Apostila   Bases Cirurgicas
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Apostila Bases Cirurgicas


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transfusões mais prolongadas. Caso o tratamento não tenha efeito, pode-se suspeitar de 
hipomagnesemia, cujos sintomas são muito parecidos. 
A hipercalcemia é o distúrbio caracterizado pelo aumento dos níveis séricos do cálcio. 
Hiperparatireoidismo e neoplasias malignas avançadas com metástases ósseas (mama, 
por exemplo) são os principais fatores causadores do distúrbio. O primeiro ocorre com a 
elevação da produção e liberação de paratormônio, provocando deslocamento do cálcio 
ósseo para o plasma, causando hipercalcemia; a segunda baseia-se nos mesmo 
princípios, a passagem de cálcio do tecido ósseo para o sangue. Outras causa possíveis 
são: sarcoidose, intoxicação por vitamina D e insuficiência adrenal. 
A musculatura lisa é a mais influenciada, provocando uma sintomatologia caracterizada 
por náuseas, vômitos, cólicas e anorexia. Em casos mais graves, uma hipermotilidade 
intestinal pode ocorrer, levando a diarreia, e junto a isso pode haver também um 
aumento do número de episódios de vômitos; assim, ocorre uma grande perda hídrica, 
que leva a uma redução do volume plasmático, consequentemente. Alterações do SNC 
também podem surgir, tais como cefaleia intensa, desânimo, sonolência, torpor e até 
coma, dependendo da gravidade. Na musculatura cardíaca, há arritmias, com intervalo 
Q-T e segmento ST supranivelados. 
Como a correção da causa básica é mais complicado, nesse caso faz-se um tratamento 
mais direcionado ao distúrbio em si. É feita uma reposição volêmica com cristaloides, 
com intuito de diluir o conteúdo sérico e também de favorecer a excreção renal do 
mesmo, já que esse aumento induz uma diminuição da liberação de ADH. Um auxílio 
nessa função diurética pode ser feito com administração de medicamento diurético, 
como a furosemida. Outra maneira de tratamento é a ingestão de bifosfonatos 
 
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inorgânicos, pois diminuem a reabsorção óssea, levando à formação de complexos 
fosfato-cálcio em tecidos moles e ósseos. 
O uso de corticoides também diminui a reabsorção óssea, além de inibir a absorção de 
vitamina D, o que pode ser prejudicial se o paciente estiver em fase de crescimento; 
porém, vale ressaltar que estes só são efetivos nos casos de metástases ósseas, sendo 
pouco efetivos em casos de hiperparatireoidismo. Caso a quantidade de cálcio ultrapasse 
15 mg em 100mL de plasma, e ocorra hipovolemia, o tratamento deve ser emergencial. 
 
Magnésio 
A grande quantidade de magnésio existente no organismo encontra-se na meio 
intracelular. A concentração plasmática situa-se em torno de 1,5 \u2013 2,5 mEq/L. Os rins 
possuem papel importante na manutenção das concentrações normais, pois podem 
controlar a excreção do eletrólito. Já nas fezes ocorre a maior parte da excreção. A 
principal função do magnésio está relacionada às atuações de enzimas, além de regular a 
excitabilidade muscular. 
Na hipomagnesemia, os sintomas são parecidos com os da hipocalcemia, havendo 
hiperatividade neuromuscular e cerebral. Caso seja feito o tratamento de hipocalcemia e 
os sintomas persistirem, pode-se suspeitar de hipomagnesemia no paciente. Há um 
aumento da sensibilidade dos reflexos neuromusculares, além de possíveis tremores 
(\u201cflapping) e irritabilidade, que podem evoluir para tetanias e até convulsões. Pode 
haver Sinal de Babinski, nistagmo, taquicardia, e hipertensão arterial. Quanto ao SNC, o 
paciente apresenta-se com desorientação e inquietação. 
É um distúrbio que pode ser encontrado em pacientes com alcoolismo crônico, 
associado ao \u201cdelirium tremens\u201d (psicose provocada pela abstinência, principalmente do 
álcool). Cirrose, pancreatite, acidose diabética, má absorção intestinal, 
hiperaldosteronismo primário e diurese aumentada podem provocar a hipomagnesemia. 
O tratamento é feito com reposição iônica, administrando cloreto ou sulfeto de 
magnésio de maneira lenta e gradual, a fim de evitar-se toxicidades causadas pelo 
eletrólito; caso seja administrado cálcio associadamente, os riscos de toxicidade 
diminuem. Por causa dessa toxicidade, os níveis plasmáticos devem ser monitorados, a 
fim de que não ultrapassem a concentração de 5 ou 5,5 mEq/L. 
A hipermagnesemia é mais rara, e decorre principalmente de insuficiência renal, 
havendo a perda do controle fisiológico do rim sobre a concentração do magnésio. Os 
efeitos neuromusculares são mais evidentes, sendo no músculo esquelético mais 
notável, havendo fadiga e diminuição da sensibilidade aos reflexos neurotendíneos. 
Quanto ao músculo cardíaco, há aumento do intervalo P-R, alargamento dos complexos 
QRS e elevação das ondas T. A paralisia dos músculos respiratórios pode levar à morte. 
 
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A nível mental, sonolência é o principal sintoma, que pode evoluir até o estado de 
coma, dependendo da gravidade. 
Para tratamento, uma reposição volêmica é indicada, já que estimula a maior excreção 
renal (diminui a liberação de ADH). O cálcio é antagonista do magnésio, podendo ser 
empregado temporariamente por via parenteral. Em casos mais graves, pode ser 
necessário realizar diálise peritoneal ou extracorpórea. 
 
REFERÊNCIAS 
EVORA PRB; REIS CL; FEREZ MA; CONTE DA & GARCIA LV. Distúrbios do 
equilíbrio hidroeletrolítico e do equilíbrio acidobásico \u2013 Uma revisão prática. 
Medicina, Ribeirão Preto, 32: 451-469, out./dez. 1999. 
 
FERRAZ, Álvaro Antônio Bandeira; FERRAZ, Edmundo Machado. Bases da Técnica 
Cirúrgica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005 
KASPER, Dennis L.; BRAUNWALD, Eugene; FAUCI, Anthony S: HAUSER, Stephen 
L.; LONGO, Dan L.; JAMESON, J. Larry & ISSELBACHER, Kurt J.. HARRISON 
Princípios da Medicina Interna, 16ª edição 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Capítulo 11 
Metabologia Cirúrgica 
 
Carlos Castanha Neto 
Isa Costa 
 
Introdução 
O termo \u201chomeostase\u201d se define como a tendência do organismo manter 
constante seu meio interno. A manutenção do equilíbrio homeostático nos sistemas 
orgânicos é fundamental para o seguimento da vida. Esse equilíbrio delicado é 
constantemente desafiado por situações de estresse, como traumas, infecções e 
procedimentos cirúrgicos, e o contato com esses estados levam a respostas adaptativas 
que buscam restaurar o equilíbrio alterado. A homeostase intra-operatória sofre a 
influência de fatores primários e secundários. Exemplos de fatores primários são os 
métodos de exposição e a posição do paciente. Exemplos de fatores secundários são o 
estado fisiológico do paciente (idade, doenças associadas, hidratação, medicamentos em 
uso) e o tempo cirúrgico. 
Bevilácqua difundiu os conceitos dos componentes biológicos da agressão, os 
quais nos permitem um preciso entendimento acerca das respostas biológicas aos atos 
operatórios. Esses componentes são agrupados em três tipos: primários, secundários e 
associados. A condição metabólica prévia do paciente irá modular a intensidade da 
natureza pós-traumática. 
 
Componentes primários 
São decorrentes exclusivamente da ação física sobre o organismo (ato operatório), 
estando sempre presentes e nunca podendo ser eliminados. 
A resposta orgânica perante esses componentes depende da ação do agente agressor 
sobre os tecidos. Logo, a intensidade do trauma e a conduta do cirurgião determinam a 
magnitude e duração desses componentes, além da reação proporcional do organismo 
afetado. 
 
- Lesão celular 
Traduz-se por alterações de permeabilidade da membrana celular com liberação 
de substâncias intracelulares, configurando a resposta inflamatória ao traumatismo 
orgânico. 
 
- Resposta inflamatória ao trauma 
Nas cirurgias sempre se desenvolve um processo inflamatório, ocorrendo 
resposta inflamatória inespecífica