MICHAEL LÖWY Paisagens da verdade tralalho de vanessa 1
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MICHAEL LÖWY Paisagens da verdade tralalho de vanessa 1


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os 
dogmas  imutáveis da doutrina  social e política  feudal. É neste  sentido que é 
preciso  compreender  o  apelo  ao modelo  científico\u2010natural  em  Condorcet:  \u201c 
Galileu... fundou, para as ciências a primeira escola onde elas eram cultivadas 
sem nenhuma mistura de superstição, seja em relação aos preconceitos, seja 
em  relação  à  autoridade;  onde  se  rejeitou  com  uma  severidade  filosófica 
qualquer outro meio que não fosse o da experiência ou do cálculo\u201d. Contudo, 
Condorcet censura Galileu por  limitar\u2010se \u201cexclusivamente às ciências  físicas e 
matemáticas\u201d; trata\u2010se agora de ampliar esta atitude \u2013 apoiando\u2010se no método 
de Bacon e de Descartes \u2013 para as ciências econômicas e políticas. O combate 
à  ciência  social  livre  de  \u201cpaixões\u201d  é,  portanto,  inseparável  da  luta 
revolucionária dos Enciclopedistas e de toda a filosofia do Iluminismo contra os 
preconceitos,  isto é, contra a  ideologia tradicionalista (principalmente clerical) 
do Antigo Regime. 
Acha\u2010se  em O  esboço do quadro histórico dos progressos do  espírito 
humano  a  intuição  de  que  o  desenvolvimento  no  terreno  dos  fatos  sociais 
choca\u2010se com os  interesses da classe: \u201cquanto mais os objetos  submetidos à 
razão  tocarem  os  interesses  religiosos  e  políticos,  tanto  mais  lentos  os 
progressos  do  espírito  humano\u201d2;  mas,  trata\u2010se,  para  Condorcet,  de  um 
fenômeno do passado relacionado com  interesses clericais e aristocráticos. A 
ideia  de  que  a  nova  ciência  econômica  e  política,  representada  pelos 
fisiocratas,  Adam Smith e pelos próprios Enciclopedistas,  esta ciência racional, 
precisa e experimental pudesse estar, ela  também,  ligas a  interesses  sociais, 
escapa ao campo de visibilidade de Condorcet e dos positivistas em geral.  
  Discípulo  de  Condorcet,  S.  Simon  vê  no  grande  Enciclopedista  o 
pensador ao qual \u201ca ciência do homem deve  seu último passo  importante\u201d3. 
Esta  ciência  do  homem,  apresentada  com  um  ramo  ora  da  física,  ora  da 
fisiologia,  deve\u2010se  tornar  positiva  \u2013  S.  Simon  é  o  primeiro  a  empregar  este 
                                                            
1  CONDORCET (1966), Esquisse d´un tableau historique des progrès de l´esprit humain, 1793, Paris: 
Éditions sociales pp. 211\u201012, 244, 253, 271. 
2  CONDORCET op. cit., p. 199. 
3 S. SIMON (1876), \u201c Mémoire sur la science de l´homme\u201d, 1813, Oeuvres, vol. XI, Paris: Dentu Éditeur, p. 
284. 
Enciclopedistas englobam 
filósofos e outros 
pensadores que 
confeccionaram ou 
apoiaram a Encyclopédie 
(uma ampla revisão das 
artes e ciências da época, 
explicando conceitos e 
proclamando o 
iluminismo). 
4 
 
termo \u2013, quer dizer, utilizar os métodos das ciências naturais, \u201cpois não existe 
fenômeno que não possa ser observado do ponto de vista da física dos corpos 
brutos  ou  do  ponto  de  vista  da  física  dos  corpos  organizados,  que  é  a 
fisiologia\u201d. A própria política \u201ctornar\u2010se\u2010á uma ciência positiva quando os que 
cultivam  este  importante  ramo  dos  conhecimentos  humanos  aprenderam  a 
fisiologia  e  quando  eles  não  mais  considerarem  os  problemas  a  resolver 
apenas como questões de higiene\u201d.4 
   Com  toda essa  fé  ingênua do pensador do  Iluminismo,  S.  Simon  crê 
que esta ciência política positiva poderá ser neutra e objetiva, ultrapassando 
os diferentes pontos de vista, as diversas \u201cformas de ver\u201d contraditórias: \u201caté 
aqui,  o método  da    ciência  da  observação  não  foi  introduzido  nas  questões 
políticas; cada um trouxe sua maneira de ver, de raciocinar, de julgar, e resulta 
daí que ainda não se obteve nem precisões nas soluções, nem generalidades 
nos resultados. Chegou a hora de acabar esta infância da ciência...\u201d.5 Veremos 
como esta queixa sobre \u201ca imaturidade\u201d da ciência social, sobre o seu \u201catraso\u201d 
para começar a ser como as outras (isto é, as ciências da natureza), seguida de 
exigência de que ela se curve enfim ao método científico  (natural), retornará 
constantemente sob pena dos autores positivistas (século XX, inclusive). 
  S. Simon  fala  frequentemente do \u201ccorpo social\u201d e define a ciência da 
sociedade como uma \u201cfisiologia social\u201d, \u201cconstituída pelos fatos materiais que 
derivam da observação direta da sociedade\u201d. Mas é importante sublinhar que 
esta \u201cnaturalização\u201d da sociedade e da ciência social, esta utilização abusiva da 
analogia    \u201corgânica\u201d  não  tem  neste    autor  \u2013  como  terá  nos  positivistas 
posteriores \u2013 uma significação apologética conservadora em relação à ordem 
estabelecida; muito pelo contrário, ela tem uma função eminentemente crítica 
e  contestadora. Apesar  das  repetidas  garantias  de  S.  Simon  sobre  o  caráter 
\u201corganizador\u201d e não\u2010revolucionário de seus escritos, sua dimensão subversiva 
é  inegável e não deixou de  chamar  a  atenção das  autoridades. Assim, é em 
nome das leis fisiológicas do organismo social e de sua \u201chigiene\u201d que ele apela 
abertamente  pelo  fim  do  absolutismo  e  por  uma  \u201cmudança  de  regime\u201d  na 
França: \u201cuma vez que a natureza inspirou aos homens, em cada época, a forma 
de  governo mais  conveniente,  será exatamente de  acordo  com este mesmo 
princípio que  iremos  insistir na necessidade de uma mudança de regime para 
uma  sociedade  que  não  mais  se  encontra  nas  condições  orgânicas  que 
puderam  justificar  o  reino  da  opressão...  por  que  conservaríamos  hábitos 
higiênicos contraditórios com o nosso estado fisiológico?\u201d6 O combate, para a 
ciência positiva do homem, está em S. Simon,  indissoluvelmente  ligado à  luta 
dos  \u201cprodutores\u201d  (tanto    os  empresários  quanto  os  operários)  contra  os 
parasitas,  os  \u201csanguessugas\u201d  clericais\u2010feudais  da  Restauração.  No  momento 
em que S. Simon abandona este ponto de vista (que se poderia designar como 
\u201cburguês revolucionário\u201d) para reaproximar\u2010se da classe que qualifica como \u201ca 
mais pobre e a mais numerosa\u201d, é significativo que não mais fale em nome da 
ciência, mas sim da moral e da religião: é o \u201cNovo Cristianismo\u201d (1825), que já 
se situa no terreno do socialismo utópico. 
                                                            
4  Ibid. pp. 29\u201030. 
5 S SIMON, (1865), \u201cDe la réorganisation de la société européenne\u201d, 1814, Oeuvres de Saint Simon et 
d´Enfantin, Paris, T XV, p. 183. 
6 S SIMON, (1865), \u201cDe la physiologie sociale appliquée à l´amélioration des institutions sociales\u201d, 1813, 
Oeuvres, vol. XI, Paris: Dentu Éditeur, p. 284. 
5 
 
A ideologia positivista: [...] Comte [...] 
Não é por acaso que Auguste Comte \u2013 e não Condorcet ou S.Simon \u2013 
seja  considerado  o  fundador  do  positivismo.  De  fato,  é  ele  que  inaugura  a 
transmutação  da  visão  de  mundo  positivista  em  ideologia,  quer  dizer,  em 
sistema  conceitual  e  axiológico  que  tende  à  defesa  da  ordem  estabelecida. 
Primeiramente, discípulo Condorcet e de S. Simon, Comte irá romper com um 
discurso  cuja  carga  crítica  e  \u201cnegativa\u201d  lhe  parece  ultrapassada  e  perigosa. 
Considerar,  como  alguns  autores  o  fazem,  a  obra  de  Comte  simplesmente 
como a continuação da metafísica naturalista da filosofia do Iluminismo e de S. 
Simon,  como  \u201ccoroamento  sistemático\u201d  de  um movimento  que  remonta  ao 
século  XVIII,  significa  passar  ao  largo  da  novidade  e  da  especificidade  do 
positivismo  comtiano,  que  representa  precisamente  o  ponto  de  vista 
reconhecido  da  escola  positivista  moderna  nas  ciências  sociais.  Conforme  a 
feliz  expressão  de  George  Lichtheim,  em  Comte  \u201co    otimismo  generoso  do 
Iluminismo  congelara\u2010se  numa  inquietude  ansiosa  para  com  a  estabilidade 
social\u201d.7 
Ao  descrever  Condorcet  como  \u201cmeu  eminente  precursor\u201d,  Comte 
proclama que a descoberta das leis sociológicas lhe era interditada pelos \u201cseus 
preconceitos  revolucionários\u201d.8 Nota\u2010se aqui a mudança brusca de  função