caderno cpp comentado 1sem renato
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DisciplinaDireito Processual Penal I18.655 materiais138.235 seguidores
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não haveria, in casu, quebra de sigilo fi-
nanceiro, mas, ao contrário, a afirmação desse direito. Outrossim, 
seria clara a confluência entre os deveres do contribuinte \u2013 o dever 
fundamental de pagar tributos \u2013 e os deveres do Fisco \u2013 o dever de 
bem tributar e fiscalizar. Nesse sentido, para se falar em \u201cquebra 
de sigilo bancário\u201d pelos preceitos impugnados, necessário seria 
vislumbrar, em seus comandos, autorização para a exposição das 
informações bancárias obtidas pelo Fisco. A previsão de circulação 
dos dados bancários, todavia, inexistiria nos dispositivos questio-
nados, que consagrariam, de modo expresso, a permanência no 
sigilo das informações obtidas com base em seus comandos. O 
que ocorreria não seria propriamente a quebra de sigilo, mas a 
transferência de sigilo dos bancos ao Fisco. Nessa transmutação, 
inexistiria qualquer distinção entre uma e outra espécie de sigilo 
que pudesse apontar para uma menor seriedade do sigilo fiscal em 
face do bancário. Ao contrário, os segredos impostos às instituições 
financeiras \u2013 muitas das quais de natureza privada \u2013 se manteria, 
com ainda mais razão, com relação aos órgãos fiscais integrantes 
da Administração Pública, submetidos à mais estrita legalidade. Em 
síntese, a LC 105/2001 possibilitara o acesso de dados bancários 
pelo Fisco, para identificação, com maior precisão, por meio de 
legítima atividade fiscalizatória, do patrimônio, dos rendimentos e 
das atividades econômicas do contribuinte. Não permitiria, contudo, 
a divulgação dessas informações, resguardando-se a intimidade e 
a vida íntima do correntista. E esse resguardo se tornaria evidente 
com a leitura sistemática da lei em questão. Essa seria, em verdade, 
bastante protetiva na ponderação entre o acesso aos dados bancários 
do contribuinte e o exercício da atividade fiscalizatória pelo Fisco. 
Além de consistir em medida fiscalizatória sigilosa e pontual, o 
acesso amplo a dados bancários pelo Fisco exigiria a existência de 
processo administrativo \u2013 ou procedimento fiscal. Isso, por si, já 
atrairia para o contribuinte todas as garantias da Lei 9.784/1999 
\u2013 dentre elas, a observância dos princípios da finalidade, da mo-
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tivação, da proporcionalidade e do interesse público \u2013, a permitir 
extensa possibilidade de controle sobre os atos da Administração 
Fiscal. No entanto, a Corte ressaltou que os Estados-Membros e os 
Municípios somente poderiam obter as informações previstas no 
art. 6º da LC 105/2001, uma vez regulamentada a matéria de forma 
análoga ao Decreto 3.724/2001, observados os seguintes parâmetros: 
a) pertinência temática entre a obtenção das informações bancárias 
e o tributo objeto de cobrança no procedimento administrativo 
instaurado; b) prévia notificação do contribuinte quanto à ins-
tauração do processo e a todos os demais atos, garantido o mais 
amplo acesso do contribuinte aos autos, permitindo-lhe tirar cópias, 
não apenas de documentos, mas também de decisões; c) sujeição 
do pedido de acesso a um superior hierárquico; d) existência de 
sistemas eletrônicos de segurança que fossem certificados e com o 
registro de acesso; e, finalmente, e) estabelecimento de mecanismos 
efetivos de apuração e correção de desvios.25
Por fim, não se pode confundir sigilo financeiro com sigilo 
fiscal. Este último funciona como um dever de segredo e confiden-
cialidade da situação tributária dos contribuintes, pessoas físicas 
ou jurídicas. Está amparado pelo art. 198 do Código Tributário 
Nacional (CTN), que dispõe que é vedada a divulgação, por parte 
da Fazenda Pública ou de seus servidores, de informação obtida 
em razão do ofício sobre a situação econômica ou financeira do 
sujeito passivo ou de terceiros e sobre a natureza e o estado de 
seus negócios ou atividades. Enquanto o sigilo financeiro deve 
ser preservado pelas instituições financeiras elencadas pelo art. 1º, 
§1º, da LC n. 105/01, pelas empresas de factoring (art. 1º, §2º, da 
LC n. 105/01) e pelo Banco Central do Brasil e pela Comissão de 
Valores Mobiliários (art. 2º, caput, e §3º, da LC n. 105/01), o sigilo 
fiscal tem como destinatários a Fazenda Pública (União, Estados, 
Distrito Federal e Municípios) e seus agentes. 
25. STF, Pleno, ADI 2.390/DF, ADI 2.386/DF, ADI 2.397/DF, ADI 2.859/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, 
j. 24/02/2016. Com entendimento semelhante: STF, Pleno, RE 601.314/SP, Rel. Min. Edson 
Fachin, j. 24/02/2016. No sentido da constitucionalidade das normas que permitem 
o acesso direto da Receita Federal à movimentação financeira dos contribuintes (LC 
105/2001, artigos 5º e 6º; Decreto 3.724/2001; e Decreto 4.489/2002): STF, 2ª Turma, 
RHC 121.429/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 19/04/2016.
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Não constitui quebra do sigilo fiscal a requisição de autoridade 
judiciária no interesse da justiça, nem tampouco as solicitações de 
autoridade administrativa no interesse da Administração Pública, 
desde que seja comprovada a instauração regular de processo ad-
ministrativo, no órgão ou na entidade respectiva, com o objetivo 
de investigar o sujeito passivo a que se refere a informação, por 
prática de infração administrativa (CTN, art. 198, §1º, incisos I e 
II). Também não é vedada a divulgação de informações relativas a 
representações fiscais para fins penais, inscrições na Dívida Ativa 
da Fazenda Pública e parcelamento ou moratória (CTN, art. 198, 
§3º, incisos I, II e III). Para além disso, consoante disposto no 
art. 199 do CTN, a Fazenda Pública da União e as dos Estados, 
do Distrito Federal e dos Municípios prestar-se-ão mutuamente 
assistência para a fiscalização dos tributos respectivos e permuta de 
informações, na forma estabelecida, em caráter geral ou específico, 
por lei ou convênio.26
3. Suspensão de mandato eletivo como medida 
cautelar diversa da prisão. 
Com as mudanças produzidas pela Lei n. 12.403/11, o Código 
de Processo Penal passou a prever, dentre as medidas cautelares 
diversas da prisão, a suspensão do exercício de função pública ou 
de atividade de natureza econômica ou financeira, quando houver 
justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais. 
Trata-se de medida cautelar específica, cuja utilização está voltada, 
precipuamente, a crimes praticados por funcionário público con-
tra a administração pública (v.g., peculato, concussão, corrupção 
26. A jurisprudência pátria também admite a requisição de informações ao Fisco por parte 
de Comissões Parlamentares de Inquérito no desenvolvimento de suas investigações, não 
podendo ser invocado o sigilo fiscal como óbice ao dever de obediência a tais requisições, 
desde que haja decisão fundamentada nesse sentido. Nessa linha: STF, Pleno, ADI 2.225/
SC, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 21/08/2014, DJe 213 29/10/2014. Por outro lado, os Tribunais 
Superiores entendem que as prerrogativas institucionais dos membros do Ministério 
Público não compreendem a possibilidade de requisição de documentos fiscais sigilosos 
diretamente ao Fisco. Nesse contexto: STJ, 5ª Turma, RHC 20.329/PR, Rel. Min. Jane Silva 
\u2013 Desembargadora convocada do TJ/MG \u2013, j. 04/10/2007, DJ 22/10/2007, p. 312.
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passiva, etc), e crimes contra a ordem econômico-financeira (v.g., 
lavagem de capitais, gestão temerária ou fraudulenta de instituição 
financeira).
Face a pobreza do teor do art. 319, inciso VI, do CPP, há 
controvérsias na doutrina acerca da possibilidade de aplicação 
dessa medida cautelar no caso de funções públicas decorrentes