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Artigo Cegueira Deliberada

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uma	condicional	 relativa	à
alta	probabilidade	de	ocorrência	criminosa,	o	que	pode	ser	visto,	claramente,	no	caso	Turner	vs.	United	States. 21
Entretanto,	costuma-se	afirmar	que	a	construção	mais	firme	e	reconhecida	da	cegueira	deliberada	é	encontrada
somente	a	partir	do	caso	United	States	v.	Jewell.	Nele,	que	correu	perante	o	9.º	Circuito	Federal, 22	fica	evidente	a
equiparação	de	um	conhecimento	esperado	com	a	noção	de	escolhas	que	impliquem	em	alta	probabilidade	de	sua
ocorrência.	 Tratou-se	 do	 evento	 de	 um	 acusado	 –	 Jewell	que	 havia	 sido	 condenado,	 em	 primeiro	 grau,	 por	 ter
cruzado	 a	 fronteira	 do	 México	 com	 os	 Estados	 Unidos	 transportando	 110	 libras	 de	 marijuana	 em	 um
compartimento	secreto	de	seu	carro.	Sua	alegação	foi	de	que	não	sabia	exatamente	o	que	transportava,	apesar	de
reconhecer	saber	que	deveria	ser	algo	ilegal.	Isso	modificou	o	entendimento	sobre	o	que	seria	visto	como	cegueira
deliberada. 23	A	partir	daí,	tudo	passa	a	se	centrar	nas	noções	de	probabilidade,	consoante	a	regra	do	Model	Penal
Code,	2.02(7). 24
Mais	recentemente,	outro	passo	bastante	interessante	foi	dado,	em	especial	com	o	caso	Global-Tech	v.	SEB	S.A.,	de
2011.	 Nele,	 nota-se	 uma	 desmedida	 ampliação	 do	 conceito,	 que,	 agora,	 tem	 absolutamente	 flexibilizado	 o
entendimento	 quanto	 ao	 que	 se	 poderia	 ter	 por	 conhecimento,	 vale	 dizer,	 a	 base	 para	 a	 possibilidade	 de
imputação	na	common	law. 25	Tais	considerações	acerca	da	 linha	evolutiva	da	willful	blindness	doctrine	 levam	a
duas	 sortes	 de	 percepção.	 A	 primeira	 é	 de	 que,	 embora	 presente	 na	 realidade	 da	 common	 law,	 a	 cegueira
deliberada	mostra-se	em	uma	dimensão	multifária,	podendo	ser	tida	de	modo	diferente	em	diversas	jurisdições,
ainda	que	relativamente	aplicável	a	casos	de	lavagem	de	dinheiro.	A	segunda,	e	mais	fundamental,	diz	respeito	ao
fato	de	que	a	cegueira	deliberada	não	diz	respeito	a	um	simples	fechar	de	olhos	acerca	de	um	fato	possível.	Diz,
sim,	respeito	a	uma	forma	de	se	traçar	um	equivalente	do	conhecimento,	baseado	em	uma	alta	probabilidade	da
presença	 deste.	 E,	 recorde-se.	 É	 o	 conhecimento,	 e	 não	 um	 querer,	 que	 se	 mostra	 como	 basilar	 para	 a
possibilidade	de	imputação	em	termos	da	common	law.	Tanto	isso	parece	ser	verdade,	que,	de	fato,	não	se	duvida,
como	 destaca	 Kaenel,	 da	 possibilidade	 de	 que	 a	 alta	 probabilidade	 de	 conhecimento	 sobre	 o	 ilícito	 possa	 ser
utilizada,	 até	 mesmo,	 para	 situações	 de	 lavagem	 de	 dinheiro, 26	 apesar	 das	 dificuldades	 inerentes	 de	 prova
relativa	à	mens	rea. 27
Verifica-se,	 assim,	 uma	 certa	 vagueza	 na	 presença	 da	 primeira	 premissa	 colocada,	 na	 medida	 em	 que	 a
conceituação	 de	 cegueira	 deliberada	 não	 é	 tão	 precisa	 quanto	 se	 pretende	 fazer	 crer	 em	 um	 seu	 simples
transplante	à	realidade	brasileira.	No	entanto,	como	a	segunda	premissa,	que	diz	respeito	à	sua	aplicabilidade	em
face	 do	 crime	 de	 lavagem	 de	 dinheiro	 (sempre	 na	 dimensão	 da	 common	 law)	 é	 presente,	 ainda	 não	 se	 pode
concluir	pela	sua	legitimidade,	ou	não.	Outras	considerações	se	fazem	necessárias.
3.	A	utilização	do	instituto	da	cegueira	deliberada	na	realidade	espanhola
É	 bastante	 comum,	 como	 se	 nota	 dos	 julgamentos	 derivados	 da	Operação	 Lava	 Jato,	 a	menção	 de	 julgados	 da
realidade	 espanhola	 acerca	 da	 cegueira,	 lá	 vista	 como	 ignorância	 deliberada,	 para	 procurar	 legitimar	 seu
emprego	 em	uma	 realidade	 como	a	brasileira.	 Esse	pensamento	 guarda,	 contudo,	 também	um	parcial	 acerto	 e
uma	parcial	falácia.
Fundamental	 ter-se	 presente	 um	 dos	 principais	 alertas	 quando	 se	 estuda	 legislação	 comparada.	 Não	 se	 pode,
nunca,	simplesmente	ter	a	referência	da	previsão	da	norma	estrangeira,	como	se	dissesse	ela	respeito	à	mesma
ordem	 de	 coisas	 que	 a	 legislação	 nacional.	 Veja-se,	 dessa	 forma,	 que	 a	 leitura	 do	 tipo	 penal	 da	 lavagem	 de
dinheiro,	na	Espanha,	compreende	o	entendimento	acerca	da	expressa	previsão	relativa	à	 incidência	do	que	se
poderia	ter	por	dolo	direto	e	de	dolo	eventual,	o	que	se	mostra	muito	diverso	da	legislação	nacional	(na	qual	resta
dúvida	sobre	a	extensão	ao	dolo	eventual).	Tem-se,	por	evidente,	que	a	simples	menção	da	legislação	estrangeira
não	 referenda	 e	 não	 é	 tão	 simples	 para	 justificar	 o	 pretendido,	 pois	 o	 seu	 teor	 é	 diverso	 do	 que,	 no	 Brasil,	 se
encontra.	Visto	isso,	de	se	passar	a	uma	mais	acurada	visão	dos	precedentes	judiciais	espanhóis	apontados.
Diga-se,	assim,	e	por	primeiro,	que,	de	fato,	existem	precedentes	judiciais	espanhóis	a	respeito	do	paralelismo	com
a	 cegueira	 deliberada.	 Aqui,	 a	 parcial	 verdade.	 Diz-se	 parcial	 verdade,	 pois,	 existem,	 sim,	 inúmeras	 menções
dessas	decisões,	e	sob	a	égide	de	um	sistema	de	civil	law.	Ragués	I	Vallès	menciona,	nesse	particular,	que	enquanto
se	dava	boa	parte	das	discussões	sobre	a	willful	blindness	doctrine	nos	Estados	Unidos	da	América,	 teve-se	uma
verdadeira	importação	de	seus	predicados,	notadamente,	na	Segunda	Sala	do	Tribunal	Supremo	na	Sentença	de
10.12.2000. 28	Posteriormente,	verificam-se	outras	decisões	como	as	STS	de	16.10.2000,	STS	de	22.05.2002,	ou	STS
de	04.07.2002.	Tinha-se,	então,	a	ideia	da	cegueira/ignorância	como	um	indício	do	chamado	dolo	eventual,	até	o
ponto	em	que	a	cegueira/ignorância	deliberada	ganha	vida	própria,	mostrando-se	um	real	substituto	do	próprio
dolo	eventual,	como	observa	na	STS	de	19.01.2005.	Mais	recentemente,	ainda	se	verificam	outras	decisões,	como
STS	de	15.11.2011,	em	que	isso	parece	se	firmar.	Mesmo	assim,	e	com	mais	de	200	decisões	já	mencionando	sua
aplicação,	ainda	nota-se,	também	por	lá,	certa	dose	de	reticências	em	seu	emprego. 29
Fundamentalmente,	que	 se	diga	que	a	 jurisprudência	 espanhola	 cuida,	hoje,	 da	questão	de	modo	a	 entender	a
cegueira	deliberada	como	uma	forma	distinta	do	dolo	direto	ou	eventual.	Seria,	assim,	um	 tertiun	genus, 30	que
complementaria	 uma	 zona	 cinzenta	 do	 próprio	 dolo	 eventual. 31	 A	 problemática,	 explica	 Piña	 Rochefort,	 dá-se
pelo	 fato	 das	 próprias	 dificuldades	 sentidas	 acerca	 da	 distinção	 entre	 dolo	 eventual	 e	 culpa	 consciente.	 Ora,	 o
sistema	 de	 common	 law	 não	 possui	 um	 sistema	 valorativo	 equivalente	 ao	 dolo	 eventual	 continental,	 logo,
impossível	 seria	 afirmar-se	 que	 a	 cegueira	 deliberada	 se	 portaria	 como	 se	 dolo	 eventual	 fosse.	 Para	 o	 autor,	 a
ideia	de	noção	e	previsibilidade	é	sempre	levada	em	conta	na	distinção	entre	intenção	e	irresponsabilidade,	o	que
faz	 cair	por	 terra	a	pretensa	equiparação. 32	 Levada	 em	 conta.	 Sob	 tais	 considerações,	 poder-se-ia	 indagar	 se	 o
sistema	 de	 civil	 law	 espanhol	 seria	 absolutamente	 compatível	 com	 o	 sistema	 brasileiro?	 Diga-se,	 desde	 já:
aparentemente,	não.
Essas	 considerações	 não	 são	 feitas	 pela	 jurisprudência	 nacional,	 o	 que	 se	 mostra	 bastante	 problemático,	 pois
passa-se	a	 impressão	de	que	o	acoplamento	seria	automático.	 Ignorou-se,	v.g.,	 tal	ponderação	na	paradigmática
decisão,	junto	ao	Supremo	Tribunal	Federal,	da	AP	470,	e	também	assim	o	fez	na	mencionada	sentença	da	Ação
Penal	502612-82.2014.404.7000.	Recorde-se	que,	nesta	última,	já	destacava-se	a	assertiva,	segundo	a	qual
(...)	são	aqui	pertinentes	as	construções	do	Direito	anglo-saxão	para	o	crime	de	lavagem	de	dinheiro	em	torno	da
"cegueira	 deliberada"	 ou	 “willful	 blindness”	 e	 que	 é	 equiparável	 ao	 dolo	 eventual	 da	 tradição	 do	 Direito
Continental	europeu	(...).	Em	síntese,	aquele	que	realiza	condutas	típicas	à	lavagem,	de	ocultação	ou	dissimulação,
não	elide	o	agir	doloso	e	a	sua	responsabilidade	criminal	se	escolhe	permanecer	ignorante	quando	a	natureza	dos
bens,	 direitos	 ou	 valores	 envolvidos	 na	 transação,	 quando	 tinha	 condições	 de	 aprofundar	 o	 seu	 conhecimento
sobre	os	fatos.
Note-se	que,	aqui,	a	colocação	limitou-se	a	uma	consideração	genérica	presente	no	caso