Apostila   Bases Cirurgicas
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Apostila Bases Cirurgicas


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da ferida operatória, utilizando-se 
curativo com compressas estéreis e enfaixamento do abdome com ataduras. 
O tratamento cirúrgico é realizado o mais breve possível através de re-sutura com fios 
fortes, incluindo todas as camadas da parede abdominal (peritônio, músculo e 
aponeurose - em massa), e utilização de pontos de contenção. Este último envolve 
suturas com fio grosso inabsorvível interessando todas as camadas, inclusive a pele; esta 
deve ser resguardada com a colocação de proteção na parte externa do fio (pontos 
captonados). 
Infecções da ferida operatória: 
As infecções da ferida operatória, também denominadas como infecções do sítio 
cirúrgico (ISC) pela documentação do Centers for Disease Control and Prevention 
(CDC - Atlanta, EUA), são as causas mais comuns de infecção no paciente cirúrgico 
(entre 30% e 40%) e a segunda causa mais frequente de infecção nosocomial, sendo 
superada apenas pelas infecções urinárias. 
É definida como uma infecção que ocorre na incisão cirúrgica ou nos tecidos 
manipulados durante a operação, até 30 dias após a cirurgia. Pode ser dividida em três 
categorias conforme sua localização anatômica: 
\uf0b7 Incisional superficial: acomete somente a pele e/ou o tecido celular subcutâneo, 
ou seja, encontra-se limitada pela fáscia muscular. Era anteriormente 
denominada de infecção de ferida cirúrgica. 
\uf0b7 Incisional profunda: envolve as camadas mais profundas, como a fáscia e os 
músculos, independente do acometimento do tecido celular subcutâneo. São 
poupados os órgãos ou as cavidades acometidas. 
\uf0b7 De órgão ou cavidades: acomete qualquer região ou órgão manipulado durante a 
operação, como por exemplo o empiema pleural (após toracotomia), peritonite 
(após laparotomia), meningites (após craniotomias). 
É necessária a interação de diversos fatores para o desenvolvimento da infecção no 
doente cirúrgico. Entre eles podemos ressaltar fatores clínicos relacionados ao paciente, 
 
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o grau de contaminação do sítio cirúrgico, a técnica cirúrgica, assim como o preparo do 
paciente, da equipe cirúrgica e da sala de operação. 
Alguns fatores relacionados à técnica cirúrgica estão entre os mais importantes. A 
experiência e habilidade do cirurgião são fundamentais, já que implicam em um tempo 
cirúrgico menor (a incidência de infecção praticamente dobra a cada hora de cirurgia). 
A manipulação delicada dos tecidos, a hemostasia rigorosa, a remoção de tecidos 
necróticos e a redução do espaço morto e da contaminação do sítio cirúrgico são 
condições essenciais para evitarmos infecção. 
O uso de hemoderivados aumenta um pouco o risco de infecção, talvez pela diminuição 
da imunidade celular. A utilização de drenos ainda não está claramente definida como 
fator de risco. De qualquer forma, este procedimento é comum e necessário em diversas 
cirurgias; a preferência é pelos sistemas fechados. 
Vários fatores de risco clínicos já foram descritos, com maior ou menor impacto para o 
risco de infecção. Dentre os mais importantes podemos citar a presença de 
comorbidades, que pode ser graduada pela classificação de gravidade do paciente da 
American Society of Anesthesiologists (ASA). 
 
 
O risco de infecção está aumentado quando o ASA é igual ou superior a 3. Idade 
avançada (maiores de 50 anos) também é fator independente, provavelmente por 
diminuição do status imunológico destes indivíduos. O tempo de internação hospitalar 
 
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também é fator importante, podendo mais que dobrar o índice de infecção após duas 
semanas de internação. Segundo alguns autores, a presença de infecção em sítios 
distantes (infecções urinárias ou pulmonares) pode aumentar em até 2,7 vezes o riso de 
ISC. 
A desnutrição, a hipoalbuminemia, a perda ponderal recente, as malignidades e a terapia 
imunossupressora são fatores ou com pouco impacto ou ainda com risco não definido 
para o desenvolvimento de ISC. 
O preparo do paciente envolve, além de sua compensação clínica, alguns cuidados, que 
visam a diminuição de sua flora endógena. O uso de banhos com antissépticos ainda é 
controverso, porém defendido por vários autores. Uso judicioso da tricotomia, devendo 
realizá-la imediatamente antes da cirurgia, preferencialmente sem o uso de lâminas. O 
preparo da pele do campo cirúrgico é passo importante, devendo ser realizado em dois 
tempos: o primeiro com solução degermante (sabão), sendo por isso conhecida como 
degermação, e a segunda com solução alcoólica da mesma substância utilizada na 
degermação. As substâncias mais utilizadas são as derivadas do iodo como a 
polivinilpirrolidona-iodo (PVP-I) e a clorexidina. Ambas parecem ser igualmente 
eficazes no preparo da pele. 
O preparo da equipe cirúrgica inclui a escovação, por 5 minutos, das mãos e antebraços 
com solução degermante e a paramentação adequada, com utilização de avental e luvas 
estéreis, gorro e máscara que impedem não só a contaminação do campo cirúrgico pela 
esfoliação da pele dos membros, como também a protegem de contaminação com 
sangue ou secreções do paciente. 
O grau de contaminação afeta diretamente o risco de ISC. Tanto é assim que foi 
desenvolvida em 1964 uma classificação das feridas que tem importância prognóstica. 
As taxas de infecção pós-operatória detectadas em um trabalho clássico foram de 1,5% 
na Classe I, 7,7% na Classe II, 15,2% na Classe III, e impressionantes 40% nas feridas 
classe IV. 
Por último, algumas considerações sobre fatores relacionados ao ambiente cirúrgico, 
que apresentam um papel menor no desenvolvimento da ISC, devem ser feitas. Neste 
grupo podemos citar a limpeza e circulação adequada de ar na sala de operação. 
As paredes e assoalho do centro cirúrgico não são importantes fatores de risco, não 
necessitando assim de cuidados especiais. Estes cuidados devem ser utilizados nos 
materiais que entram em contato direto com o paciente (mesa cirúrgica e material 
cirúrgico). 
Apesar de o ar ser o veículo de contaminação dentro da sala de operação, cuidados 
especiais quanto à circulação de ar na sala, como o uso de ventilação com pressão 
positiva e fluxo laminar, parece exercer um pequeno efeito protetor, sendo mais 
relevante nas cirurgias em que há implantação de próteses, como as ortopédicas. 
 
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A etiologia das ISC mais comumente é de origem bacteriana e da flora endógena do 
paciente, ou, mais raramente de fontes exógenas, sendo a mais comum a proveniente da 
equipe cirúrgica. O agente etiológico provável depende do tipo de cirurgia. 
Nas cirurgias limpas, os microorganismos envolvidos são geralmente bactérias que 
colonizam a pele, sendo a mais prevalente o Staphylococcus aureus; em segundo lugar 
estão às bactérias Gram-negativas, que respondem por até 40% das ISC. Quando a 
cirurgia é limpa-contaminada ou contaminada, o agente mais comum é oriundo da flora 
normalmente presente na víscera operada. No caso de cirurgias sobre o trato 
gastrintestinal, trato respiratório, urinário e ginecológico, as infecções normalmente são 
polimicrobianas. Os estreptococos são incomuns, mas geralmente são responsáveis por 
quadros clínicos dramáticos, como a fasciite necrosante. Como vimos antes, esta 
infecção apresenta período de incubação curto, inferior a três dias. 
O quadro clínico da infecção de sítio cirúrgico é característico. Os pacientes apresentam 
febre entre o 5° e 6° dia de pós-operatório, acompanhada do surgimento dos sinais 
clássicos de inflamação (dor, calor, edema e rubor) na ferida operatória, que muitas 
vezes apresenta drenagem de secreção purulenta. Pode ainda ser observada crepitação, 
nos casos de infecção por germes produtores de gás, como os clostrídios, e algumas 
cepas de estreptococos. 
A abordagem terapêutica deve ser