caracterizacao clinica ,metabolica e hormonal de portadores de lipodistrofia
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caracterizacao clinica ,metabolica e hormonal de portadores de lipodistrofia


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AGL 
Capacidade de armazenar 
gordura 
Menor Maior 
 RI: resistência insulínica; AGL: ácidos graxos livres 
 
O adipócito visceral, devido à sua menor capacidade de armazenamento 
lipídico, libera quantidade relevante de ácidos graxos livres, que se depositam de 
forma anormal em órgãos como fígado, pâncreas e músculo esquelético, 
acarretando disfunção mitocondrial e resistência insulínica nestes tecidos (22-24). 
Esse processo é denominado deposição ectópica de gordura e suas consequências 
metabólicas adversas são conhecidas como lipotoxicidade. A gordura visceral 
representa, assim, importante fator preditor de complicações associadas à 
resistência insulínica e síndrome metabólica, enquanto a gordura subcutânea, 
especialmente gluteofemoral, demonstra apresentar um efeito protetor do ponto de 
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vista metabólico (20-22,24). 
Esses aspectos, em conjunto, indicam a relevância clínica do tecido adiposo, 
extensamente estudado nos últimos 20 anos, não somente pelas condições 
associadas à sua disfunção, mas também pelo potencial terapêutico das adipocinas 
na abordagem dessas patologias (17,18). 
 
2.2 SÍNDROMES LIPODISTRÓFICAS 
 
No processo de descobertas científicas relacionadas ao tecido adiposo, 
emergiu o conhecimento de um grupo de doenças associadas à distribuição da 
gordura corporal que, embora raras, representam um modelo particular de estudo da 
biologia do adipócito. Esse grupo de doenças corresponde às lipodistrofias, 
condições que se caracterizam essencialmente pela perda, seletiva ou total, de 
tecido adiposo (1-6). Nas formas seletivas, associado à lipoatrofia, pode haver 
acúmulo anormal (hipertrofia) de tecido adiposo em outras regiões, também de 
forma variável (2-7,11). 
As síndromes lipodistróficas foram descritas na literatura há mais de 100 
anos, mas os progressos nos estudos de biologia molecular se tornaram mais 
evidentes nas últimas duas décadas, no intuito de elucidar suas bases genéticas. As 
lipodistrofias genéticas apresentam prevalência estimada menor do que 1 a cada 1 
milhão de casos detectados. Entretanto, especula-se que somente 1/4 dos pacientes 
sejam reconhecidos (2). 
A classificação dessas doenças é baseada na extensão ou padrão de perda 
de gordura (generalizada ou parcial/seletiva), assim como em seu caráter genético 
ou adquirido. Dessa forma, uma classificação simplificada permite destacar quatro 
subtipos: (i) lipodistrofia congênita generalizada (Síndrome de Berardinelli-Seip); (ii) 
lipodistrofia adquirida generalizada (Síndrome de Lawrence); (iii) lipodistrofia parcial 
familiar (LPF) e (iv) lipodistrofia parcial adquirida, destacando-se neste grupo a 
lipodistrofia mais frequente, associada ao tratamento antirretroviral em pacientes 
com vírus da imunodeficiência humana (HIV), e a Síndrome de Barraquer-Simons, 
de possível etiologia autoimune (2-7,11). 
A característica central das lipodistrofias é a perda do tecido adiposo 
subcutâneo e, com isso, são comuns resistência insulínica e alterações metabólicas 
a ela associadas, como diabetes mellitus, hipertrigliceridemia e esteatose hepática. 
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A gravidade das complicações metabólicas parece ser proporcional ao grau de 
perda da gordura subcutânea (2,3,7,9). No entanto, essas alterações metabólicas 
podem não estar presentes ou acontecer de forma leve em alguns subtipos de 
lipodistrofia, como na Síndrome de Barraquer-Simons (7,9). O quadro 2 apresenta, 
resumidamente, os aspectos clínicos das principais síndromes lipodistróficas. 
 
Quadro 2 - Classificação e aspectos clínicos das principais lipodistrofias (9) 
Classificação Etiologia Principais aspectos 
Lipodistrofias Genéticas 
1. Generalizada 
 
Síndrome de Berardinelli-Seip 
Mutações nos genes 
AGPAT2, BSCL2, PTRF e 
CAV1 
Lipodistrofia generalizada 
grave, acantose nigricans, 
hiperfagia, hiperlipidemia, 
hiperinsulinemia, diabetes 
2. Lipodistrofia Parcial Familiar 
 
Tipo 1 (Kobberling) Desconhecida 
Perda adiposa subcutânea em 
membros e glúteos; 
lipohipertrofia em regiões de 
face, pescoço e/ou tronco; 
diabetes e hipertrigliceridemia 
Tipo 2 (Dunnigan) Mutações no gene LMNA 
Tipo 3 Mutação no gene PPARG 
Tipos 4, 5 e 6 
Mutação nos genes AKT2, 
PLIN1 e CIDEC 
Lipodistrofias Adquiridas 
 
1. Generalizada 
 
Síndrome de Lawrence 
Desconhecida Ausência generalizada de 
tecido adiposo, resistência 
insulínica, diabetes, esteatose 
hepática 
Associada a paniculite 
2. Parcial 
Síndrome Barraquer-Simons 
Desconhecida Perda assimétrica da gordura 
subcutânea, desordens 
metabólicas leves 
 
Associada a autoimunidade 
Lipodistrofia associada ao HIV Drogas antirretrovirais 
Lipoatrofia periférica e face, 
lipohipertrofia dorsocervical e 
central, diabetes, dislipidemia 
 
Os instrumentos para classificação das lipodistrofias parecem simples e de 
fácil compreensão. Entretanto, nem sempre são suficientes para o reconhecimento 
23 
 
da doença, visto que se trata de um grupo heterogêneo tanto no quesito clínico (com 
padrões variáveis de perda adiposa e manifestações clínicas em um mesmo subtipo 
de lipodistrofia), quanto genético (7). Considerando as dificuldades diagnósticas e na 
tentativa de organizar achados clínicos que permitam o reconhecimento das 
lipodistrofias, foi desenvolvido um consenso pela Associação Americana de 
Endocrinologistas Clínicos, publicado no ano de 2013, e apresentado no Quadro 3 
(7). 
 
Quadro 3 - Características que aumentam a suspeita clínica das lipodistrofias (7) 
Característica central da lipodistrofia 
\uf0b7 Perda ou ausência de gordura 
Característica clínica central para a lipodistrofia parcial familiar 
\uf0b7 Perda da gordura subcutânea corporal, tipicamente próxima ou pouco depois da 
puberdade, em extremidades e/ou glúteos 
\uf0b7 Acúmulo de gordura em face, pescoço ou região intra-abdominal 
Características de suporte clínico para lipodistrofia 
\uf0b7 Presença de diabetes com evidência de resistência insulínica grave 
\uf0b7 Outras evidências de resistência insulínica grave 
- acantose nigricans 
- SOP ou sintomas de hiperandrogenismo, oligomenorreia e/ou ovários policísticos 
\uf0b7 Presença de hipertrigliceridemia 
\uf0b7 Evidência de esteatose hepática ou esteatohepatite 
\uf0b7 História familiar de aparência física semelhante e/ou história de perda adiposa 
\uf0b7 Musculatura proeminente e flebomegalia em extremidades 
\uf0b7 Hiperfagia 
\uf0b7 Hipogonadismo secundário (homens) ou amenorreia (mulheres) 
SOP: Síndrome dos Ovários Policísticos 
 
2.3 LIPODISTROFIA PARCIAL FAMILIAR 
 
Entre as lipodistrofias hereditárias, o subtipo parcial familiar tem sido alvo de 
diversas pesquisas, contribuindo para compreensão das funções metabólicas do 
tecido adiposo subcutâneo. A primeira descrição da síndrome de LPF foi realizada 
por Wier-Mitchell em 1885 (9). Quase 90 anos depois, foi identificado o primeiro 
gene relacionado à doença (o gene LMNA) e, desde então, foram identificados 
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outros genes associados à síndrome, permitindo classificar a LPF em seis subtipos 
principais. A maior parte dos pacientes apresenta padrão de herança autossômica 
dominante (2,3,6,9). A real prevalência da LPF não é bem estabelecida, por 
depender de casos esparsos relatados, dada a raridade da doença (9). Além disso, 
estima-se um provável subdiagnóstico desses pacientes (2,7). 
A LPF tipo 1 é também denominada síndrome de Kobberling, em alusão ao 
autor que a descreveu em 1975, caracterizando-a como perda significativa do tecido 
adiposo subcutâneo nos membros e glúteos em pacientes com diabetes e 
hipertrigliceridemia. Trata-se de entidade rara, com menos de 20 casos descritos na 
literatura e ainda não