Apostila   Bases Cirurgicas
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Apostila Bases Cirurgicas


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a infecção do trato urinário (ITU) e a 
infecção do trato respiratório. 
Infecções cirúrgicas 
Existem algumas diferenças típicas entre as infecções cirúrgicas e as infecções 
médicas comuns. A primeira dessas diferenças refere-se ao estado das defesas gerais do 
hospedeiro, pois os pacientes com infecções médicas comuns, como as pneumonias 
 
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adquiridas na comunidade, geralmente apresentam as defesas funcionando 
normalmente, enquanto que as infecções cirúrgicas, em sua maioria, resultam de defesas 
comprometidas do hospedeiro, seja pela lesão da barreira epitelial, ou ainda por defeitos 
não mecânicos, que podem ser causados por desnutrição e/ou efeitos sistêmicos do 
trauma. 
Os patógenos constituem a segunda diferença, pois aqueles que causam as 
infecções médicas comuns são geralmente únicos e aeróbios, derivados de fontes 
exógenas e com propriedades virulentas, diferentemente dos que causam infecções 
cirúrgicas, que geralmente são mistos, envolvendo aeróbios e anaeróbios e quase 
sempre originários da própria flora do paciente, sendo classificados como agentes 
oportunistas. 
Para facilitar o estudo, as infecções cirúrgicas podem ser divididas em Infecções 
em Áreas Cirúrgicas (IACs), que são aquelas que ocorrem em qualquer ponto da área 
cirúrgica, seja em nível superficial ou profundo; e em Infecções cirúrgicas específicas, 
que são aquelas que entram na classificação de infecções cirúrgicas por necessitarem de 
procedimentos cirúrgicos para seu tratamento, como o abscesso subcutâneo, fasciites 
necrotizantes ou os abscessos intra-abdominais; 
 
Infecções em áreas cirúrgicas: 
A infecção em área cirúrgica ocupa a terceira posição entre todas as infecções 
em serviços de saúde no Brasil e compreende 14% a 16% daquelas encontradas em 
pacientes hospitalizados. 
As IACs são divididas em incisional superficial (pele, tecido subcutâneo), 
incisional profunda (plano fascial e músculos), relacionada a um órgão/espaço 
(localização anatômica do procedimento) (figura6-1). Elas podem ocorrer a qualquer 
momento entre 0 e 30 dias após a operação, ou alem de um ano após um procedimento 
que tenha envolvido a implantação de um material estranho. Os microorganismos 
envolvidos nessas infecções geralmente estão relacionados com a flora bacteriana da 
área do procedimento cirúrgico. O Staphylococcus aureus é o patógeno mais comum da 
IACs, porem, em procedimentos contaminados e potencialmente contaminados, E. coli 
e outras enterobacterias são as causas mais comuns. Microorganismos exógenos 
 
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provenientes da equipe e do ambiente cirúrgico também podem causar IAC. As duas 
medidas primárias para controlar a carga bacteriana na área cirúrgica são: métodos 
assépticos e antissépticos e profilaxia antimicrobiana. 
 
 Figura 6-1 Classificação das IACs 
 
Entre as IACs, as infecções incisionais são as mais comuns, portanto, algumas 
considerações precisam ser feitas a respeito da infecção da ferida cirúrgica. 
A ferida cirúrgica pode ser classificada de acordo com o grau de contaminação 
em ferida limpa, potencialmente contaminada, contaminada e infectada. 
Limpas- Não há lesão do trato gastrintestinal, urinário ou respiratório. As feridas 
não são traumáticas e não há processo inflamatório. Os princípios de antissepsia são 
cumpridos. 
Potencialmente contaminadas- Há perfuração do trato gastrintestinal, 
respiratório ou urinário, porem, sem contaminação significativa. 
Contaminadas- Há contaminação por secreções do trato gastrintestinal, 
respiratório ou urinário. Feridas traumáticas com menos de 6 horas. Presença de 
processo inflamatório sem a presença de pus. 
 
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Infectadas- Feridas em que há a presença de pus, vísceras perfuradas ou feridas 
traumáticas com mais de seis horas de evolução. 
Obs. Deve-se ter muita atenção no cuidado das feridas traumáticas, pois quando 
fechadas e infectadas tornam-se uma complicação cirúrgica que precisará ser aberta, 
drenada e até tratada com antibióticos. Por isso, feridas com mais de seis horas, com 
contaminação significativa (suja, incluindo mordidas humanas e de animais), com 
presença de tecido necrótico e/ou isquêmico, feridas por perfuração, aquelas 
classificadas como feridas à faca ou causadas por armas de fogo, e aquelas causadas por 
esmagamento ou avulsão, não devem ser fechadas. 
Entre os critérios nacionais de infecções relacionadas à assistência à saúde 
determinados pela Agência Nacional de vigilância Sanitária, existem aqueles que se 
comprometem em definir quais infecções podem ser classificadas como IAC 
superficiais (Tabela 6-1). 
IAC- 
INCISIONAL 
SUPERFICIAL 
 
Critério: 
Ocorre nos primeiros 30 dias após após a cirurgia e envolve 
apenas pele e subcutâneo. 
Com pelo meno UM dos seguintes: 
Drenagem purulenta da incisão superficial; 
Cultura positiva de secreção ou tecido da incisão superficial, 
obtido assepticamente (não são considerados resultados de culturas 
colhidas por swab); 
A incisão superficial é deliberadamente aberta pelo cirurgião na 
vigencia de pelo menos um dos seguintes sinais e sinais e 
sintomas: dor ou aumento da sensibilidade, hiperemia ou calor, 
EXCETO se a cultura for negativa; 
Diagnóstico de infecção superficial pelo médico assistente. 
IAC- 
INCISIONAL 
PROFUNDA 
Critério: 
Ocorre nos primeiros 30 dias após a cirurgia, ou até um ano se 
houver colocação de prótese, e envolve tecidos moles profundos à 
incisão. 
Com pelo menos UM dos seguintes: 
Drenagem purulenta da incisão profunda, mas não de órgão ou 
 
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cavidade; 
Deiscência parcial ou total da parede abdominal ou abertura da 
ferida pelo cirurgião, quando o paciente apresentar pelo menos um 
dos seguintes sinais e sintomas: temperatura axilar > ou = 37,8ºC, 
dor ou aumento da sensibilidade local, exceto se a cultura for 
negativa; 
Presença de abscesso ou outra evidência de que a infecção envolva 
os planos profundos da ferida, (identificada em reoperação) exame 
clínico, histocitopatológico ou exame de imagem; 
Diagnóstico de infecção incisional profunda pelo médico 
assistente. 
 
 
 
Infecções cirúrgicas específicas: 
As infecções cirúrgicas abordadas aqui serão os abscessos subcutâneos, as 
fasciites necrotizantes, as infecções intra-abdominais e retroperitoneais e as infecções 
relacionadas a dispositivos protéticos. Qualquer uma destas infecções, assim como 
todas as infecções cirúrgicas, tem como princípio básico para o tratamento o controle da 
fonte. Formas de controle da fonte incluem a drenagem de um abscesso, debridamento 
de tecido morto, o fechamento de uma perfuração, entre outros. O importante é entender 
que em infecções cirúrgicas, a antibioticoterapia e um suporte sistêmico são apenas 
auxiliares no tratamento, pois este deverá ter como base o controle da fonte através de 
um procedimento cirúrgico. 
Abscesso subcutâneo- O abscesso é constituído por uma porção central 
necrosada e semilíquida (pus), circundada por uma zona vascularizada de tecido 
inflamado. Ao examinar, observa-se um inchaço localizado, com sinais de inflamação e 
elevada sensibilidade. É necessário que se faça o diagnóstico diferencial com celulite, 
infecção do tecido frouxo, com suprimento de sangue e tecidos intactos, marcado por 
aguda resposta inflamatória. O abscesso subcutâneo será confirmado quando houver o 
reconhecimento de tecido necrosado. É importante a diferenciação para que se escolha o 
 
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tratamento mais efetivo, pois a antibioticoterapia sozinha resolve a celulite, mas não é 
suficiente no abscesso, que só será resolvido após drenagem. 
Fasciites necrotizantes- São infecções necrotizantes do tecido