Curso vigilancia epidemiologica
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Curso vigilancia epidemiologica


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hipótese, que postulava que a 
bactéria teria vindo do leite sem pasteurização, pois o leite cru, consumido direto da vaca, é outra 
fonte bem conhecida de transmissão da E. coli.
Ambos foram para a fazenda, tiraram leite das vacas e o testaram. Não havia um único indício 
de bactéria E. coli.
Mesmo se houvesse, a babá, tampouco, bebia leite. Ela não consumia nenhum laticínio, era 
totalmente vegetariana.
Outra hipótese poderia ser a água do poço. Em um dia ameno de outono, no mês de outubro, 
os investigadores retornaram à fazenda para coletar mais amostras. Colheram amostras da água de 
abastecimento e sangue das vacas. Em seguida, como medida de segurança, munidos de zaragatoa3, 
vasculharam o local coletando pequenas amostras de qualquer coisa que parecesse suspeita. Foram 
colhidas amostras de fezes das galinhas, das próprias galinhas e de tudo o que encontraram, até dos 
vegetais do jardim.
No \ufb01nal, por ironia, o veículo de transporte da E. coli eram os vegetais: eles tinham sido 
adubados com o estrume das vacas, que continha as bactérias E. coli. A babá e a criança tinham 
comido vegetais sem lavá-los corretamente.
3 Zaragatoa (tipo de swab): vergalhão de algodão envolto em gaze estéril, utilizado para coleta de secreções em animais.
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Medidas em Saúde Coletiva e Método EpidemiológicoCBVE
O método cientí\ufb01co assume, em cada campo disciplinar, as particularidades do objeto investigado. 
O método epidemiológico, uma variante do método cientí\ufb01co, foi especialmente desenvolvido para 
ser aplicado à investigação do processo saúde-doença em populações humanas. O método cientí\ufb01co 
compreende os seguintes pressupostos:
Observação exata
É a caracterização do problema em estudo, por meio de instrumentos de medição.
Interpretação correta
É realizada por meio de informações (censos, histórias clínicas, estatísticas, bibliogra\ufb01a, entre-
vistas, etc.).
Explicação racional
É a explicação fundamentada em teorias que justi\ufb01cam as relações-alvo de constatação.
Formulação de hipóteses
É uma tentativa de explicação para um fenômeno observado, uma proposição que necessita 
ser veri\ufb01cada. O conhecimento prévio que se obtém do fenômeno observado é o que vai orientar a 
formulação da hipótese. Esta, por sua vez, indicará que aspectos ou variáveis do fenômeno em questão 
serão estudados, para alcançar a resposta que se busca. A hipótese pode surgir de uma conjectura ou 
uma tentativa de explicação dos fatos observados; pode ser, também, o resultado de outras investi-
gações; ou pode ser extraída de uma teoria.
Veri\ufb01cação de hipóteses
É o momento da análise. A análise implica o processamento dos dados, mediante o cálculo, 
apresentação e interpretação, de modo sucessivo e lógico, de três tipos de medidas: de ocorrência, de 
associação e de signi\ufb01cância estatística.
Conclusões
É o momento da interpretação dos resultados. Interpretar os resultados é observá-los à luz das 
hipóteses e das teorias; e tirar conclusões que serão aportes para a construção de novas teorias ou 
para a complementação e veri\ufb01cação das teorias existentes.
2. Problema epidemiológico
Quando se identi\ufb01ca uma lacuna no conhecimento referente ao processo saúde-doença (a 
exemplo de condições \ufb01siológicas, estilos de vida, níveis socioeconômicos, doenças, agravos à saúde), 
pode se dizer que há um problema epidemiológico.
Temos, como ilustração, problemas epidemiológicos clássicos:
a. Na década de 1840, havia uma ocorrência expressiva da febre puerperal no Hospital Geral 
de Viena. Naquela época, a medicina convivia com uma elevada mortalidade por infecção 
puerperal hospitalar, sem vê-la com estranheza. Ressalta-se que o percentual de mortes por 
febre puerperal entre as mães que davam a luz nas ruas e que a seguir eram internadas era 
sensivelmente menor do que as mães assistidas no Hospital Geral de Viena. O pesquisador 
principal despertou para o fato de que a mortalidade puerperal no primeiro serviço 
mostrava-se quatro vezes superior à mortalidade ocorrida no segundo serviço \u2013 ambos 
situados no mesmo pavilhão. Propôs-se, então, a resolver o enigma: tomou como ponto de 
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Módulo III CBVE
partida, a sua estranheza (problema epidemiológico), e seu percurso consistiu em formular 
sucessivas hipóteses para o problema, cujo conteúdo intuíra.
b. Em 1854, as autoridades sanitárias britânicas enfrentaram um problema médico-social em 
Londres, com uma epidemia de diarréia grave com grande número de óbitos e de acometidos 
e caracterizou-o como problema cientí\ufb01co, formulando a hipótese de que a transmissão da 
doença seria de veiculação hídrica.
c. No \ufb01nal da década de 1998, investigou-se um surto de glomerulonefrite pós-estreptocócica 
atribuído ao Streptococcus zooepidemicus, em um município da zona leiteira de Minas 
Gerais. O surto constitui o maior já documentado de glomerulonefrite pós-estreptocócica 
associado à uma espécie rara de Streptococo, chamada S. zooepidemicus, e resultou em uma 
morbidade importante \u2013 três falecimentos, sete doentes necessitando de hemodiálise, dois 
casos de encefalopatia hipertensiva e 96 hospitalizações.
QUESTÃO 14: Como se identi\ufb01ca um problema epidemiológico?
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3. Quais as fontes geradoras de problemas?
a) Na prática da vigilância epidemiológica
Situações em que problemas podem ser gerados em vigilância epidemiológica. Exemplos:
Problema sanitário
Ocorrência de tétano cirúrgico devido a existência de uma fresta na janela de um hospital con-
tíguo a um estábulo. A vedação da janela foi a resolução do problema.
Insu\ufb01ciência de conhecimento
Qual a fonte de infecção envolvida na transmissão de casos de melioidose no Município cearense 
de Tejuçuoca, no ano de 2003? Água, solo ou alimento?
b) Na atividade acadêmica em suas áreas de atuação (ensino, pesquisa e extensão)
c) Na prática clínica
A prática clínica oportuniza a melhor observação de conglomerados de casos (clusters). Por 
exemplo, dos vários fatores carcinogênicos no homem, muitos foram, pela primeira vez, colocados em 
foco por algum pro\ufb01ssional arguto, como resultado de observação e análise de conglomerados.
Um exemplo clássico de contribuição da clínica é a história do Dr. Gregg \u2013 oftalmologista aus-
traliano da década de 1940 \u2013 que teve sua atenção despertada para a possível associação entre rubéola 
na gravidez e catarata congênita.
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Medidas em Saúde Coletiva e Método EpidemiológicoCBVE
4. Como pensamos epidemiologicamente?
O raciocínio epidemiológico consiste na seqüência de várias operações intelectuais, que se 
complementam na análise de um problema.
Vamos ver como pensou Semmelweis durante a investigação da febre puerperal no Hospital de 
Viena, no século XIX.
A partir de que hipóteses ele norteou a investigação?
1a As mulheres atendidas na Primeira Clínica, por acadêmicos homens, sentiam-se ofendidas, 
e, portanto, estariam mais propensas à febre puerperal.
2a A dieta oferecida estaria produzindo a febre puerperal.
3a A doença puerperal seria originada do dano causado