A coruja era filha do padeiro -  Woodman
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A coruja era filha do padeiro - Woodman


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A CORUJA ERA 
FILHA DO PADEIRO 
Obesidade, Anorexia Nervosa e o Feminino Reprimido 
Marion Woodman 
Uma antilla lenda inglesa, que inspirou o título deste livro, narra o 
seguinte: 
"Nosso Salvador entrou numa padaria onde o pão estava sendo feito 
e pediu que lho dessem, A mulher do padeiro pôs de imediato um pedaço 
de massa no fomo para assar e lhe oferecer. Mas sua filha a censurou, in· 
sistindo que o pedaço de massa era grande demais e deixou-lhe apenas um 
pedacinho. A massa, contudo, passou no mesmo momento a crescer, alcan-
çando um tamanho descomunal. Diante disso, a ftIha do padeiro exclamou: , 
'IHu, hu, hu", som semelhante ao da coruja, o que provavelmente induziu 
Nosso Salvador a transformá-la, pela sua maldade, nessa ave." 
A Coruja era Filha do Padeiro é, segundo a sua autora, "um estudo 
das agonias da obesidade e de suas causas psíquicas e somáticas". É um 
livro que oferece a oportunidade para se perceber muito nitidamente o 
relacionamento entre o processo de individuaç:ro de uma mulher e seu 
estado corporal. 
Através da análise de casos e com uma avançada pesquisa Marion 
Woodman apresenta a evidência de que a obesidade e a anorexia nervosa 
são os dois sintomas extremos da repressão geral da natureza do feminino 
em nossa cultura e sugere maneiras práticas para que o princípio femi-
nino encontre o espaço que lhe tem sido negado e expresse com autenti-
cidade a sua verdadeira essência. 
Marion Woodman é analista junguiana formada pelo Instituto C. G. 
Jung de Zurique, 
EDITORA CULTRIX 
MARION WOODMAN 
A CORUJA ERA FILHA DO PADEIRO 
Obesidade, Anorexia Nervosa 
e o Feminino Reprimido 
Traduç4b 
ADAIL UBIRAJARA SOBRAL 
EDITORA CULTRIX 
SÃO PAULO 
T(tulo do originai: 
The Owl Was a Baker's Daughter 
Obesity, Anorexia Nervosa and 
The Repressed Femlnine 
Copyright © 1980 by Marion Woodman. 
couçÃO ESTUDOS DE PSICOLOGIA 
JUNGUIANA POR ANAUSTAS JUNGUlANOS 
Capa: Face anter~r da pedra de Bollingen, esculpida por C. G. 
Jun~. ~ pequena figura no centro é a pupila (você mesmo) que 
voce ve. no olho. de outra pessoa. A inscrição grega, traduzida por 
Jung, d!z o segwn~e: "O tempo é uma criança - brincando como 
uma ~nança - bnncando sobre um tabuleiro de xadrez - o reino 
da cnanç~. ~ Telésforo, que erra pelas regiões sombrias do cos-
~o~ e brIlha. como uma estrela elevando-se das profundezas. Ela 
mdlca o .cammho para as portas do sol e para a terra dos sonhos." 
(Memories, Dreams, ReflectioM, p. 227.) 
ICdlçAo Ano 
1·2-3·4-5-8· 7 -8-a-lO 91-92-93·94-95 
Direitos d~ t.radução para a língua portuguesa 
adqumdos com exclusividade pela 
EDITORA CULTRIX LTDA 
Rua Dr. Mário Vicente, 374 - 04270 - São Paulo: SP - Fone: 272-1399 
que se reserva a propriedade literária desta tradução. 
Impresso nas oficinas gráficas da Editora Pensamento. 
Sumário 
Introduçlfo ...................................... . 
Capítulo I - Fundamentos Experimentais ..... ............ . 
Obesidade Primária e Secundária ................... . 
O Experimento de Associação de C. G. Jung ........... . 
O Experimento de Associaça:o e a Obesidade ........... . 
Complexos e Características de Personalidade .......... . 
Conclusões ................................. . 
Capítulo n -O Corpo e a Psique ..................... : .. 
O Metabolismo do Corpo ........................ . 
Algumas Concepções Contemporâneas da Obesidade ...... . 
Como o Stress Influencia a Obesidade. . .............. . 
Efeitos Patológicos do Medo e da Raiva .............. . 
Abordagens Clínicas da Obesidade .................. . 
O Conceito Junguiano de Psique e Corpo ............. . 
Capítulo 1lI - Três Casos de Estudo ..................... . 
Margaret ................................... . 
Anne ..................................... . 
Katherine .................................. . 
Capítulo N - A Perda do Feminino ..................... . 
O Complexo Paterno ........................... . 
O Complexo Matemo .......................... . 
Os Complexos Alimentar, Sexual e Religioso ........... . 
Capítulo V - A Redescoberta do Feminino ................ . 
O Culto nos Mistérios de Dioniso ...... . ............ . 
ADança .............. ..................... . 
O Cristianismo e o Feminino. . . . . . . . .............. . 
Notas ........ .......... .... .. ................. . 
Glossário de Termos Junguianos ....................... . 
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .... . 
fudice Analítico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .............. . 
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Introdução 
Stone Walls do not a Prison make, 
Nor lron bars a cage. 
- Lovelace, To Althea, from Prison 
[Muros de Pedra não fazem uma PrisãoJ 
Nem barras de Ferro uma cela.] 
A corpulência já teve conotações de felicidade. As pessoas "riam 
e engordavam"; os poucos mais afortunados "viviam na abundância" 
e os inúmeros menos afortunados invejavam os "gatos gordos". Em cul-
turas menos opulentas do que a nossa, a noiva roliça ainda vale seu pe-
so em ouro. Na China e no Japã'o, quem tem o ventre proeminente é 
respeitado ' e admirado como pessoa intrinsecamente bem fundada. Na 
sociedade ocidental, contudo, as conotações sã'd opostas. Quem tem 
100 quilos "parece uma baleia em festa de lambaris" e as gordas tém 
vergonha de andar por aí "com sua neurose balançando". ~ verdade 
que algumas mulheres se orgulham de sua gordura e não têm problemas 
com seu volume. Este livro não trata delas; é um estudo das agonias 
da obesidade e de suas causas psíquicas e somáticas. 
Nenhuma fórmula mágica ou científica fez até agora uma incur-
são no problema cada vez mais acentuado da obesidade. Fiz das minhas 
descobertas experimentais a mais cuidadosa documentação possível, 
citando na íntegra os diálogos, na esperança de tomar consciente o mundo 
interior da obesa. Cada uma dessas mulheres é uma pessoa, mas tam-
bém é uma obesa. A consciência nem sempre resolve o problema, mas 
pode tomar o sofrimento significativo. 
Muitos dos comentários feitos pelas obesas durante o Experimento 
de Associação (detalhado no capítulo I) poderiam ter vindo de mulheres 
de peso normal. As mulheres que pensam, na cultura ocidental do século 
XX, têm muito em comum. A neurose, contudo, manifesta-se de ma-
neira demasiado palpável na obesa. Este estudo enfoca a combinação 
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particular de fatores que produz esse sintoma específico que atinge 40% 
das mulheres americanas. 
Ao pensar sobre a personagem que melhor personifica essa com-
binação especial, lembrei-me repetidas vezes de uma frase de Hamlet: 
"Como alguém inconsciente da própria desgraça", ["As one incapable 
of her own distress"]. Veio-me ent[o a imagem de Ofélia cantando para 
as flores, flutuando corrente abaixo, sustentada pelas roupas espalhadas, 
mantida acima das águas que a estavampestruindo. Vi nessa ''bela dama", 
sepultada em suas vestes de cortesã, uma princesa adormecida num cor-
po obeso. 
Ofélia não tinha mãe, tendo crescido numa corte que impunha 
um certo código de comportamento. Apaixonou-se por um príncipe 
destinado a ser rei. Enquanto a realidade não lhes ameaçou o pequeno 
paraíso, Ofélia e Hamlet puderam amar-se. Mas quando "coisas gros-
seiras ' e brutais" ["things rank and gross"] de súbito destroem o seu 
jardim e Lord Hamlet põe-se a perscrutar o rosto da amada, encontra 
nele uma criança desprovida de recursos interiores para ser fiel a si mes-
ma e, menos ainda, a ele. Quando a noite seguiu ao dia, ela só pôde fa-
zer aquilo que o seu pai exigira - representar um papel como sua ma-
rionete -, traindo inconscientemente a mulher que ela jamais encon-
trara em si mesma e agindo com falsidade diante