da criança em cada uma destas fases.
Porém, são o estudo e vivência da psica-
nálise que poderão nos orientar em como
conduzir as crianças sob nossos cuidados,

cada uma em sua individualidade, para
que no final do percurso tenhamos uma
criança segura e confiante, brincando
prazerosamente, apoderando-se da expe-
riência que viveu conosco.
Acredito que é na interface entre duas
ciências que muitas vezes encontramos o
crescimento – nosso e delas.
O propósito deste artigo é comunicar-lhes
o quão próximo de nosso trabalho estão
os textos psicanalíticos, e o quanto o seu

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estudo retornará a nós na nossa eficácia
clínica.
A partir da leitura da obra de Winnicott
(2000), médico pediatra inglês, que da
pediatria passou a dedicar-se à psicanáli-
se e estudar o desenvolvimento infantil,
obtive uma nova visão da consulta odon-
topediátrica, que a psicologia não havia
alcançado me dar. Neste artigo procuro
primordialmente estabelecer a correlação
tão próxima entre o trabalho deste autor
e as consultas odontopediátricas, e por-
tanto fica-nos enriquecedor sabermos como
conduzi-las de modo a estarmos contribuin-
do também para o desenvolvimento de
um ser humano seguro frente a interven-
ções médicas ou odontológicas. Este tra-
balho baseia-se no fato de que sabemos
o quão importantes são os primeiros es-
tágios do desenvolvimento da criança.
Precisamos definir no início deste traba-
lho o conceito de Winnicott (1975) de
“mãe suficientemente boa”, que seria
aquela mãe devotada ao seu bebê, na fase
de sua dependência absoluta, e “ambien-
te suficientemente bom”, que seria aque-
le ambiente que, por estar bem adequa-
do, adaptando-se a todas as necessidades
físicas e emocionais do bebê, propicia-lhe
o desenvolvimento de todo seu potencial,
herdado no sentido de se tornar um ser
humano com toda sua riqueza individual,
criatividade e saúde mental.
Minha hipótese aqui é que o profissional
de saúde, por estabelecer as primeiras
relações da criança fora do ambiente do lar,
terá muito mais chance de alcançar o que
é bom, natural e verdadeiro nesta crian-
ça se lhe propiciar uma maternagem, e
um ambiente suficientemente bom em
seu consultório. Citarei um texto do au-
tor acima, que tão bem se adapta ao nos-

so trabalho com crianças, e mesmo com
o paciente adulto: “O medo não é o instru-
mento mais adequado para estimular a
colaboração. É sempre um relacionamen-
to vivo entre duas pessoas que abre espa-
ço ao crescimento.”
O objetivo deste estudo é poder trabalhar
com a criança de modo a permitir-lhe vi-
venciar a segurança e confiança na rela-
ção com o profissional.
O profissional de saúde, seja ele pediatra
ou odontopediatra, por estabelecer com
a criança uma das primeiras relações fora
do ambiente do lar deve, à semelhança da
mãe, exercer uma função maternante.
Como não há duas crianças idênticas,
aquele que se propõe a cuidar delas deve
ter com as mesmas uma relação viva e in-
dividual para o que não basta a aplicação
de conhecimentos teóricos e técnicos.
Neste trabalho eu procuro demonstrar
que o odontólogo que trata de bebês e
crianças deverá assumir uma função
muito semelhante à função materna que
Winnicott (1975) chamou de função da
mãe suficientemente boa. Ele resume es-
tas funções em:
. Holding (segurar o bebê no sentido fí-

sico e emocional).
. Integração psique-soma, por meio do

bom cuidado físico.
. Apresentação de objetos, tornando

real os impulsos criativos da criança.
A partir da definição de cada uma destas
funções mostrarei o quão próximas se
encontram de nosso método de trabalho
com a criança, que resulta para ela em
segurança e confiabilidade.

HoldingHoldingHoldingHoldingHolding
Constitui-se na identificação viva com a
criança que, por algum tempo, permane-

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ce dependente em grau extremo. Pelo
holding, estaremos apoiando e contendo
a criança com suas ansiedades e adaptan-
do-nos às suas necessidades tanto emo-
cionais quanto fisiológicas. Por exemplo:
uma mãe quando vai pegar uma criança,
apóia instintivamente sua cabecinha e as-
sim a criança não tem a sensação de es-
tar caindo. A mãe está atenta à sensibili-
dade cutânea da criança (calor, frio). Ela
é capaz de se identificar com o bebê, de
apoiá-lo no que for necessário, de perce-
ber o que ele está sentindo. O holding
adequado permite a integração da crian-
ça, que podemos traduzir por sentir-se
inteiro, permitindo uma relação forte en-
tre psique e soma.
Não é difícil percebermos que ao agirmos
assim com nosso pacientezinho, estare-
mos dando-lhe condições de desenvolver
uma relação segura conosco. Precisamos
estar sempre atentos às necessidades da
criança, identificados com ela, com seus
medos, cuidadosos com sua sensibilidade
ao manipularmos sua cavidade oral, bus-
cando técnicas que não lhe causem dor.
Cito Winnicott:

Existe uma coisa que necessita especialmente

ser recuperada na prática médica. Ocorre que

o “cuidar-curar” é uma extensão do conceito

de segurar. Em termos da doença social “cui-

dar-curar” pode ser mais importante para o

mundo do que a cura do tratamento e do que

todo diagnóstico e prevenção que acompa-

nham aquilo que geralmente se denomina abor-

dagem científica. Será pedir muito ao clínico

que ele pratique o cuidar-curar? Sugiro que

encontremos no aspecto “cuidar-curar” de nos-

so trabalho profissional um