saude adolecentes
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saude adolecentes


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social, gênero, religião, raça, etnia, geração, orientação sexual.
O princípio da igualdade e da não discriminação promulgada pela Declaração Universal 
dos Direitos Humanos foi enfaticamente reafirmado na Conferência Mundial contra 
o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerâncias, realizada em Durban, em 
2001 (RISCADO; OLIVEIRA; BRITO, 2010).
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Ao trazer para o âmbito da atenção em saúde o tema interculturalidade, a proposta é 
não somente abrir espaços e dar visibilidade para diferentes culturas, mas se dispor a uma 
abertura crítica em favor de um maior conhecimento do \u201coutro\u201d, \u201cbuscando uma compreensão 
de sua forma de ser e estar no mundo, seus saberes, histórica e culturalmente constituídos\u201d 
(BARROS, 2011).
Observa-se, na área da Saúde, certa negligência na busca de informações diversificadas 
no que tange a populações consideradas minoritárias ou com menos impacto na formação 
da pirâmide populacional. Isso pode ser observado pela importante lacuna de dados obtidos 
dos grupos considerados menos relevantes, mas que integram a população. Usualmente, 
ocorre generalização dos achados de pesquisa, sem que alguns grupos tenham sido sequer 
inquiridos para integrarem a base de dados. Portanto, torna-se essencial fomentar a procura de 
informações dos diferentes grupos populacionais numa perspectiva mais ampliada.
O profissional de saúde, ao prestar atendimento, traz sua bagagem cultural cheia de 
atitudes e preconceitos, criados a partir de sua exposição no âmbito da família e classe social, 
indo interagir com sua população-alvo. Deveria, então, estabelecer uma relação dialética 
de troca, na criação de novos saberes com os diferentes grupos e cenários, por exemplo: 
adolescentes em conflito com a lei, populações ribeirinhas, povos indígenas, afrodescendentes, 
quilombolas, ciganos/Roma, entre outros.
Para que sirvam de reflexão e inclusão desses e de outros temas que deveriam ser 
abarcados pelo setor Saúde em um debate intercultural mais amplo, apresenta-se, a seguir, as 
peculiaridades de alguns segmentos populacionais de adolescentes e jovens que são raramente 
incluídos nas pesquisas e nos programas de capacitação profissional.
9Interculturalidade e Saúde
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Ministério da Saúde
9.1 Adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social
A adolescência e a juventude desfavorecida no meio urbano sempre foi um tema de difícil 
abordagem no Brasil, mas não cabe somente entendê-la como um mero reflexo da pobreza ou 
do cenário caótico em que se encontra, e sim dentro de uma ética e, em se tratando de atenção 
de saúde, com respeito aos seus direitos humanos (MEIRELLES; HERZOG, 2008). Em realidade, 
tanto o Estado quanto a sociedade ainda não estão preparados para cuidar de forma adequada 
do grupo em questão, principalmente dos que estão em condições mais vulneráveis. O que se 
observa é adolescentes e jovens desamparados, vivendo um cotidiano repleto de dificuldades e 
com carências econômicas e sociais.
Muitos quando chegam ao sistema institucional são atendidos por intermédio de uma 
série de procedimentos, em geral violentos, com punições rígidas. Na saúde o que se observa 
é um descaso e um excesso de burocracia, que tem por objetivo evitar a inclusão desses 
adolescentes no sistema de atendimento. Não existe, em geral, um acolhimento afetuoso do 
sujeito que, em última análise, é vítima da falta de oportunidades (BERNAL, 2004).
Define-se a violência institucional, segundo o Instituto Patrícia Galvão, como o
tipo de violência motivada por desigualdades (de gênero, étnico-raciais, econômicas 
etc.) predominantes em diferentes sociedades. Essas desigualdades se formalizam 
e institucionalizam nas diferentes organizações privadas e aparelhos estatais, 
como também nos diferentes grupos que constituem essas sociedades. (VINCENSI; 
GROSSI, 2012)
Segundo Assis (2004), na raiz do problema deve-se ressaltar que, durante o processo 
de crescimento e desenvolvimento da criança e do adolescente, a exposição à violência física 
e psicológica deixa marcas indeléveis na autoestima e na competência social. Os seus valores, 
bem como o julgamento que o adolescente faz de si e dos outros, ficam afetados, tornando-o 
mais susceptível às influências externas ao seu núcleo familiar. Evidencia-se que a convivência 
familiar harmoniosa é fundamental para a formação saudável do sujeito. Quando pessoas 
expressivas, como os pais, professores e líderes comunitários cometem atitudes inapropriadas 
ou violentas (como violência física ou emocional) contra o adolescente, provocam sensações 
de menos valia na sua autoconfiança, à medida que, muito pelo contrário, ele esperava respeito 
e compreensão.
Em se tratando de atendimento de adolescentes e jovens, é importante um olhar especial 
sobre as populações que vivem em áreas faveladas, os moradores de rua e, principalmente, 
os que estão envolvidos com o crime organizado ou não. Alguns autores têm pesquisado os 
motivos e implicações ambientais no destino e na criação de potencialidades desses sujeitos, 
contudo, ainda falta estudar os diferentes ângulos dessas questões e com a relevância científica 
a que fazem jus.
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Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica
9.2 Adolescentes e jovens de áreas rurais
As questões que envolvem a dinâmica de vida de adolescentes e jovens moradores de 
áreas rurais geram situações peculiares que deveriam ser entendidas e levadas em consideração 
na organização da atenção à saúde.
Os estudos realizados com populações residentes de áreas longínquas na Região 
do Médio Solimões, no Estado do Amazonas, apontam um fator relevante que é a distância 
geográfica entre os núcleos familiares, com seus estilos de vida e conceitos. As famílias, em 
geral, são numerosas e vivem em regimes patriarcais. Não levando em conta o ECA (BRASIL, 
1990a), a utilização da mão de obra dos filhos desde a mais tenra idade é constante, sendo 
justificada pela necessidade de assegurar a posse do território, sendo eles encarregados tanto 
do cultivo da terra como da pesca e extração da madeira.
Em realidade, nessas formas de organização social, a infância é curta, sendo que a 
fase biológica da adolescência é logo acompanhada das responsabilidades da vida adulta, 
sem que estejam claramente definidos os tempos da adolescência e da juventude, como nas 
organizações sociais modernas que exigem maior tempo de formação social para o desempenho 
das atividades produtivas da fase adulta (MOURA et al., 2000).
A mudança social em curso no Brasil, incluindo a preocupação das relações dos 
indivíduos às questões ambientais, torna evidente a importância da realização de programas 
de capacitação dos profissionais da Estratégia de Saúde da Família (ESF) com enfoque mais 
adequado a esse perfil. Além disso, deve-se refletir sobre como os adolescentes e jovens de 
áreas rurais se situam diante do conjunto de transformações sociais e culturais do mundo, 
observadas por intermédio dos meios de comunicação, principalmente a televisão, e quais são 
seus desejos e ansiedades em função da falta dos avanços tecnológicos que é parte da realidade 
local e que seus pares de outras regiões do País têm direito.
9.3 Povos indígenas
Segundo a FUNAI, entende-se por cultura \u201co conjunto de respostas que uma determinada 
sociedade dá às experiências por ela vividas e aos desafios que encontra ao longo do tempo\u201d 
(BRASIL, 2013a, p. 22-27).
Nesse sentido, a cultura indígena, como qualquer outra vivenciada pela sociedade, está 
em constante transformação e, portanto, é dinâmica em seu processo histórico.
Embora a atenção à saúde dos povos indígenas seja uma prioridade governamental, existe 
uma brecha de conhecimento sobre os hábitos, desejos e frustrações dos jovens moradores das 
aldeias das diferentes etnias. Observa-se, sobretudo, a falta de uma abordagem intercultural 
na formação dos profissionais