Apostila   Bases Cirurgicas
180 pág.

Apostila Bases Cirurgicas


DisciplinaCirúrgica I176 materiais1.830 seguidores
Pré-visualização48 páginas
as reações 
metabólicas que ficam aumentadas no período pós-operatório. O jejum promove a 
metabolização de gorduras, com elevação de acúmulo de corpos cetônicos e o 
estabelecimento de acidose metabólica. 
Gorduras e carboidratos podem ser armazenados pelo organismo, diferentemente 
das proteínas que são mobilizadas na musculatura. Logo, ocorre catabolismo proteico 
com consequente destruição muscular. O diafragma pode ser afetado, o que pode causar 
prejuízos para a função respiratória. O SNC só utiliza glicose no seu metabolismo. 
 
- Imobilização prolongada: 
Muitas vezes, o paciente necessita permanecer imóvel por longo tempo 
(cirurgias ortopédicas) e essa imobilidade prolongada causa atrofia muscular. Ocorre 
redução da massa muscular afetada em decorrência do catabolismo proteico. Essa 
imobilização, no caso do diafragma, favorece o acúmulo de secreções que predispõem a 
 
113 
 
infecções respiratórias. O cirurgião deve promover a mobilização precoce, interferindo 
de modo positivo no psiquismo do paciente. 
 
- Perdas hidroeletrolíticas extra-renais: 
É o caso dos pacientes grandes queimados, portadores de extensas áreas com 
tecido de granulação e os portadores de traqueostomias. No período pós-operatório, 
sondas nasogástricas, vômitos, fístulas digestivas, drenos e até diarreia promovem 
perdas acentuadas de água e eletrólitos, o que demanda reposições criteriosas. 
 
- Doenças intercorrentes: 
A participação deste componente associado está na razão direta da sua presença. 
Distúrbios preexistentes (doenças cardíacas, pulmonares, endocrinopatias, hepatopatias, 
nefropatias e queda das defesas imunológicas) influenciam de maneira negativa o 
resultado final de todo o processo. 
 
- Extremos da idade: 
Tanto os recém-nascidos quanto os idosos necessitam de condutas especiais no 
período pós-operatório (a imaturidade orgânica e a diminuição das reservas estreitam os 
graus de liberdade da resposta metabólica). 
 
Fisiopatologia 
A resposta biológica ao trauma operatório começa antes de ser iniciada a cirurgia, ou 
seja, a ansiedade prévia e o medo do desconhecido já promovem alterações psíquicas e 
orgânicas com consequentes alterações endócrinas e vasomotoras. 
 
Atuação do cirurgião 
- Alterações hidroeletrolíticas: 
O controle da pressão arterial, frequência cardíaca e intensidade do pulso arterial 
periférico, a aferição do hematócrito e o débito urinário refletem a situação do volume 
do espaço extracelular ativo. Logo, hipotensão arterial, pulso periférico \u201cfino\u201d, 
taquicardia, elevação do hematócrito e diurese menor que 50 ml/hora indicam queda de 
volemia e necessidade de reposição. 
A hemodiluição influi no transporte do oxigênio, na coagulação sanguínea e na 
capacidade de tamponamento da hemoglobina. Se não controlada, a hemodiluição leva a 
sobrecarga hídrica, elevando o débito cardíaco e diminuindo a oferta de oxigênio. No 
pós-operatório tardio, o líquido sequestrado na área traumatizada passa a ser reintegrado 
à corrente sanguínea. O principal cátion intracelular é o potássio. Com a destruição 
celular, ocorre sua liberação com consequente hiperpotassemia transitória. Assim, só há 
necessidade de reposição desse íon a partir do 3º ou 4º dia de pós-operatório, desde que 
o paciente permaneça em jejum. 
 
- Alterações da função respiratória: 
O médico deve tomar medidas preventivas já no período pré-operatório, como 
suspensão do fumo (durante, no mínimo, duas semanas antes da cirurgia) e fisioterapia 
respiratória (exercícios físicos, inalações, uso de expectorantes). Estas medidas do pré-
operatório devem ser mantidas e intensificadas no pós. No pós-operatório imediato, o 
uso criterioso de analgésicos, a adoção da posição semi-sentada e o uso da nebulização 
contínua para umidificar as vias respiratórias diminuem muito as complicações 
pulmonares. 
 
114 
 
Nos casos extremos, a traqueostomia está indicada para permitir a desobstrução 
das vias aéreas superiores. Também se destaca o emprego de antibióticos na profilaxia e 
no tratamento de infecções pulmonares. 
 
- Alterações do metabolismo orgânico: 
A destruição de tecidos causa perda de nitrogênio decorrente do catabolismo 
proteico, pelo consumo da massa muscular. Como não há massa muscular de reserva, é 
importante o conhecimento da técnica cirúrgica para que não haja um aumento do 
consumo da musculatura. 
As hiperglicemias devem ser controladas de modo rígido nos períodos intra e 
pós-operatório (valor máximo igual a 120mg/dL). A hipoglicemia, logicamente, deve 
ser evitada. A maior produção de adrenalina, decorrente da queda do volume do espaço 
extracelular \u201cfuncionalmente ativo\u201d, inibe a produção de insulina, promovendo ações 
catabólicas. 
 
- Infecções: 
É mais fácil prevenir do que tratar. A técnica cirúrgica ocupa papel de destaque: 
lesar o menos possível, minimizar perdas sanguíneas, evitar hematomas, suprimir 
espaços mortos e não permitir corpos estranhos. Por isso, é imprescindível o uso de fios 
cirúrgicos adequados, atenção e esmero na confecção de anastomoses e suturas. 
 
 
 
 
Referências bibliográficas: 
1-CLÍNICA CIRÚRGICA - Gama Rodrigues, J.J.; Machado, M.C.C.; Rasslan, S. \u2013 
Clínica Cirúrgica FMUSP. Editora Manole 2008. 
2- GOFFI, F.S. Técnica Cirúrgica - Bases Anatômicas, Fisiopatológicas e Técnicas de 
Cirurgia. Ed. Atheneu, São Paulo, 2004. 
3-MARQUES, R.G. Técnica Operatória e Cirurgia Experimental. Guanabara Koogan, 
2005. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
115 
 
Capítulo 12 
Nutrição em cirurgia 
 
Lucas Medeiros de Araújo Lira 
Renata Cristina Hacker 
 
INTRODUÇÃO: 
A desnutrição em cirurgia começou a ser reconhecida em 1936, ao se observar 
que pacientes com perda de peso superior a 20% apresentam maior taxa de 
complicações e mortalidade que aqueles com menor perda de peso. 
Desnutrição pode ser definida como estado em que a deficiência, o excesso ou 
desequilíbrio de energia, causam efeitos adversos mensuráveis na estrutura tecidual ou 
corporal, função orgânica e evolução clínica. A desnutrição pode dividir-se em 
desnutrição proteico-energética e desequilíbrio de micronutrientes, frequentemente 
encontrados em idosos, obesos e portadores de doenças crônicas debilitantes. 
Alguns doentes candidatos a intervenção cirúrgica podem apresentar resposta 
inflamatória sistêmica aumentada e contínua, graças a estados mórbidos associados. 
Nessas condições, os resultados da terapia nutricional clássica são menos eficientes do 
que na ausência da síndrome inflamatória. 
Desnutrição pré-operatória é reconhecidamente um fator independente de risco 
de maior morbidade e mortalidade pós-operatórias, por imunodepressão do tipo celular 
e retardo na cicatrização das feridas, ambos ocorrendo pela perda proteica e de 
micronutrientes essenciais à imunidade. 
A intervenção do ato cirúrgico promove a resposta metabólica sistêmica ao 
trauma. Dependendo da intensidade da lesão, o paciente pode evoluir com 
hipermetabolismo, hipercatabolismo, consumo de massa proteica e consequente 
desnutrição. 
Pacientes com hipercatabolismo geralmente apresentam uma intensa resposta 
inflamatória, e enquanto perdurar essa grave condição clínica, pouca eficácia terá a 
terapia nutricional convencional. O uso de nutrientes imunomoduladores poderá ser útil 
na condução desses pacientes. 
 
 
 
 
116 
 
COMPLICAÇÕES DECORRENTES DA DESNUTRIÇÃO 
A desnutrição é frequente em doenças crônicas e agudas, ocorrendo em 
aproximadamente 50% dos pacientes hospitalizados, contribuindo para o aumento da 
morbimortalidade e número de internações nesse grupo de doentes.