Texto sobre a 5 onda
7 pág.

Texto sobre a 5 onda


DisciplinaAdministração nas Organizações4 materiais133 seguidores
Pré-visualização3 páginas
\u201cO que será que será\u2026 Que anda nas cabeças, anda nas bocas, que sonham os poetas mais delirantes\u2026 Que gritam nos mercados que com certeza, está na natureza. Chico Buarque em \u201cO que será?\u201d Será que será ?.\u201d
\u201cAqueles que não usarem a razão/Morrerão ao agir
W. H. Auden
O leitor típico de Você S.A. vai passar a maior parte de sua vida num mundo completamente diferente daquele que eu conheço. Como nem eu nem ninguém entende ainda esse futuro (que já está aí), o que se pode dizer de útil sobre ele?
O que dizem é que o profissional do amanhã será \u201cgerente dele mesmo\u201d; que ligações \u201cpara sempre\u201d (empregos para a vida toda) vão acabar; que no futuro, você estará constantemente entrando e saindo de projetos temporários, para os quais será convidado por sua capacidade e conhecimento. Você vai ser o empreendedor de si mesmo.
O futuro valorizará cada vez mais o trabalhador da inteligência, é o que se fala e, se isso estimula, também amedronta: que inteligência é essa? Como será esse futuro?
Há muito papo furado no mundo das empresas. Valoriza-se muito o \u201cfalar bem\u201d, falar bonito, impressionar em reuniões usando poses verbais pseudo-eruditas; mas administrar é fazer a ação se instaurar; é inspirar para a ação e fazê-la acontecer. Já que você é o administrador de sua própria vida, cuidado com palavreado vazio: a idéia tem que levar à ação, senão não vale nada\u2026
Falar do futuro? Claro, não existe outro tema.
Dá para falar do amanhã sem a tola pretensão de prevê-lo?
Tem que dar. Para poder agir você tem que ter alguma paisagem do futuro na cabeça. Dizer simplesmente que teremos de saber \u201cgerenciar o conhecimento\u201d, o \u201ccapital intelectual\u201d ou mesmo a \u201cinteligência\u201d, é dizer muito pouco.
Inteligência e futuro sempre estão interligados.
O neurofisiologista William Calvin diz que inteligência tem a ver com a capacidade de antecipar; de planejar cursos de ação até então inéditos, ensaiando-os na mente antes de agir. Não tem que ser necessariamente nada de muito sofisticado não. Num nível bem primário, inteligência é a capacidade que você exercita quando abre a geladeira e pensa no que terá de sair para comprar, para poder preparar um jantar a partir das sobras do almoço. Quando você inventa uma ordem nova a partir de coisas com as quais nunca tinha se deparado.
É esse o talento que têm os poetas ao fazer arranjos de palavras que nos arrebatam com significados intensos, e também o dos grandes chefs de cozinha ao nos surpreenderem com combinações originais de ingredientes. Músicos, escritores, pintores idem. Jean Piaget define inteligência como o sofisticado ato de tatear que se usa quando não se sabe ao certo o que fazer. Inteligência tem a ver com o improviso. É o processo de improvisar e refinar o improviso.
Inteligência sempre tem a ver com olhar para a frente de forma criativa e visualizar o que não é óbvio. Tem sempre a ver com um futuro construído dentro de nossas cabeças.
Se não há como prever detalhes da paisagem do amanhã, já é possível vislumbrar sua silhueta. Não se trata de bola de cristal, mas de idéias que darão o tom do que virá. Comecemos do começo.
1- Você já está surfando na quinta onda
Você tem duas opções: ou caminha para o futuro com suas próprias pernas ou vai rebocado para lá. A primeira opção é muito melhor, e o primeiro passo é entender onde você está. Um economista chamado Joseph Schumpeter disse que uma economia saudável é a que constantemente rompe o equilíbrio através da inovação tecnológica. Em vez de ficar buscando otimizar o que está aí, a atitude produtiva é a de inovar através do que ele chamou \u201cdestruição criativa\u201d. Isso é que abriria oportunidades para o crescimento. Essa idéia tem tudo a ver conosco.
Na visão de Schumpeter, os ciclos em que o mundo viveu no passado foram determinados, todos eles, por atividades diferentes. Se você fosse um jovem de visão no final do século 18, provavelmente estaria pensando em seguir carreira em algo ligado à energia hidráulica, ou à indústria têxtil ou à indústria do ferro. Alguém buscando um emprego de prestígio a partir da segunda metade do século 19 pensaria em máquinas a vapor, estradas de ferro ou aço; na virada do século seria eletricidade, indústria química ou motores de combustão interna.
Cada onda dessas estimulava investimentos e expansão da economia. À medida que a tecnologia amadurecia e os investimentos demoravam mais para dar retorno, as oportunidades começavam a diminuir. O boom inicial arrefecia e era substituído por uma nova onda de inovação que acabava com a maneira antiga de se fazer as coisas e criava as condições para um novo boom.
O motor da mudança para Schumpeter é sempre o empreendedor: é ele que age como fermento no processo de \u201cdestruição criativa\u201d, permitindo que a economia renove a si mesma e um novo ciclo comece.
Por volta de 1950 o terceiro ciclo de revoluções sucessivas já tinha ocorrido. A quarta onda, que tinha a ver com petroquímica, eletrônica, aviação e produção em massa veio em seguida e, se já não acabou, está no finalzinho.
As ondas de Schumpeter estão encurtando (de 50-60 anos para 30-40), e tudo indica que a quinta onda \u2014 a sua onda, leitor \u2014 já avançou um bocado; provavelmente já está até aproximando-se da maturidade. É nela que você já está surfando. Dê uma olhada na figura. Daqui a vinte anos o ciclo atual estará terminando; você estará na maturidade de sua competência e, provavelmente, trabalhando em algo ligado a redes/software/mídia/entretenimento/realidades virtuais. O fato central é a Internet. Sabemos que estamos decolando rumo a algo mas não sabemos ainda o que é. Vamos tentar delinear melhor esse \u201calgo\u201d.
2- Comunicação é o nome do jogo
Comunicação é uma idéia transcendental. Foi o impulso de se comunicar que criou a vida; comunicação é a essência da vida na Terra (e fora dela, se houver, aposto).
A quinta onda é a tecnologia interconectando cada vez mais coisas cada vez mais longe e, assim, tornando possível uma inundação de comunicação. Ao fazer isso ela cria uma espécie de sistema nervoso para o planeta inteiro. A economia está virando um super-organismo.
As características do que está ocorrendo são radicalmente novas, mas o processo em si não tem nada de original \u2014 é apenas a manifestação atual de uma longa história, que vem se desenrolando a bilhões de anos. Não me peça detalhes do que vai acontecer, mas a tecnologia está trazendo o biológico para o primeiro plano das idéias. O mundo que está acabando é inspirado na precisão dos mecanismos de relógio. Esse é o mundo das ondas de ontem. A quinta onda é a biológica começando a se estender para os sistemas sociais (empresa, família, nações, sociedade em geral). Para entender o amanhã, na empresa e na vida, vai ser preciso entender como.
Há uns 4 bilhões de anos, gotas de uma espécie de óleo começaram a se formar em poças de água morna na superfície daquela Terra estéril e sem vida de então. Eram formadas por combinações químicas que ocorriam ao acaso, entre partículas cuja origem ocorrera vários bilhões de anos antes, quando o próprio universo se formara.
Algumas dessa \u201cgotas\u201d aprenderam a absorver nutrientes do meio exterior e, com isso, cresciam. Eventualmente, dividiam-se em gotas menores, de composição quase igual. As gotas mais competentes em atrair nutrientes, cresciam e dividiam-se mais que as outras, e seus filhotes \u2013 que herdavam a mesma habilidade \u2014 apareciam cada vez com mais freqüência pelo futuro adentro. Essas \u201ccélulas\u201d acabaram por desenvolver um mecanismo para processar informação, que era ao mesmo tempo uma forma de deixar registrada sua receita de sucesso para uso das gerações futuras.
Sucesso para as coisas vivas é o que as torna boas em deixar descendentes pelas gerações afora.
O mesmo mecanismo está em uso até hoje. É a mensagem que o DNA escreve através do seu código digital. Com o DNA veio uma tremenda vantagem: o conhecimento necessário para se permanecer vivo podia ser transmitido de geração em geração.
As células se sofisticaram e acabaram aprendendo a trocar mensagens entre elas próprias.