A (clínica) e a Reforma Psiquiátrica   Paulo Amarante
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A (clínica) e a Reforma Psiquiátrica Paulo Amarante


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A (clínica) e a Reforma Psiquiátrica
Paulo Amarante
Publicado in Archivos de Saúde Mental e Atenção Psicossocial, pp. 45-65. Rio de
Janeiro: Editora NAU.
Em ocasião anterior, refleti sobre a questão da clínica no contexto da reforma
psiquiátrica brasileira a partir de duas proposições que então me intrigavam bastante1. A
primeira é relacionada ao fato de que alguns autores e atores consideram o processo de
reforma psiquiátrica tão-somente uma reestruturação do modelo assistencial psiquiátrico. A
segunda, relativa à afirmação de que as experiências de reforma psiquiátrica -
particularmente quando fundamentadas na tradição inaugurada por Franco Basaglia -
descuida-se da questão da clínica, privilegiando apenas a relação e/ou as transformações
sociais e políticas. O presente texto é um desdobramento daquele, procurando contribuir
com novas reflexões.
A partir deste escopo, a primeira questão a debater diz respeito ao conceito de
reforma psiquiátrica. É possível constatar, muito freqüentemente, que, o que se entende por
reforma psiquiátrica é uma simples reestruturação do modelo assistencial psiquiátrico. Uma
definição desta ordem, que reduz reforma psiquiátrica à mera reorganização de serviços,
certamente sugere o equívoco de apontar para a experiência iniciada por Franco Basaglia
acusando-a de haver-se descuidado da clínica, privilegiando apenas as relações e/ou as
transformações sociais e políticas.
Se tanto autores quanto técnicos consideram o que se denomina por reforma
psiquiátrica como um processo restrito à reorganização de serviços, vinculando-a a pura
 
1 O presente capítulo é um desdobramento de um outro que escrevi para uma coletânea organizada por meu
amigo Antônio Quinet (2001), a quem dedico este artigo, por seu papel também pioneiro na luta contra a
opressão e a violência dos manicômios e do sistema psiquiátrico brasileiro.
reestruturação do modelo assistencial psiquiátrico, pode-se concluir, em outras palavras,
que consideram reforma psiquiátrica sinônima de modernização das técnicas terapêuticas. É
comum ainda ver-se considerá-la como humanização das características violentas e
perversas da instituição asilar, o que constitui uma luta e uma transformação muito
importantes, mas que certamente reduz a amplitude do processo em questão.
Devo admitir que, ao termos adotado a expressão reforma psiquiátrica num
momento em que o termo era muito pouco conhecido e praticamente não utilizado \u2013 por
ocasião do início da pesquisa \u201cA Trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil\u201d que deu
origem ao livro Loucos pela vida \u2013 contribuímos em parte para criar a confusão que ora se
estabelece. De fato, o termo \u201creforma\u201d implica em algumas limitações e favorece a mal
entendidos, uma vez que, historicamente, tem sido associado à idéia de transformações
superestruturais, superficiais, sem consistência ou profundidade.
Por outro lado, a famosa \u201cDeclaração de Caracas\u201d (OPAS, 1992), por exemplo,
adotou o termo reestruturação da assistência psiquiátrica, que passou a ser utilizado de
forma genérica e que poderia ter o significado de um \u201cre-arranjo\u201d da instituição tradicional,
sem qualquer atitude crítica ao modelo epistemológico constituinte da psiquiatria. Este
documento contribuiu substancialmente para a redução do conceito de reforma psiquiátrica
ao que se denomina de reformismo, que nas palavras de Ana Tereza M.C. da Silva (2003),
significariam meros reparos no modelo de assistência psiquiátrica tradicional.2
É certo, enfim, que a expressão \u201creforma\u201d poderia ser facilmente associada à
\u201cmudanças de aparências\u201d, mas não a mudanças de/nas estruturas. Os conceitos de
aggiornamento e metamorfose, tal qual propostos por Robert Castel (1978a, 1978b, 1978c,
1987), destacam bem a idéia de uma transformação que não altera a essência das coisas:
mudar permanecendo o mesmo!
No entanto, conforme a proposição de Sônia Fleury Teixeira e colaboradores do
Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde (NUPES/FIOCRUZ) (Teixeira et col, 1989),
uma reforma não necessitaria ser algo meramente conservador. Pode-se avançar no sentido
 
2 Uma outra observação se refere ao fato de que em muitos textos brasileiros é freqüente a referencia a
Declaração de Caracas como o evento disparador do processo de reforma psiquiátrica brasileira. Esta postura
não considera a realização da I Conferencia Nacional de Saúde Mental, 1987 (convocada a partir da histórica
8a. Conferência Nacional de Saúde), do II Congresso de Trabalhadores de Saúde Mental em Bauru, quando o
Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental sofreu a profunda transformação política e epistemológica
de uma reforma estrutural, com um expressivo núcleo de subversão às condições da
relação saúde-Estado.
Já o termo revolução, muito mais forte e de significados bem mais radicais, não
seria conceitualmente equivocado. Thomas Kuhn (1975) utilizou-o para referir-se a uma
superação paradigmática e Felix Guattari (1986) para expressar uma transformação radical
do saber e da prática psiquiátrica, o que, certamente, seria mais adequado à pretensão (e não
necessariamente à aplicação) do projeto da reforma psiquiátrica brasileira no contexto atual.
No Brasil, a expressão Reforma Sanitária passou a ser mais amplamente utilizada
após a 8a Conferência Nacional de Saúde, passando a constar obrigatoriamente da agenda
política do Movimento Sanitário. Por extensão, e com a mesma dimensão estratégica, isto
é, voltada para a construção de viabilidade política e social, passamos a adotar, desde 1989,
a expressão Reforma Psiquiátrica em nossa pesquisa desenvolvida na FIOCRUZ.
Desde então, venho me empenhando \u2013 com a colaboração das pessoas que comigo
têm pesquisado e trabalhado no Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e no
programa de pós-graduação em Saúde Mental da mesma FIOCRUZ - em construir uma
concepção de reforma psiquiátrica que transmita o sentido de superação da idéia de
aggiornamento e metamorfose. Isto é, que supere a noção de uma simples reforma
administrativa ou técnica do modelo assistencial psiquiátrico, tal qual abordamos logo no
início do texto. Nunca é tarde, ou demais, para assinalar que esta tendência de
modernização do modelo psiquiátrico teve sua origem e fundamentação nas políticas de
desinstitucionalização desenvolvidas nos EUA. Basaglia em sua Carta de Nova York
(1981b) e Rotelli, em Desinstitucionalização, uma outra via (1990) nos demonstraram as
conseqüências deste modelo que o último denominou de a psiquiatria reformada.
Uma nova conceituação de Reforma Psiquiátrica: as quatro dimensões
A partir do conceito de reforma sanitária como um processo de transformação
estrutural (desenvolvido por Sônia Fleury Teixeira e colaboradores, 1989), e da noção de
processo social complexo (Franco Rotelli, 1990), passamos a dispor de uma amplitude e
 
em Movimento por uma Sociedade Sem Manicômios e, talvez fundamentalmente, da também histórica
experiência de Santos (sobre esta experiência ver Reis, 1998).
uma dinâmica inovadoras na compreensão e construção do conceito de reforma
psiquiátrica.
Um processo indica algo em permanente movimento, que não tem um fim
predeterminado, nem um objetivo último ou ótimo. Aponta para a constante inovação de
atores, conceitos e princípios que marcam a evolução da história. Um processo social nos
assinala que existem atores sociais envolvidos e, enquanto tal, que existem interesses e
formulações em conflitos, em negociações. E, enfim, um processo social complexo se
configura na e pela articulação de várias dimensões que são simultâneas